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15/05/12

Rodando pela estrada de benfica ....a caminho de Sintra

" Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara sempre muito de Sintra...Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma vaga ideia de grandes rochas e nascentes de águas vivas...E terminou por confessar que desde os nove anos não voltara a Sintra. O quê ! o maestro não conhecia Sintra? Então era necessário ficarem lá, fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos Amores, barquejar na Várzea...
-- A mim o que me está a apetecer muito é Seteais; e a manteiga fesca.

-- Sim, muita manteiga -- disse Carlos. --E burros, muitos burros ... Enfim, uma écloga!
 O break rodava na Estrada de Benfica: iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu maço de cigarros à porta dependurado de uma guita: e a menor árvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de colina verde, encantavam Cruges. Há que tempos que ele não via o campo! "

in Os Maias, Eça de Queirós
Biblioteca Visão, vol 1

foto http://jorgesilva.fotosblogue.com/7785/Estrada-de-Benfica-1889/

14/12/11

A Casa de Saúde de Benfica

Já aqui mostrámos anúncios a esta casa de saúde. Este postal data dos anos vinte.
Clicar para ampliar.

19/10/11

Andar na escola num outro tempo

O externato era num rés do chão de quatro assoalhadas adaptado a escola, num prédio situado num largo com jardim, em São Domingos de Benfica. O "Se´sôr", abreviatura de senhor professor, vivia no 1º andar desse mesmo prédio, andava com uma cana comprida na mão, fumava "Definitivos", segurando o cigarro com os dedos amarelos, por vezes a cinza caia no chão.
Era tudo muito auditivo, a palavra do professor, as tabuadas cantadas, a leitura dos textos em voz alta, restava pouco para o visual ! Muita repetição nos cadernos, a escrita em duas linhas, a aritmética no papel quadriculado , não me lembro de caderno de desenho a partir da 2ª classe, relegado para o espaço em branco do cabeçalho por cima das cópias, vá lá, 3 centímetros, a ilustrar. Gostava do exercício da cópia de palavras difíceis numa tira de papel pautado, dividida ao meio, à esquerda o modelo bem escrito, à direita o espaço para copiar correctamente, era o " linguado ", gostava destas palavras que imaginava preencherem a "espinha do peixe".
Da casa do professor no 1º andar, vinha às quintas feiras de manhã a telefonia para o programa musical da emissora nacional, pegado em peso, cuidado com o estrado, no lugar do "Se`sôr" a telefonia, em cima da secretária, tínhamos de esperar que as válvulas aquecessem para o hino nacional, para a marcha da mocidade portuguesa, lá íamos "marchando e rindo…cantando, levados " sim levados, o pretinho Barnabé…a loja do mestre André...o burrinho que ia para ..., carregadinho de …! Nós gostávamos desta meia hora de audio, era uma quebra da rotina das cópias , dos ditados, os" tanques " enchiam-se à tarde de problemas de aritmética.

02/04/11

O " Fó-Fó " no Pina Manique


A minha curiosidade de miúdo concentrava-se em tudo o que se relacionava com o futebol. Quando ia com meus pais no automóvel, em viagens curtas ou longas, um par de balizas num baldio qualquer por esse país, um pequeno campo de jogos ladeado por bancadas modestas, um estádio, fazia-me sonhar . Quando passávamos em Monsanto, muito perto do estádio de Pina Manique, intrigava-me a sua torre branca com as iniciais C A C P e seu emblema, o seu portão e bilheteira, os muros suficientemente altos para não me deixarem ver nenhum pedaço de verde, as deambulações dos jogadores, a cor dos seus equipamentos, decerto tudo tão diferente do meu Benfica.
Naquele domingo corri pelo lado direito, num dos campos de terra batida do Pina Manique, centrei, a bola fez um arco caprichoso…e entrou dentro da baliza, lance de sorte que só acontece a quem joga. Nós, juniores do Clube Futebol Benfica, tínhamos passado a semana na esperança de podermos jogar em Pina Manique, no único campo relvado entre todos os outros onde jogávamos . A época de 1976-77 estava a correr bem, íamos à frente da classificação na fase de grupos do campeonato da Associação de Futebol de Lisboa, marcávamos muitos golos, divertíamo-nos. O jogo adivinhava-se difícil, por ser com o "Casa Pia", com o eco do prestígio do passado dos "gansos".. .
Chegámos ao Pina Manique na velha carrinha do clube e estávamo-nos a equipar no balneário, quando dois de nós, individualidades no jogo colectivo da equipa, deixaram sair uma "boca" mais deseducada, talvez mesmo a achincalhar, dirigida ao Toni. O Toni era caboverdeano. Era alto e tímido, normalmente calado, jogava a avançado e costumava entrar na parte final dos jogos. O "Mister" Rui ouviu, zangou-se, mandou desequipar os dois da ofensa e indicou os seus substitutos. Sei que ficámos por momentos atarantados, fazendo contas à vida, sem os titulares indiscutíveis da baliza e da linha média ofensiva . Nesse dia é certo que do relvado apetecido, só a fotografia de grupo . Também nunca tinha ouvido falar de liderança, de dinâmica ou coesão de um grupo mas o que se passara fez-nos pensar, cerrar os dentes e entrar para ganhar.

Em cima, da esquerda para a direita:
Rui ( treinador), Mário Rui, Xávi, Toni, Capelo, Fernando, Fernando, João Carlos, Charles, Tó, Durão ( massagista );
Em baixo:
Quim, Miguel, Valentim, Vitor Hugo, Vieira, Ramos.

24/03/11

Quer ir para Bemfica?

Apanhe a carreira à Rua dos Capelistas. Corria o ano de 1891.

Guia Ilustrado de Lisboa, 1891

10/03/11

O Traquinas

Assim era publicitada essa loja de móveis para criança  na revista Mamãs e Bebés, no ano de 1964.
Alguém arranja  uma fotografia mostrando o  que se passa actualmente com este espaço?

Clicar para ampliar.

03/03/11

"Benfica e o rio da minha aldeia"



Foi com surpresa que descobri em ambos os lados do rio Tejo, no cais do Ginjal como documentam as fotos, e no cais de Algés junto à Doca Pesca, a referência METALURGICA DE BEMFICA,Ldª-LISBOA, incrustadas na base dos postes de amarração dos cabos dos navios. Não tinha conhecimento da existência de uma fundição em Benfica, mas através do blog e do FB do "Mercado de Bem-Fica" confirmei que de facto existiu, nos anos 30 do século passado, mas já não existem vestígios em seu sítio . Estas marcas lembram a ligação de Benfica com a cidade e com o seu rio.

27/01/11

21/01/11

A Lição


O professor já topara, o puto atrasado e com pouca vontade em começar o aquecimento, enquanto os colegas esperavam sentados no chão, nas suas posições na sala que funcionava como se fosse um ginásio. "OH ! SEU ZÉQUINHA …"ouvia-se então a voz do professor a troar pelo ar, o puto retardatário ainda arrastar-se com o frio da manhã, a enfiar o blusão, ainda não estava a perceber, se fosse preciso o professor aproximava-se e abria muito os olhos, "SEEUU... ZÉQUIIIiNHA ...!!!", podia-se sentir o seu hálito , e o puto lá percebia ... Era a sério, mas era "uma coisa teatral, de meter medo" , o que fazia o Professor Martins , no resto dava lições. Na Escola Preparatória Pedro de Santarém, acabada de inaugurar em Benfica, mesmo no início de 70, foi o professor que me marcou mais em três anos.
Nas aulas do Professor Martins desenvolviamos durante a semana o Atletismo e o Voleibol, e aos sábados participávamos nas actividades "circum-escolares" do desporto escolar. Eu adorava futebol , nunca o joguei nas aulas de ginástica mas em troca fiquei com os gestos técnicos indispensáveis à prática de desportos que não conhecia; as manchetes, os puxanços, os vóleis, primeiro o domínio individual, depois os jogos e em seguida a competição. O atletismo fazia-se à volta da escola, nas corridas longas, marcaram-se as pistas para a velocidade , atrás das oficinas.
Na porta envidraçada de acesso ao bufete dos alunos, nessa manhã de segunda -feira, estava afixada uma nota do Profº Martins, sobre os resultados do desporto escolar de fim de semana. "No corta-
-mato realizado no domingo passado no Campo Grande, conseguimos o 3º lugar. A equipa esteve incompleta, sem Xavier e Hilário
".
Durante a semana anterior tínhamos treinado para o corta-mato, saía-nos os bofes pela boca, eu sempre gostara de correr, desembaraçava-me nas corridas de resistência, lutava pelo primeiro lugar mas nem sempre o conseguia, o professor incitava-nos. Estava convocado para o corta-mato, no domingo às 10 horas! Acontece que eu gostava muito de futebol e aos domingos ia com o meu avô à Luz , ver o Benfica; começava às onze da manhã com os juniores, à tarde os seniores, era o programa completo de futebol " à antiga portuguesa". Enganei-me de propósito na hora da convocatória do corta mato, para o perder, e seguir para o futebol ,a tempo de ver o jogo dos juniores , ou seja , preferi a bancada à competição.
Na segunda feira lá estava a notícia no vidro afixado, e havia uma parte que era "toda ela para mim"; eu pertencia à equipa de atletismo do Pedro de Santarém, a minha presença podia ter feito a diferença . O professor Martins nunca me pediu explicações da minha ausência, não foi preciso, a Lição estava dada.

Dedico este texto à memória do Professor Martins

foto retirada do sites.esjgf.com/esjgf/historia-1/.../escola-basica-2-3-pedro-de-santarem

09/01/11

O "rink" da Gomes Pereira


Na minha infância, a sede do Sport Lisboa e Benfica era na Avenida Gomes Pereira , logo a seguir à Fabrica Simões, para quem vem, como eu vinha, da estrada de Benfica, onde descia do eléctrico em que viajava desde São Domingos de Benfica, acompanhado pela Judite , a servir na minha casa , e que hoje todos os meus consideram da família sendo a inversa igualmente verdadeira .
As aulas de ginástica eram por volta das seis da tarde, nem sempre me apetecia ir, devia querer brincar , tal com o a minha filha não lhe apetece ir ao ballet ou a coro, por vezes íamos a andar quase a correr num "stress à anos 60"!,uma vez caí e parti um dente de leite, devia ter 4 ou 5 anos, acho que fiz duas épocas de ginástica no Benfica.
Várias vezes ao longo dos anos, tenho pensado que me tem sido muito útil esse tempo de ginástica, já que me deram uma essencial "gramática" físico-motora , que me tem dado imenso jeito. O rinque da sede do SLB, onde se jogava hóquei em patins, era onde eu fazia a maioria das minhas aulas de ginástica, e era circundado por uma bancada em cimento, de um dos lados, por uma bancada de madeira do lado oposto, e num dos topos, pelo peão.
Ao ver as fotografias reparo que o grupo era misto, quanto ao género, pelo menos nos saraus como o que a imagem reporta; naqueles anos 60 em Portugal, a coeducação dos sexos, no ensino oficial e particular, não era praticada, era mesmo proibida devido à influência da igreja na sociedade.
Nos dias de chuva, os professores, um homem e uma mulher, creio que casal, levavam-nos para um "ginásio", onde existiam plintos, cavalo com arções e outros equipamentos de ginástica.
Voltei à Gomes Pereira, várias vezes depois disso , a seguir ao 25 de Abril vi lá sessões estivais de cinema ao ar livre, e por volta dos trinta anos voltei a utilizar o rinque , alugado pelos fregueses e por malta amiga, para jogar futebol de salão, já depois de ter deixado de ser propriedade do clube, e passar a ser equipamento da Junta da Freguesia de Benfica . Foi nessa altura, que guiado pelas minhas memórias e nostalgias procurei o "ginásio" onde fazíamos os exercícios quando chovia; deparei-me incrédulo que esse espaço era afinal uma minúscula sala,pelo que me "revi" retroactivamente como Gulliver no país dos gigantes ou ali e naquele momento em Liliput, e lembrei-me do artista plástico e cartonista Sam, que brincava com as dimensões dos objectos do quotidiano para criar absurdo.

09/11/10

Corona



Vai para uns anos que comprei para a minha colecção, numa feira de

velharias em Caldas da Rainha, um emblema usado habitualmente nas
grelhas de radiador de automóveis antigos - hoje os automóveis são só
plástico - das Malhas Corona.
Fiquei por aí,  pois os meus conhecimentos, são o que são.
Recentemente ao ver as revistas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, de
1949, verifiquei que o mesmo pertencia a uma empresa de São Domingos
de Benfica, Figueiredo & Cia, Lda, - que desconhecia por completo a
sua existência, e que pelos vistos grande projecção Industrial deveria
ter na época tal como outras grandes fábricas de Benfica.
Assim fica a história da identificação de mais uma peça, podendo desta
forma dar mais cores à publicidade, que na época só o era a uma cor.
Esta história fica bem no Dias, mas também em qualquer lugar... de Benfica

Enviado por Carlos Caria

21/10/10

Os jogadores de futebol do Benfica


Até aos primeiros anos da década de setenta, o futebol era muito central na vida dos portugueses, circunscrita que estava a sua liberdade para outros assuntos mais importantes.
O Sport Lisboa e Benfica era vencedor sem grande oposição a nível nacional. Eu, com 10 ou 11 anos, pensava muitas vezes que era "especial", beliscava-me. Como é que se poderia ter tanta sorte ? Ser do clube campeão ( tantas vezes ) no país e no estrangeiro, de ter familiares tão ligados ao futebol do clube, e de viver tão perto do Estádio da Luz?
Tinha por vezes compaixão silenciosa pelo meu tio Vilas, o único sportinguista da família, que apanhava robalos nas pescarias desportivas nas marginais dos seus tempos livres e que entristecia , manso, nas discussões familiares sobre bola.
De São Domingos a Benfica estávamos no centro futebolístico da simpatia e da paixão clubista, muitos jogadores moravam lá,
como no dia em que vi entrar na sala de aulas do externato, o Cavém, bi-campeão europeu, com o filho, e o professor a perguntar se alguém sabia o nome daquele senhor e eu a saber muito bem que ele jogava com o número dois nas costas e a fazer um brilharete respondendo sem hesitação, como a mais nada, respondi na ponta da língua na escola primária,
podíamo-nos cruzar com o extremo esquerdo Simões," o rato atómico", ao pé do Califa, ainda incrédulo a tentar explicar por gestos a um amigo, as palavras não serviam, como é que na véspera , depois de se recuperar três golos ao grande "Celtic" se perdeu ingloriamente com uma moeda ao ar,
passávamos na praça Drº Nuno Pinheiro Torres a caminho da escola e olhávamos sempre embasbacados para o SAAB, amarelo canário do Eusébio,
" Passem a bola ao preto …! " era o que eu ouvia nos momentos mais difíceis dos jogos mais decisivos, a meu lado nas bancadas, quando tudo parecia perdido, a esperança da multidão condensava-se
nos seus movimentos, como uma pantera , Eusébio da Silva Ferreira,
" Passem a bola ao preto..." era um pedido e um reconhecimento, dentro do campo só não estava em pé de igualdade com os outros porque era o melhor.
Nos "furos" da escola preparatória, eu e os meus colegas iniciámos umas escapadelas ao antigo estádio da Luz para ver os treinos do "Benfica" e aproveitávamos para pedir autógrafos aos jogadores e admirar as " máquinas" em que se transportavam . Conhecíamos bem o estádio e os portões gradeados do lado do 3º anel que aos dias de semana estavam abertos e pelos quais nos esgueirávamos infiltrando-nos dentro do estádio, raramente avistando funcionários do clube, para nos instalarmos à socapa nos camarotes a assistir aos duros mas divertidos treinos ministrados pelo treinador inglês Jimmy Hagan, e às destrezas de Néne, Jordão, José Henriques , Bento e muitos outros .
Corria tudo sem problemas, excepto no dia em que os "penetras" no treino se manifestaram com pouco recato e com menor admiração pelas execuções dos craques, assobiando e apupando, o que apanhou desprevenidos os jogadores que não se sabiam observados e que estavam num curto período de resultados menos bons. E vai daí, com tamanho "stress" profissional, o Simões, na altura um dos jogadores mais veteranos, começou a lançar imprecações na nossa direcção, que àquela distância, fazia lembrar os balões sem palavras da Banda Desenhada com bombas de pavio acesso, correntes, frascos de veneno e raios o que provocou a nossa rápida retirada. A revolta dos ídolos era coisa difícil de sustentar...

07/10/10

O bilhete " operário"




Em 1970 havia um eléctrico que vinha de Sete - Rios, provavelmente do Arco do Cego, e terminava no Calhariz de Benfica perto do local onde se viria a construir o "Califa ". Mas o que me interessava mais era o eléctrico que continuava e que seguia para as Portas de Benfica e que me levava para a Escola Pedro de Santarém. O bilhete normal custava 50 centavos. Havia uma variante desta carreira, o "operário", que se podia apanhar antes das oito horas e que permitia adquirir uns bilhetes sub-compridos que permitiam ir e voltar, por 80 centavos; poupava 20 centavos que me davam para comprar uma carteira de cromos.
Para isso tinha que me levantar mais cedo, no Inverno ainda era de noite antes das oito, às vezes com frio e chuva… custava acordar... mas havia um bónus à espera . Eu sabia que o eléctrico passava entre os 15 e os 10 minutos antes da hora certa, saía a correr de casa virava a esquina , dava uma corrida e lá vinha o eléctrico ainda com as luzes acesas do letreiro superior indicando a direcção e a desejada indicação lateral "operário". Quando não o conseguia apanhar, tinha que comprar o bilhete de tarifa normal, 50 centavos, e se queria utilizar os outros 50 centavos que me davam para os transportes, para outro fim de divertimento pessoal, " vício" coleccionista ou outro, arriscava andar "à penda". 
Entrava na porta oposta à da presença do pica bilhetes de preferência em eléctricos cheios ou de duas carruagens, sabia-se o percurso bem, os sítios onde se podia saltar com mais segurança, ou seja, onde o eléctrico não dava tanta "mecha", e saltava-se à aproximação do pica bilhetes. Para fazer o percurso inteiro, se ainda estivéssemos longe do destino, apanhava-se o próximo eléctrico , se tivéssemos sorte…se não, ia-se a pé. 
O que eu não podia saber na altura, aos solavancos, no "operário" pela estrada em direcção a Benfica , a pensar na colecção de cromos da bola ou na futebolada que iria disputar, é que na direcção oposta para Sete Rios já tinha passado há uns minutos num outro eléctrico, uma miúda que para apanhar o bilhete operário, e amealhar para, enfim, pastilhas, gelados, cromos, bolas de Berlim, se tinha levantado às 7 e trinta da matina , à revelia da mãe, para chegar à Escola Pedro de Santarém feminina, em Sete Rios, e depois esperar à porta ,meio adormecida, pela abertura do estabelecimento escolar.




Texto de João Xavier e contributo da São Marques. Foto de Goulart, AML

Ir para Benfica


 



Duma pequena agenda pessoal e incluída nas  indicações de utilidade, eis as carreiras de eléctricos e de autocarros de Lisboa em 1954.
Clicai na imagem e ampliai.

Ora encontrai os eléctricos que serviam Benfica.

03/10/10

" O Estádio "


O antigo estádio da Luz foi um local importante na geografia da minha infância, pois morava muito perto dele, num largo à estrada de benfica. Com os tempos, aprendi a "ler" os sons que vinham do estádio, como se fosse um índio a decifrar sinais de fumo na pradaria; a imagem não é completamente fílmica porque entre a minha casa e o estádio existiam quintas dedicadas à agricultura e lacticínios, campos de trigo e vacarias, ligadas por azinhagas empedradas, e que prolongavam a antiga Rua dos Soeiros, da estrada de Benfica à estrada da Luz . Mesmo que não tivesse ido à bola, perscrutava os sons desde o meu largo e interpretava-os, sabia se tinha sido golo do Benfica, qual o nível do entusiasmo das exibições e das vitórias, a irritação protestativa do público quando as coisas não corriam bem ou o silêncio barulhento dos maus resultados, os golos dos adversários nos jogos importantes. Comecei a aprender muito cedo, a primeira vez que fui ao estádio da luz em dia de jogo , tive medo, era muito pequeno, assustei-me com os gritos do público, os pés das pessoas contra o cimento das bancadas do terceiro anel, as manifestações efusivas aquando da marcação dos golos, talvez os protestos contra as decisões do árbitro e o bruáá desesperado quando a bola não entrava.
Hoje quando vou à bola no novo Estádio da Luz , já não vou pelas azinhagas de que restam apenas vestígios e já não passo pelas poucas quintas que sobrevivem mas se olhar com atenção para a direita na entrada dos Altos dos Moinhos do novo estádio sei exactamente onde se erguia o antigo Estádio da Luz.
Se "olhar com atenção", o meu avô ainda lá está a meu lado nos lugares cativos por baixo do 3º anel, nos dias e noites de jogos grandes, os vizinhos da bola a apertarem-se na bancada para o puto se puder sentar, o avô a dar joelhadas reflexas no neto, querendo muito chegar àquela bola, em movimentos inscritos no corpo de futebolista da década de trinta, enquanto mastigo rebuçados, é prá tosse otimel, é prá tosse , e o vizinho da fila de baixo à esquerda, o da voz rouca, desenrola o farnel ,
tínhamos que ir mais cedo nos jogos grandes, mesmo os sócios com lugar cativo como o meu pai e o meu avô, o estádio com sessenta mil pessoas esgotado,
farnel a sério com garrafão de 5 litros, o vizinho da voz rouca a oferecer do farnel, e a sorrir, enquanto o jogo não começava, e eu a pensar agora, que nunca lhe ofereci um rebuçado para a tosse,
nos jogos europeus a emoção era muita, era o somatório dos resultados de dois jogos, tínhamos estado em vantagem e agora já não, mas veio o terceiro golo e foi a alegria total, tudo a abraçar-se, mas o vizinho da fila de baixo à esquerda deitado com a comoção,
façam-lhe respiração boca a boca,
felizmente foi passageiro,
deixe lá o farnel e o garrafão de 5 litros,
o jogo a continuar e logo a seguir o Benfica faz 4-1 e depois a marcar o quinto, o delírio total,o vizinho ainda não estava bem recuperado, voltou a vacilar, mas nenhuma sombra passou pelo estádio…
Se fechar os olhos e me concentrar, acho que ainda posso ver o que via quando,
depois de uma soalheira tarde de bola na Luz , descendo a rua dos Soeiros com meu pai até à estrada de benfica,
fechava os olhos , ainda com as retinas impregnadas do verde do campo , das camisolas berrantes e de luz intensa e clara.

30/08/10

Colégio


































O maravilhoso Instituto Lusitano. Colégio para ambos os sexos, mas em sedes separadas. Uma bela descrição  das instalações. Tudo no Palácio Feiteira e Palacete Peyssoneau. Frescas hortaliças e leite puro das vacas do estábulo.

Anúncio publicado no Almanaque Alentejano de 1942.

30/07/10

Memórias do Califa


Compro todos os meses a revista Pais e Filhos e, o mês passado, fui surpreendida com este relato da Sarah Adamopoulos na crónica Velha Infância.

O Califa

"Éramos três, os filhos-crianças da nossa mãe, que o nosso pai músico, de novo rumado à sua Paris natal, passou a ver esporadicamente depois do fim do casamento. Morávamos numa encruzilhada de caminhos entre a mata e a Estrada de Benfica, zona de prédios então recentes e de trilhos de eléctricos ainda quentes - não muito longe do Bairro Grandella, ou do Palácio Fronteira, a casa encantada da floresta do outro lado da linha. A Benfica de António Lobo Antunes não ficava longe, era só virar à esquerda junto ao Califa, a melhor pastelaria do mundo, onde levantávamos os bolos que a nossa mãe nos oferecia como pagamento pelos nossos serviços domésticos. No Califa ficava o paraíso, que nós levávamos para casa dentro de uma caixa de cartolina fininha, onde o Senhor Lopes depositava a orelha de abade da mãe, o angolano do meu irmão, a pirâmide da minha irmã e um dos vários bolos de que eu gostava. Lá em cima, naquilo a que chamávamos o monte, a dez minutos a pé pelo chemin des écoliers que nós fazíamos duas vezes ao dia, enfrentando aquilo como pequenos e bravos combatentes (porque havia, dizia-se, homens tarados sexuais, que eram capazes de engravidar até mesmo crianças, lançando-lhes espermatozóides para os olhos), ficava a escola do Magistério Primário. Nessa escola, em 1972/73 ainda só de raparigas, andei um ano de bata branca e fui aluna da professora Elisa, uma fada que me ensinou a amar a língua portuguesa e os poetas."

(a imagem é do próprio site do Califa)