10/04/11

Acordes na barbearia

Fui surpreendido num destes sábados na Estrada da Luz, mesmo na fronteira da freguesia de São Domingos de Benfica, com uns acordes de violino que se desprendiam de uma loja de rua. Pensei para comigo, abriu aqui uma loja de instrumentos de música, mas imediatamente percebi algo de inabitual. Observo melhor o instrumentista de pé junto à porta . Os meus olhos esquadrinham o meio à procura de mais informação; por cima da loja, uma tabuleta indica "barber shop", não me chega, descortino um cadeira de barbeiro antiga, o violinista continua a tanger uns acordes, parecem-me de densidade melancólica e emprestam uma certa beleza àquela manhã, olho para o fundo da loja à procura de mais informação, tento vislumbrar profissionais ou clientes que me esclareçam que tipo de loja é aquela com um violinista a tocar.
Sim, é uma barbearia, melhor, hoje em dia é "dois em um", um barbeiro de homens e um cabeleireiro de senhoras na mesma loja . Não sei se o violinista está desempregado e encontra modo de sobreviver ou se é amigo do proprietário, se é uma estratégia de marketing --- vejo depois um cartaz a anunciar a abertura de nova loja. Gosto de pensar utopicamente que poderíamos tornar a vida na cidade em espaços de convivencialidade e de aprendizagem informal em que lojas poderiam aderir a uma rede de "objectos educacionais" como propunha Ivan Illich nos anos 70 do século passado na sua sociedade sem escolas. Gosto de pensar que poderíamos cortar o cabelo a ouvir violino e deslizarmos para o outro lado do espelho, noutro tempo noutro lugar, passando os olhos por < albuns fotográficos de figuras da música e da pop >. Gosto de pensar que em certas condições se poderia aprender o b-a-bá do corte de cabelo ou < a aplicar "henna" no cabelo >, como fazem as mulheres marroquinas.
"BarberShop" Estrada da Luz, 195- A

Centros Comerciais (1) : Galerias Teteia


Como é que dois centros comerciais que estão tão proximos um do outro tiveram futuros tão diferentes? A Teteia, sempre foi um mini centro comercial simpatico, agradavel, com boa manutenção e com algum cuidado por parte dos comerciantes, uma das provas, reparei agora, é que se pensa em mudar pequenas coisas, como os letreiros de certas lojas.


Ha muitos anos atras, tinha uma livraria, uma loja de desporto, uma perfuaria e sempre teve o pequeno café/bar e um telefone publico (que estão em vias de extinção). Também sempre teve a loja das malhas Achega e um dia a “Casa da Pintura” veio trazer ainda mais movimento ao lugar. Esta loja que faz a delícia das pessoas mais manuais também fez as minhas durante os tempos, com o papel e envelopes reciclados. Onde existia a loja de desporto surgiu mais tarde uma loja de bijuteria/joelharia e, na ultima vez que la passei, tinha aberto um gabinete de estética para as mãos e unhas. O espaço é agradavel, bem tratado, familiar, limpo. E talvez essa seja uma das razãoes pela qual o pequeno centro continua ali, de portas abertas, com lojas que se mantêm e outras que vão surgindo.

02/04/11

O " Fó-Fó " no Pina Manique


A minha curiosidade de miúdo concentrava-se em tudo o que se relacionava com o futebol. Quando ia com meus pais no automóvel, em viagens curtas ou longas, um par de balizas num baldio qualquer por esse país, um pequeno campo de jogos ladeado por bancadas modestas, um estádio, fazia-me sonhar . Quando passávamos em Monsanto, muito perto do estádio de Pina Manique, intrigava-me a sua torre branca com as iniciais C A C P e seu emblema, o seu portão e bilheteira, os muros suficientemente altos para não me deixarem ver nenhum pedaço de verde, as deambulações dos jogadores, a cor dos seus equipamentos, decerto tudo tão diferente do meu Benfica.
Naquele domingo corri pelo lado direito, num dos campos de terra batida do Pina Manique, centrei, a bola fez um arco caprichoso…e entrou dentro da baliza, lance de sorte que só acontece a quem joga. Nós, juniores do Clube Futebol Benfica, tínhamos passado a semana na esperança de podermos jogar em Pina Manique, no único campo relvado entre todos os outros onde jogávamos . A época de 1976-77 estava a correr bem, íamos à frente da classificação na fase de grupos do campeonato da Associação de Futebol de Lisboa, marcávamos muitos golos, divertíamo-nos. O jogo adivinhava-se difícil, por ser com o "Casa Pia", com o eco do prestígio do passado dos "gansos".. .
Chegámos ao Pina Manique na velha carrinha do clube e estávamo-nos a equipar no balneário, quando dois de nós, individualidades no jogo colectivo da equipa, deixaram sair uma "boca" mais deseducada, talvez mesmo a achincalhar, dirigida ao Toni. O Toni era caboverdeano. Era alto e tímido, normalmente calado, jogava a avançado e costumava entrar na parte final dos jogos. O "Mister" Rui ouviu, zangou-se, mandou desequipar os dois da ofensa e indicou os seus substitutos. Sei que ficámos por momentos atarantados, fazendo contas à vida, sem os titulares indiscutíveis da baliza e da linha média ofensiva . Nesse dia é certo que do relvado apetecido, só a fotografia de grupo . Também nunca tinha ouvido falar de liderança, de dinâmica ou coesão de um grupo mas o que se passara fez-nos pensar, cerrar os dentes e entrar para ganhar.

Em cima, da esquerda para a direita:
Rui ( treinador), Mário Rui, Xávi, Toni, Capelo, Fernando, Fernando, João Carlos, Charles, Tó, Durão ( massagista );
Em baixo:
Quim, Miguel, Valentim, Vitor Hugo, Vieira, Ramos.