afinal o sical disse-me para ir mais para norte (de lisboa) e assim fiz. até havia umas quantas coisas que queria ver e conhecer em benfica e fui até la. apanhei o autocarro e desci na paragem do cruzamento com a estrada de benfica - av. do uruguai - av gomes pereira. na estrada de benfica experimentei os famosos doopies, escolhi o de caramelo com um café curto. o dia cinzento pedia doce. dali subi a av do uruguai até parar na montra da ulmeiro. ja la tinha estado à porta, mas nesse dia estava fechada. hoje entrei e para rimar (ou nao) adorei. tudo. o cheiro. os livros. a desordem. os papeis a classificarem aquilo que parecia o caos. os moveis. as cadeiras. os objectos. o gato. a chuva la fora. a musica portuguesa. os vampiros antigos. as revistas de decadas antigas no século passado. aquele espaço é magnifico, on s'y sent bien. vraiment bien. fiquei de olho em duas cadeiras. talvez regresse. dali desci, de chapeu aberto e atravessei para a avenida gomes pereira. queria muito conhecer a living places and you. fui andando, vi a fabrica simoes abandonada aos andaimes... que magnifica biblioteca poderia existir ali... uma das maiores freguesias de lisboa nem tem biblioteca... o auditorio carlos paredes, a junta de freguesia de benfica e finalmente a loja que procurava. espreitei a montra e entrei. ia pela loiça do bordalo pinheiro. queria comprar canecas, um jarro (que andava a namorar ) e uma salva de pé (aprendi que se chamava assim no museu de arte antiga). gosto tanto desta loiça e as cores sao tao bonitas que a se torna dificil escolher, apetece trazer uma de cada. se ainda se fizessem enxovais no seculo XXI esta loiça estaria no meu bau, sem naftalina, uma peça de cada cor (apesar de adorar loiça branca). e como queria cor trouxe esta caneca azul, um jarro vermelho e a salva de pé para os meus muffins tera que ficar para mais tarde porque nao havia a cor e os motivos que eu queria. nao esta ali nenhum jota na caneca, mas sinto que ela é à medida deste blog e tomara o lugar desta que ficou arrumada nas caixas no norte de portugal. vim almoçar a casa e depois pensei em ir entao para a baixa, mas nao sei se foi a chuva, se foi a caneca, se o livro, se os três juntos que me deixaram colada ao sofa. é bom poder dar-me ao luxo de estar simplesmente em casa, em lisboa, sem a urgencia de absorver tudo para criar reservas para os meses pos férias. é muito bom.
09/06/13
lisboa norte
afinal o sical disse-me para ir mais para norte (de lisboa) e assim fiz. até havia umas quantas coisas que queria ver e conhecer em benfica e fui até la. apanhei o autocarro e desci na paragem do cruzamento com a estrada de benfica - av. do uruguai - av gomes pereira. na estrada de benfica experimentei os famosos doopies, escolhi o de caramelo com um café curto. o dia cinzento pedia doce. dali subi a av do uruguai até parar na montra da ulmeiro. ja la tinha estado à porta, mas nesse dia estava fechada. hoje entrei e para rimar (ou nao) adorei. tudo. o cheiro. os livros. a desordem. os papeis a classificarem aquilo que parecia o caos. os moveis. as cadeiras. os objectos. o gato. a chuva la fora. a musica portuguesa. os vampiros antigos. as revistas de decadas antigas no século passado. aquele espaço é magnifico, on s'y sent bien. vraiment bien. fiquei de olho em duas cadeiras. talvez regresse. dali desci, de chapeu aberto e atravessei para a avenida gomes pereira. queria muito conhecer a living places and you. fui andando, vi a fabrica simoes abandonada aos andaimes... que magnifica biblioteca poderia existir ali... uma das maiores freguesias de lisboa nem tem biblioteca... o auditorio carlos paredes, a junta de freguesia de benfica e finalmente a loja que procurava. espreitei a montra e entrei. ia pela loiça do bordalo pinheiro. queria comprar canecas, um jarro (que andava a namorar ) e uma salva de pé (aprendi que se chamava assim no museu de arte antiga). gosto tanto desta loiça e as cores sao tao bonitas que a se torna dificil escolher, apetece trazer uma de cada. se ainda se fizessem enxovais no seculo XXI esta loiça estaria no meu bau, sem naftalina, uma peça de cada cor (apesar de adorar loiça branca). e como queria cor trouxe esta caneca azul, um jarro vermelho e a salva de pé para os meus muffins tera que ficar para mais tarde porque nao havia a cor e os motivos que eu queria. nao esta ali nenhum jota na caneca, mas sinto que ela é à medida deste blog e tomara o lugar desta que ficou arrumada nas caixas no norte de portugal. vim almoçar a casa e depois pensei em ir entao para a baixa, mas nao sei se foi a chuva, se foi a caneca, se o livro, se os três juntos que me deixaram colada ao sofa. é bom poder dar-me ao luxo de estar simplesmente em casa, em lisboa, sem a urgencia de absorver tudo para criar reservas para os meses pos férias. é muito bom.
18/03/13
Leitões & Companhia
03/03/13
Caprichos, beleza e cuidados pessoais
Desengane-se o leitor que pensa que este post é so para raparigas. Por mais que isso possa surpreender alguns, há cada vez mais rapazes com preocupações estéticas e a frequentarem salões de beleza.
20/12/11
A Garrafeira São João

O Natal está mesmo aí à porta e, mais do que em qualquer data do ano, é altura de pretextos para almoços e jantares com a familia, com os amigos e para a troca de presentes. Na minha familia decidiram que no Natal se fazia assim: os rapazes levam as garrafas de vinho, as raparigas tratam dos doces e os anfitriões ocupam-se do jantar. Gosto dessa ideia da partilha de tarefas natalícias. Parece que há um cuidado especial na escolha das bebidas e das sobremesas e na confecção da comida para essa noite.
Há pouco tempo atrás, tivemos um jantar e queriamos ir à loja Gourmet do Fonte Nova, que tem um funcionário super simpatico e profissional, para comprarmos uma boa garrafa de vinho. Estavamos no trânsito a caminho do centro comercial quando paramos na fila, precisamente em frente a uma garrafeira na Rua Professor Reinaldo dos Santos. Estavamos a olhar para ela pela primeira vez e decidimos ir lá espreitar. É certo que é um local diferente da Gourmet do Fonte Nova, é um lugar que se situa entre a loja e o armazém. Já tinhamos uma ideia do que queriamos comprar, mas perante a surpresa de tamanha escolha optamos por experimentar novos vinhos pelos bons conselhos de uma das senhoras da loja. Pensamos que realmente era uma boa ideia haver uma garrafeira em Benfica que, embora esteja bastante escondida, já ali existe há 5 anos. Lá dentro têm todo o tipo de bebidas alcoolicas (excepto cervejas) e foi assim que acabamos por sair de lá com 3 garrafas de vinho e ainda compramos um favaios para termos em casa. Ficamos perplexos com os preços. É que apesar de ser uma loja/armazém de rua têm preços mais baratos do que nos supermercados mais em conta. Pensamos que seria uma boa opção passarmos a comprar ali as bebidas: várias possibilidades de escolha, preços acessiveis e atendimento personalizado e nós a contribuirmos para que o comércio de rua não desapareça.
Por isso, se estão por Benfica ou São Domingos de Benfica, se têm almoços e jantares, se querem oferecer um presente ou comprar boas bebidas para terem em casa, vale a pena dar um salto à Garrafeira São João.
10/04/11
Acordes na barbearia
Fui surpreendido num destes sábados na Estrada da Luz, mesmo na fronteira da freguesia de São Domingos de Benfica, com uns acordes de violino que se desprendiam de uma loja de rua. Pensei para comigo, abriu aqui uma loja de instrumentos de música, mas imediatamente percebi algo de inabitual. Observo melhor o instrumentista de pé junto à porta . Os meus olhos esquadrinham o meio à procura de mais informação; por cima da loja, uma tabuleta indica "barber shop", não me chega, descortino um cadeira de barbeiro antiga, o violinista continua a tanger uns acordes, parecem-me de densidade melancólica e emprestam uma certa beleza àquela manhã, olho para o fundo da loja à procura de mais informação, tento vislumbrar profissionais ou clientes que me esclareçam que tipo de loja é aquela com um violinista a tocar.Sim, é uma barbearia, melhor, hoje em dia é "dois em um", um barbeiro de homens e um cabeleireiro de senhoras na mesma loja . Não sei se o violinista está desempregado e encontra modo de sobreviver ou se é amigo do proprietário, se é uma estratégia de marketing --- vejo depois um cartaz a anunciar a abertura de nova loja. Gosto de pensar utopicamente que poderíamos tornar a vida na cidade em espaços de convivencialidade e de aprendizagem informal em que lojas poderiam aderir a uma rede de "objectos educacionais" como propunha Ivan Illich nos anos 70 do século passado na sua sociedade sem escolas. Gosto de pensar que poderíamos cortar o cabelo a ouvir violino e deslizarmos para o outro lado do espelho, noutro tempo noutro lugar, passando os olhos por < albuns fotográficos de figuras da música e da pop >. Gosto de pensar que em certas condições se poderia aprender o b-a-bá do corte de cabelo ou < a aplicar "henna" no cabelo >, como fazem as mulheres marroquinas.
"BarberShop" Estrada da Luz, 195- A
25/01/11
Hyper China



A vida social da comunidade chinesa é praticamente inexistente, vão criando amizades com clientes habituais, mas pouco profundas porque para eles o tempo não é para gastar com amigos ou a passar dias agradaveis, o tempo é para trabalhar, para pagar dividas e so depois disso é que começam os dias de prazer.
A loja começou a ficar movimentada, agradeci e antes de sair perguntei como se chamava. como a fonetica me era pouco familiar pedi-lhe que me escrevesse o nome num papel ao que ela respondeu que preferia não fazê-lo por não ter a certeza de como se escrevia...
Hyper China
15/01/11
Fecham uns abrem outros...

08/12/10
Feriados de Dezembro

Mas a verdade é que ha ja cinco anos que não faço este percurso e desde então ja não existe a retrosaria, nem a perfumaria... ja restam poucos comércios nesta parte da Estrada de Benfica. Mas, e ainda bem, as pastelarias mantêm as portas abertas com o delicioso cheiro das especialidades desta época, que misturado com o burburinho e com as iluminações de Natal aquecem o coração...
03/12/10
Às vezes mais vale estar quieta...

01/09/10
Livraria Números Simétricos
Estas fotografias, como quase todas, foram tiradas em Maio, num dos dois sábados das minhas férias. Por ali abaixo, depois do café no Mimo de Benfica e antes da história do Arabesco. Tinha sabido pela Gilia que o Sr. Jaime tinha aberto uma livraria por detrás do cabeleireiro e estava cheia de curiosidade de vê-la. Cumprimentei a senhora que estava ao balcão e fui observando por ali adentro. A memória atraiçoa-me um bocadinho, porque já passaram alguns meses... mas assim não conto tudo para os leitores do Mercado de Bem-Fica terem vontade de lá ir espreitar.

Apostar numa livraria de rua, nos dias que correm, é de louvar... numa cidade (para não dizer um país) em que, aos olhos da maioria das pessoas (não todas, claro) que compra livros existem praticamente duas livrarias, em que o mercado editorial foi completamente monopolizado, em que “a grande livraria portuguesa” deixou de fazer o desconto inicial que levava centenas de pessoas a comprarem ali... e em tempos em que nos apetece voltar ao comércio tradicional, poder sair à rua sem ter o sentimento de que se mora num dormitorio, é de dar valor às livrarias de bairro, com atendimento simpatico e personalizado...

Numeros Simétricos, uma livraria em São Domingos de Benfica
Estrada De Benfica, 333-B / 304-B, Lisboa, Lisboa 1500-075 Lisboa
19/07/10
Novidades no comércio tradicional
E por falar precisamente nesta rua, deram-se conta que abriu uma loja para animais onde era uma antiga loja de artigos de desporto?
E mais uma loja a encerrar e dar luz a outro negócio; vi também que a Perfumaria Lino (da Jú) estava hoje mesmo a ser "desmontada". Questionei, o que irá nascer por ali? Será mais uma loja de chineses? Vocês sabem quantas lojas de chineses há desde a Univ. Internacional até ao Califa???? Precisamente 8!!! E parece que vai abrir mais uma onde era uma loja de móveis (La Senia) ao lado mesmo da Univ. Internacional. Será que já não chega???? Não tenho nada contra as pessoas, mas este tipo de negócio também arrasa o tradicional. Não há limites?????
24/03/10
A Papelaria do "Celeiro"

Aqui esta ela, a fotografia da desaparecida papelaria que ficava mesmo ao lado do Celeiro. É pena que tenha sido apanhada nesta perspectiva porque só apercebemos alguém a dar uma vista de olhos nas revistas... a senhora que durante anos lá trabalhou também ficou na foto... não podia ser de outra forma... é a senhora que durante anos espreitou por détras daquela janelinha minuscula que nos fazia pensar que so ela cabia la dentro...
Uns compraram aqui os primeiro maços de cigarros... eu, aqui, lembro-me de comprar carteirinhas de cromos...
e assim sendo, agora quem quiser comprar “artigos de tabacaria” terá que ir até à Cave ou até ao quiosque que fica em frente à Pizza Hut... se ainda existirem, um e outro...
10/03/10
Um prédio bonito na Estrada de Benfica...
Esta foi mais uma dessas manhãs em que fui à procura de uma reserva de fotografias para os meses que se iriam seguir. Nunca tinha parado antes a olhar para este prédio. Passei para o outro lado da estrada, o dia estava cinzento mas os azulejos castanhos, iluminavam-no. Olhei para as varandas, e depois para as águas fortadas, sempre gostei de águas furtadas a fazerem lembrar o livro de Frances Burnett, “A Princesinha”. Gostei dos azulejos, achei-os retro e aconchegantes... e de repente lembrei-me de uma loja que alguém teve a ousadia de abrir ali, em tempos, numa daquelas portas. Chamava-se qualquer coisa como “Mad Dog”. Tinha roupa original mas cara. Parece que não ficou aberta muito tempo. Depois olhei para a mercearia Santa Isabel, mergulhada na penumbra, mas quase todas as mercearias de que me lembro são assim...
Quem passa, não liga muito àquele comércio, mas quem conhece diz que a mercearia tem fruta muito boa e que a casa de pasto/tasca que vemos mesmo ao lado, apesar de pouco convidativa por fora, esta sempre cheia. A senhora serve deliciosos pratos, tipicamente portugueses, e mima os clientes com atenções.
23/12/09
Presentes em S. Domingos de Benfica
Duas da tarde. O J. liga-me a dizer que encontrou as prendas que eu lhe pedi para comprar para a mãe. Fico surpreendida porque ontem tinha ido a um grande centro comercial e não tinha encontrado. Pergunto-lhe onde está e ele diz-me que está na Ouriversaria Onix, na Estrada de Benfica. Lembro-me desta ourivesaria desde sempre, mas sobretudo do tempo em que se usavam aneis de prata nos dez dedos das mãos. Era lá que o meu pai comprava presentes para a minha mãe e o meu irmão perpetuou esse hábito. Eu sei porque é que ele gosta de lá ir. Porque há poucas pessoas, porque é mesmo ao pé de casa e o atendimento é personalizado. A Ourivesaria Onix fica na correnteza de lojas da drogaria, da farmacia e dos cafés, chás e bolinhos. Penso que a loja ainda pertence ao mesmo senhor, que soube acompanhar os anos, e apesar de muito pequenina a loja tornou-se clara e moderna e talvez por isso seja das poucas que ainda tem as portas abertas...
15/10/09
01/09/09
Habib ou Galerias Benfica...

Foram óptimos tempos os do liceu… somos do tempo em que no 12° ano tinha apenas três disciplinas e um dia de semana livre. O nosso era a segunda-feira… melhor do que isto só a sexta… a maior parte dos amigos a sério data deste tempo… tornamo-nos tão próximos que passavamos o tempo, fora dos horários escolares, sempre juntos para saídas à noite, caracoladas, cafés… mesmo em tempo de aulas acontecia faltarmos e muitas vezes vinhamos para aqui jogar tetris e matraquinhos… matraquilhos a 20 escudos… bons tempos esses do « HABIB » era assim que lhe chamavamos e penso que era assim que se chamava. Agora são as Galerias Benfica, onde há sempre um remoinho de lixo a voar, em frente à entrada… das restantes lojas que existiam aqui dentro lembro-me de um cabeleireiro e de uma espécie de tabacaria… à entrada, à direita, parece-me que havia um senhor indiano que vendia relógios… era um « centro comecial » pouco acolhedor…talvez entretanto tenha sido renovado e esteja diferente...
11/07/09
São Domingos de Benfica ontem e hoje (5)

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Não me lembro o que existia nestas lojas antigamente, ou no tempo da fotografia a preto e branco… talvez alguns leitores deste mercado se lembrem… mas recordo-me de quando o prédio foi pintado e arranjado e de terem surgido aqui espaços comerciais, com as portas pintadas de verde fresco. No lugar do cabeleireiro de homens havia uma mercearia de produtos biologicos, apeteciveis e com muito boa apresentação. À direita desta loja abriu uma loja de roupa interior que também fazia arranjos de costura. Na loja completamente à esquerda não me lembro o que existia.
18/02/09
Afinal de contas o que se vende aqui ?

17/02/09
Contra a crise e a favor do comércio tradicional, senhoras e senhores, o cartão freguês!

Algumas descobertas hoje no site da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica. A primeira foi a do próprio site, bastante mais moderno em relação ao que existia anteriormente, e o novo cartão freguês. Este cartão que custa 2.50€ permite aos moradores da freguesia beneficiarem de inúmeros descontos. Existe aqui uma lista de todos os comércios e empresas que aderiram ao cartão freguês, embora eu não consiga visualizá-la correctamente (talvez vocês consigam). Percorrendo o site descobri ainda que o centro cultural oferece igualmente um desconto de 10% na apresentação do cartão.
A iniciativa é interessante… esperamos que tanto os moradores como os comerciantes e empresarios ganhem com ela. Fica a ideia para quem ainda não sabia !
17/01/09
"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir

A “Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à “Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.
Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.
Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.
Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.
Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.”
O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” e “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.

Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.
Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro” e ao ramo editorial.
Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.
A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.
1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte” também estava incluída.
Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.
E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).
O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.

Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.
Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.
De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.
Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.
Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.
Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.
Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”, “(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.

A “Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.
No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.
Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".
No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.
Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).

Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.
De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”.
Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.
Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.
Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.



