27/07/11

Chá de Rosas


Nessa tarde de domingo resolvemos ir espreitar o Chá de Rosas. Uma amiga tinha-me falado nele e queria mostrar-mo, por isso, pusemos pernas a andar, ou melhor, as rodas do carro a girar e subimos um pouco mais acima do metro do Alto dos Moinhos. O salão de chá fica por baixo das arcadas, do lado esquerdo, dos predios mais recentes de São Domingos de Benfica. Antes de entrarmos reparamos que o Chá de Rosas é muito mais do que um salão de chá, no letreiro lemos também restaurante e biblioteca. Tem uma esplanada de cores frescas que à tarde esta à sombrinha, no entanto, desta vez decidimos ficar la dentro, porque ha mais coisas para ver. Quando se entra, e apesar do site dizer que o estilo é inspirado na provence francesa, achamos que o ambiente é muito inglês. O espaço é composto por duas salas, uma primeira com mesas e cadeiras e muita leitura disponivel, sobretudo revistas, e a segunda sala, mais luminosa, onde estão o balcão, a cozinha, casa de banho e também tem algumas mesas. Nos ficamos na primeira sala, encostadas à janela. Consultamos a lista, fomos pelos chas e pelos scones, mas nessa tarde não ha scones, ha outros bolinhos muito parecidos que também se comem com manteiga e doce. Pedimos um cha e um sumo de laranja natural e ali ficamos a conversar e a folhear revistas. Chega um casal que conversa amigavelmente com a proprietaria do salão, parecem habitués. Queremos aproveitar o resto da tarde e, por isso, decidimos que é hora de ir embora. Vamos pagar ao balcão e damos dois dedos de conversa com a senhora, muito simpatica, que nos diz que o salão ja tem as portas abertas ha 3 anos e que surgiu de uma paixão pelos prazeres da vida, do gosto pela cozinha... fala-nos dos bolos frescos que faz diariamente, diferentes de dia para dia de acordo com a inspiração... que bom haver lugares assim em São Domingos de Benfica. Nos fomos pelos doces, mas o site revela pequenos pratos vegetarianos, saladas, especialidades que deixam com agua na boca e com vontade de la voltar, quando eles regressarem das férias, para experimentar os “salgados”.

O Chá de Rosas tem um site e um blog que vão ja para a nossa lista aqui ao lado.

26/07/11

S. Domingos de Benfica



Neste ultimo regresso a S. Domingos de Benfica reparei em algumas alterações no bairro. Umas em coisas que ja têm aqui no blog "bilhetinhos" e outras coisas novas... nas ultimas vezes que regressava tinha a sensação, cada vez mais, que S. Domingos dormia, mas desta vez vi novidades e fiquei contente. Contudo, digo-me que ainda havia tanta coisa que se podia fazer pelo bairro... e pensei "e se enviasses uma ideia para projecto lançado pela Câmara Municipal de Lisboa?", mas apos confirmação, nesta iniciativa apenas a freguesia de Benfica esta contemplada, São Domingos ficou de fora, e no entanto...


Vou passeando por Lisboa, vou observando os bairros, as diferenças entre eles, aqueles onde apetece viver... Campo de Ourique, por exemplo, se não tivesse a minha historia toda inscrita no bairro que onde em tempos estavam as quintas e casas de campo dos reis, gostava de poder morar em Campo de Ourique. É um bairro que vive, as pessoas têm vontade de sair, as ruas estão repletas de comercios, de cafés de restaurantes de padarias, tem um jardim e esta perto de tudo em Lisboa... é um bairro em quadricula, o que torna certas coisas mais faceis e outras menos, como é o caso dos transportes publicos. S. Domingos de Benfica é em comprimento, com uma optima rede de transportes, Estrada de Benfica fora vão desfilando agora poucos comercios... "são eles que fazem viver os bairros", penso... mas, as portas vao fechando... certamente pela proximidade dos centros comerciais, como o Fonte Nova e mais tarde o Colombo onde é tão facil encontrar tudo no mesmo lugar e por vezes, a preços mais competitivos. Aqui no bairro, cafés e pastelarias temos em quantidade e bons, com especialidades, à vontade do freguês, é caso para dizer, mas comércios... tirando alguns antigos que felizmente se mantêm em vida o que vai abrindo são lojas de sofas, centros de nutrição, centros de fotocopias, lojas de moveis, centros de fitness... enfim... coisas que não são de utilização e consumo diarios e que trazem as pessoas para a rua... ha as lojas de chineses que movimentam os domingos...

Não é facil ousar abrir um comércio numa altura destas e num bairro que não esta a crescer em conjunto nesse sentido, no entanto, novas iniciativas e uma ou outra porta despertam a curiosiade e trazem agumas pessoas para a rua... o Minipreço fecha às 21h agora, do outro lado do passeio abriu um café novo, na Rua Montepio Geral abriu uma nova esteticista, la em cima ao pé do café Columbia, em frente à Escola Delfim Santos, ha uma nova livraria. Mas também ha a livraria Numeros Simétricos, um bocadinho escondida, mas que tem as portas abertas. Quando entrei la neste dia, todo o espaço era dedicado à livraria, hoje é metade papelaria e metade livraria...

... e fiz outra agradavel descoberta, mas deixo para depois...

19/07/11

Apelo 21
















Está em curso até ao dia 30 de Julho  a candidatura aos “Apelos 21”.

Os "Apelos 21" são um instrumento de  participação que visam o envolvimento dos cidadãos e das associações da  sociedade civil, na definição e implementação de projectos que permitam alcançar  o desenvolvimento sustentável da cidade e dos seus  bairros.

Vamos lançar  dois tipos de Apelos 21: os Apelos de  Bairro e os Apelos  Cidadãos.

 O  "Apelo Bairro  21" é uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa no  âmbito da sua Agenda 21 Local e consiste num convite lançado a todos os bairros  localizados no território que engloba as freguesias de Ameixoeira, Benfica, Carnide,  Charneca e Lumiar.

 O  "Apelo Cidadãos  21" é um convite lançado a todos os cidadãos residentes nas  freguesias anteriormente referidas, para apresentarem  "boas ideias para a  sustentabilidade". Serão premiadas, no máximo, as  cinco melhores ideias de projectos, uma por cada freguesia em  estudo.

Para participar basta preencher  um formulário disponível nas sedes das Juntas de Freguesia envolvidas, na Câmara  Municipal (Departamento de Modernização e Sistemas de Informação/Divisão de  Inovação Organizacional e Participação) ou através da Internet em: www.lisboaparticipa.pt.

O formulário, depois de  preenchido, deve ser enviado por correio electrónico para a21l@cm-lisboa.pt ou em papel por  correio postal para Câmara Municipal de Lisboa, Gabinete da Vereadora Graça  Fonseca, Paços do Concelho, Praça do Município, 1149-014 Lisboa.


10/07/11

Quarto com vista para o Jardim Zoológico

"(…) Lembra-se das águias de pedra da entrada do Jardim e das bilheteiras semelhantes a guaritas de sentinela onde oficiavam empregados bolorentos, a piscarem órbitas míopes de mocho na penumbra húmida? Os meus pais moravam não muito longe, perto de uma agência de caixões, mãos de cera e bustos do padre Cruz, que os uivos nocturnos dos tigres faziam vibrar de terror artrítico nas prateleiras da montra, inválidos do comércio místicos que decoravam os topos dos frigoríficos sobe ovais de crochet, de tal forma que o ronronar dos aparelhos se diria nascer dos seus esófagos de barro, afligidos de indigestões de galhetas. Da janela do quarto dos meus irmãos enxergava-se a cerca dos camelos, a cujas expressões aborrecidas faltava o complemento de um charuto de gestor. Sentado na retrete, onde um resto de rio agonizava em gargarejos de intestino, escutava os lamentos das focas que um diâmetro excessivo impedia de viajarem pela canalização e de descerem no jacto das torneiras grunhidos de examinador de matemática. A cama da minha mãe gemia em certas madrugadas o lumbago do elefante desdentado que tocava a sineta contra um molho de couves, num comércio centenariamente inalterável à inflação, comandada pela asma do meu pai em assopros ritmados de cornaca. A mulher dos amendoins, a que faltava o cotovelo esquerdo, montava a sua indústria de alcofas nos baixos da nossa varanda, e narrava à minha avó em discurso verticais, de baixo para cima, as bebedeiras do marido, através de cuja violência explodiam capítulos de Máximo Gorki da Editorial Minerva. As manhãs povoavam-se de tucanos e de íbis servidos com as carcaças do pequeno-almoço que abandonavam nos dedos a farinha ou o pó dos móveis por limpar. A mancha do sol da tarde trotava no soalho na cadência furtiva das hienas, revelando e escondendo os desenhos sucessivos do tapete, o relevo lascado do rodapé, o retrato de um tio bombeiro na parede, iluminando os bigodes , de que o capacete areado cintilava reflexos domésticos de maçaneta. No vestíbulo havia um espelho biselado que de noite se esvaziava de imagens e se tornava tão fundo como os olhos de um bebé que dorme, capaz de conter em si todas as árvores do Jardim e os orangotangos dependurados das suas argolas à laia de enormes aranhas congeladas. Por essa época, eu alimentava a esperança insensata de rodopiar um dia espirais graciosas em torno das hipérboles majestáticas do professor preto, vestido de botas brancas e de calças cor -de- rosa, deslizando no ruído de roldanas com que sempre imaginei o voo difícil dos anjos de Giotto, a espanejarem nos seus céus bíblicos numa inocência de cordéis. As árvores do rinque fechar-se-iam, atrás de mim entrelaçando as suas sombras espessas, e seria essa a minha forma de partir. Talvez que quando eu for velho, reduzido aos meus relógios e aos meus gatos num terceiro andar sem elevador, conceba o meu desaparecimento não como o de um naufrago submerso por embalagens de comprimidos, cataplasmas, chás medicinais e orações ao Divino Espírito Santo, mas sob a forma de um menino que se erguerá de mim como a alma do corpo nas gravuras do catecismo, para se aproximar, em piruetas inseguras, do negro muito direito, de cabelo esticado a brilhantina, cujos beiços se curvam no sorriso enigmático e infinitamente indulgente de um buda de patins(…)".

Excerto de
"Os Cus de Judas"
de
António LOBO ANTUNES

foto retirada de http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Jardim_Zoologico_Lisboa_1.JPG