Fui surpreendido num destes sábados na Estrada da Luz, mesmo na fronteira da freguesia de São Domingos de Benfica, com uns acordes de violino que se desprendiam de uma loja de rua. Pensei para comigo, abriu aqui uma loja de instrumentos de música, mas imediatamente percebi algo de inabitual. Observo melhor o instrumentista de pé junto à porta . Os meus olhos esquadrinham o meio à procura de mais informação; por cima da loja, uma tabuleta indica "barber shop", não me chega, descortino um cadeira de barbeiro antiga, o violinista continua a tanger uns acordes, parecem-me de densidade melancólica e emprestam uma certa beleza àquela manhã, olho para o fundo da loja à procura de mais informação, tento vislumbrar profissionais ou clientes que me esclareçam que tipo de loja é aquela com um violinista a tocar.Sim, é uma barbearia, melhor, hoje em dia é "dois em um", um barbeiro de homens e um cabeleireiro de senhoras na mesma loja . Não sei se o violinista está desempregado e encontra modo de sobreviver ou se é amigo do proprietário, se é uma estratégia de marketing --- vejo depois um cartaz a anunciar a abertura de nova loja. Gosto de pensar utopicamente que poderíamos tornar a vida na cidade em espaços de convivencialidade e de aprendizagem informal em que lojas poderiam aderir a uma rede de "objectos educacionais" como propunha Ivan Illich nos anos 70 do século passado na sua sociedade sem escolas. Gosto de pensar que poderíamos cortar o cabelo a ouvir violino e deslizarmos para o outro lado do espelho, noutro tempo noutro lugar, passando os olhos por < albuns fotográficos de figuras da música e da pop >. Gosto de pensar que em certas condições se poderia aprender o b-a-bá do corte de cabelo ou < a aplicar "henna" no cabelo >, como fazem as mulheres marroquinas.
"BarberShop" Estrada da Luz, 195- A

