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09/06/13

lisboa norte



afinal o sical disse-me para ir mais para norte (de lisboa) e assim fiz. até havia umas quantas coisas que queria ver e conhecer em benfica e fui até la. apanhei o autocarro e desci na paragem do cruzamento com a estrada de benfica - av. do uruguai - av gomes pereira. na estrada de benfica experimentei os famosos doopies, escolhi o de caramelo com um café curto. o dia cinzento pedia doce. dali subi a av do uruguai até parar na montra da ulmeiro. ja la tinha estado à porta, mas nesse dia estava fechada. hoje entrei e para rimar (ou nao) adorei. tudo. o cheiro. os livros. a desordem. os papeis a classificarem aquilo que parecia o caos. os moveis. as cadeiras. os objectos. o gato. a chuva la fora. a musica portuguesa. os vampiros antigos. as revistas de decadas antigas no século passado. aquele espaço é magnifico, on s'y sent bien. vraiment bien. fiquei de olho em duas cadeiras. talvez regresse. dali desci, de chapeu aberto e atravessei para a avenida gomes pereira. queria muito conhecer a living places and you. fui andando, vi a fabrica simoes abandonada aos andaimes... que magnifica biblioteca poderia existir ali...  uma das maiores freguesias de lisboa nem tem biblioteca... o auditorio carlos paredes, a junta de freguesia de benfica e finalmente a loja que procurava. espreitei a montra e entrei. ia pela loiça do bordalo pinheiro. queria comprar canecas, um jarro (que andava a namorar ) e uma salva de pé (aprendi que se chamava assim no museu de arte antiga). gosto tanto desta loiça e as cores sao tao bonitas que a se torna dificil escolher, apetece trazer uma de cada. se ainda se fizessem enxovais no seculo XXI esta loiça estaria no meu bau, sem naftalina, uma peça de cada cor (apesar de adorar loiça branca). e como queria cor trouxe esta caneca azul, um jarro vermelho e a salva de pé para os meus muffins tera que ficar para mais tarde porque nao havia a cor e os motivos que eu queria. nao esta ali nenhum jota na caneca, mas sinto que ela é à medida deste blog e tomara o lugar desta que ficou arrumada nas caixas no norte de portugal. vim almoçar a casa e depois pensei em ir entao para a baixa, mas nao sei se foi a chuva, se foi a caneca, se o livro, se os três juntos que me deixaram colada ao sofa. é bom poder dar-me ao luxo de estar simplesmente em casa, em lisboa, sem a urgencia de absorver tudo para criar  reservas para os meses pos férias. é muito bom. 

18/03/13

Leitões & Companhia



Ler noticias destas a 2000 km de Lisboa, quase à hora de jantar, é um crime delicioso. 
Talvez nao seja novidade para muitos leitores do Mercado de Bem-Fica, mas para outros sera. Eu descobri a Leitões & Companhia ao ler uma das ultimas Time Out. Pois, trata-se de uma loja que vende e entrega os mais variados pratos confeccionados com leitão e, quando se começa a ler a lista, é de fazer crescer agua na boca. A loja abriu em Setembro de 2012, na Estrada de Benfica, entre a Igreja e as Portas de Benfica. Quem ousou abrir portas numa altura temida por muitos foi Lurdes Policarpo, juntamente com outros dois socios da mesma familia, num espaço comercial que lhes pertencia, mas que  ha muito se encontrava desocupado. Embora ainda nao tenha tido ocasiao de la entrar estou em pulgas para fazê-lo. Sou fã de leitao e quando me lembro de uns certos rissois que provei desta deliciosa carne fico a sonhar com essa loja. Ali cozinha-se canelonis de leitão, leitão com grelos salteados, migas de legumes com leitão, leitão com broa e mais uma série de receitas. O "& Companhia" é porque aqui também é possivel provar outros pratos tipicos portugueses, sobremesas e comprar vinhos. 
Para uma loja que se diz "o primeiro take-away 100% português de refeições gourmet à base de leitão" as doses para duas pessoas têm preços bastante acessiveis e, se nao tiverem tempo de passar por la, é bom saber que eles fazem entregas num raio de 30 km. Parece que a loja foi recebida de braços abertos e que ja pensa expadir-se para outras areas de Lisboa. Em todo o caso, se sao fãs de leitão e se moram em Benfica aproveitem!

Nos deixamos a morada, o site vai para a lista "Degustando por Benfica", aqui ao lado e a pagina Facebook é por aqui

Leitões & Companhia
Estrada de Benfica n° 702 C e D
1500 - 112 Lisboa
Tlm: 915 011 584

03/03/13

Caprichos, beleza e cuidados pessoais



Desengane-se o leitor que pensa que este post é so para raparigas. Por mais que isso possa surpreender alguns, há cada vez mais rapazes com preocupações estéticas e a frequentarem salões de beleza. 

Caprichos - Estética e Cabeleireiro é o meu preferido. Fica em São Domingos de Benfica, na Rua Montepio Geral. A primeira vez que pintei as unhas, "a sério", foi com a Erica que, juntamente com a Maria, abriram este salão o ano passado. Quando depois do trabalho terminado olhei para as mãos e as vi tão bonitas prometi a mim mesma que nunca mais lhes deitava o dente. O  trabalho é muito profissional e elas são muito simpáticas, por isso, convém fazer marcação porque tem bastante movimento, sobretudo no Verão. Desde então, uso vários tipos de serviços que propõem, principalmente os de esteticista.



Fico muito contente que este salão cor de rosa e verde fiquei mesmo ali do outro lado do passeio e fico igualmente contente por ver pessoas novas, como a Erica e a Maria,  arriscarem em novos projectos e sobretudo nesta zona da cidade na qual poucas pessoas acreditam. São Domingos de Benfica tem tantas potencialidades para se tornar um bairro vivo, com comércios de rua.

Os serviços propostos pela Caprichos são manucure, pedicure, unhas de gel, gelinho, verniz de gel, depilação, massagem de relaxamento e anticelulitica, tratamento de pele, maquilhagem profissional, permanente de pestanas, reiki, reflexologia, drenagem linfatica manual e cabeleireiro.

Para quem não conhece, aqui fica uma óptima sugestão de um salão de beleza e cuidados pessoais!

Caprichos - Estética e Cabeleireiro
Rua Montepio geral n° 6B
1500 - 464 Lisboa

A página Facebook já esta na lista do blog! 

20/12/11

A Garrafeira São João


O Natal está mesmo aí à porta e, mais do que em qualquer data do ano, é altura de pretextos para almoços e jantares com a familia, com os amigos e para a troca de presentes. Na minha familia decidiram que no Natal se fazia assim: os rapazes levam as garrafas de vinho, as raparigas tratam dos doces e os anfitriões ocupam-se do jantar. Gosto dessa ideia da partilha de tarefas natalícias. Parece que há um cuidado especial na escolha das bebidas e das sobremesas e na confecção da comida para essa noite.
Há pouco tempo atrás, tivemos um jantar e queriamos ir à loja Gourmet do Fonte Nova, que tem um funcionário super simpatico e profissional, para comprarmos uma boa garrafa de vinho. Estavamos no trânsito a caminho do centro comercial quando paramos na fila, precisamente em frente a uma garrafeira na Rua Professor Reinaldo dos Santos. Estavamos a olhar para ela pela primeira vez e decidimos ir lá espreitar. É certo que é um local diferente da Gourmet do Fonte Nova, é um lugar que se situa entre a loja e o armazém. Já tinhamos uma ideia do que queriamos comprar, mas perante a surpresa de tamanha escolha optamos por experimentar novos vinhos pelos bons conselhos de uma das senhoras da loja. Pensamos que realmente era uma boa ideia haver uma garrafeira em Benfica que, embora esteja bastante escondida, já ali existe há 5 anos. Lá dentro têm todo o tipo de bebidas alcoolicas (excepto cervejas) e foi assim que acabamos por sair de lá com 3 garrafas de vinho e ainda compramos um favaios para termos em casa. Ficamos perplexos com os preços. É que apesar de ser uma loja/armazém de rua têm preços mais baratos do que nos supermercados mais em conta. Pensamos que seria uma boa opção passarmos a comprar ali as bebidas: várias possibilidades de escolha, preços acessiveis e atendimento personalizado e nós a contribuirmos para que o comércio de rua não desapareça.
Por isso, se estão por Benfica ou São Domingos de Benfica, se têm almoços e jantares, se querem oferecer um presente ou comprar boas bebidas para terem em casa, vale a pena dar um salto à Garrafeira São João.


Um bocadinho de historia aqui e a fotografia foi retirada daqui

10/04/11

Acordes na barbearia

Fui surpreendido num destes sábados na Estrada da Luz, mesmo na fronteira da freguesia de São Domingos de Benfica, com uns acordes de violino que se desprendiam de uma loja de rua. Pensei para comigo, abriu aqui uma loja de instrumentos de música, mas imediatamente percebi algo de inabitual. Observo melhor o instrumentista de pé junto à porta . Os meus olhos esquadrinham o meio à procura de mais informação; por cima da loja, uma tabuleta indica "barber shop", não me chega, descortino um cadeira de barbeiro antiga, o violinista continua a tanger uns acordes, parecem-me de densidade melancólica e emprestam uma certa beleza àquela manhã, olho para o fundo da loja à procura de mais informação, tento vislumbrar profissionais ou clientes que me esclareçam que tipo de loja é aquela com um violinista a tocar.
Sim, é uma barbearia, melhor, hoje em dia é "dois em um", um barbeiro de homens e um cabeleireiro de senhoras na mesma loja . Não sei se o violinista está desempregado e encontra modo de sobreviver ou se é amigo do proprietário, se é uma estratégia de marketing --- vejo depois um cartaz a anunciar a abertura de nova loja. Gosto de pensar utopicamente que poderíamos tornar a vida na cidade em espaços de convivencialidade e de aprendizagem informal em que lojas poderiam aderir a uma rede de "objectos educacionais" como propunha Ivan Illich nos anos 70 do século passado na sua sociedade sem escolas. Gosto de pensar que poderíamos cortar o cabelo a ouvir violino e deslizarmos para o outro lado do espelho, noutro tempo noutro lugar, passando os olhos por < albuns fotográficos de figuras da música e da pop >. Gosto de pensar que em certas condições se poderia aprender o b-a-bá do corte de cabelo ou < a aplicar "henna" no cabelo >, como fazem as mulheres marroquinas.
"BarberShop" Estrada da Luz, 195- A

25/01/11

Hyper China


Foi um domingo de manhã, fui beber um café à Balalaika e depois dei um passeio por ali. Estava bom tempo e apetecia caminhar e observar no bairro. A minha esteticista tinha-me falado nuns vernizes de boa qualidade e baratos que vendiam na nova loja de chineses e sugeriu-me que eu fosse la espreitar. Segui o conselho e quando voltava do café da manhã em vez de tomar o caminho da Estrada de Benfica, fui pelas ruas de tras até chegar à Conde Almoster.
Era impossivel não encontrar a loja. O aspecto exterior saia fora do look habitual das lojas de chineses, com os candeeiros a decorar as portas, era "ocidentalizado". Entrei dei uma volta, passeei pelos corredores, vi os vernizes e vim de la com uns ganchos. A rapariga que estava à caixa era jovem e era também a dona da loja. Paguei os ganchos e expliquei-lhe o habitual, que fazia parte de um blog que escreve textos sobre o bairro e que achava interessante escrever sobre a loja dela. Perguntei-lhe se se importava que falassemos um bocadinho e ela disse-me que podia ser.
Entao pusemo-nos à conversa, ela disse-me que tinha 24 anos que ja estava em portugal ha 10 anos. Normalmente os chineses vêm ter com familia ou pessoas conhecidas que ja têm nos sitios para onde vão trabalhar. Começou por trabalhar em restaurantes chineses de familiares, depois em lojas de chineses, mas que a vida é muito complicada. Ganha-se pouco, as despesas são muitas, as ajudas e facilidades em coisas simples como bancos, medicos, etc. são poucas e é dificil ter uma vida de familia. Quando se trata de um casal, cada membro trabalha numa loja ou restaurante de chineses e cada um dorme em casa dos seus patrões porque não têm meios de financeiros para terem a sua propria casa. Encontram-se apenas uma vez por semana, nos dias em que têm folga. Quando chegam a casa continuam a trabalhar, tratam da roupa, do jantar, da loiça, arrumam a casa, dormem e no dia seguinte é tempo de voltar ao trabalho outra vez.


Esta loja surgiu pela vontade de terem uma vida propria, de ter intimidade, viver com o marido, mas de alguma forma acabam por se encontrar na mesma situação, embora tenha outra posição, pois a empregada que trabalha para ela, também chinesa, mora em sua casa. Depois de alguma experiência em Portugal pensou em abrir e gerir a sua propria loja. Para isso, começaram por fazer uma espécie de estudo de mercado mas pelos seus proprios meios. Normalmente vão de bairro em bairro, vêem o movimento, vêem o tipo de lojas de chineses que ja existem, onde estão localizadas, que produtos vendem, e optam por determinado sitio. Depois vem o processo burocratico. Não pedem emprestimos ao banco porque são sempre recusados, é a familia que lhes empresta a totalidade do dinheiro para o investimento e eles vão-lhes pagando de acordo com as suas possibilidades, é por isso que trabalham todos os dias, porque têm que reembolsar uma grande quantia e estar parado é um luxo. Para além de terem que reembolsar este emprestimo, sustentam os pais e os sogros, na China, e pagam as despesas mensais normais, em Portugal. Perguntei-lhe se tinham prazos limitados para reembolsar os emprestimos às familias e ela respondeu-me que na China quando se fazem estes negocios de familia não é como em Portugal em que se fazem papeis, assinam-se contratos etc. Para eles, é normal a familia emprestar dinheiro e eles terão a loja aberta o tempo necessario até terminarem de reembolsa-los. No caso dela, a familia emprestou-lhe o valor necessario ao investimento, mas achou que a loja não estava muito bem localizada.
Nas lojas de chineses, ao contrario do que muitas pessoas pensam, não vendem apenas artigos que vêm da China, muitos produtos vêm de Espanha, de Italia e algumas coisas de Portugal. A mercadoria não vem directamente destes paises, vem sim de grandes armazéns onde muitos comerciantes de abastecem.
A vida social da comunidade chinesa é praticamente inexistente, vão criando amizades com clientes habituais, mas pouco profundas porque para eles o tempo não é para gastar com amigos ou a passar dias agradaveis, o tempo é para trabalhar, para pagar dividas e so depois disso é que começam os dias de prazer.

A loja começou a ficar movimentada, agradeci e antes de sair perguntei como se chamava. como a fonetica me era pouco familiar pedi-lhe que me escrevesse o nome num papel ao que ela respondeu que preferia não fazê-lo por não ter a certeza de como se escrevia...

Hyper China
Rua Conde Almoster
S. Domingos de Benfica

15/01/11

Fecham uns abrem outros...



... foi um dia de Novembro, certamente ao subir até ao Alto dos Moinhos para apanhar o metro, que reparei na frutaria / mercearia 7 Lagoas. Não me recordo o que existia antes neste lugar, o largo sempre me pareceu tão calmo… para além do sapateiro e do externato que ficava (e talvez ainda fique) no cantinho, lembro-me de poucos comércios ou serviços. Neste dia também reinava a tranquilidade… talvez a mercearia ainda seja pouco conhecida, as daqui do bairro começam a desaparecer aos poucos, já são poucas, mas esta veio juntar-se ao comercio tradicional de São Domingos de Benfica. A 7 Lagoas parece estar aberta ao Domingo também ou pelo menos houve um Domingo em que passei por lá e as portas estavam abertas, o que é sempre útil quando se precisa de um raminho de salsa, de umas cebolas ou de sal … onde fica? No Largo Conde de Bonfim!

08/12/10

Feriados de Dezembro


Se eu estivesse em S. Domingos de Benfica hoje seria dia de sair de casa à procura de presentes de Natal ou, pelo menos, de ideias de presente. Lembro-me de começar estas manhãs de feriados de Dezembro por beber um café no Pastelinho e de gostar de estar de folga a um dia de semana. As lojas estão abertas, como se não fosse feriado, aprecio o movimento e começo a caminhar pela Estrada de Benfica. Lembro-me de comprar presentes de Natal para a minha avo na retrosaria, mesmo ao lado do Sr. Ferreira onde hoje se instalou uma agência imobiliaria. Logo ao lado, na loja das malas, acabava sempre por escolher uma carteira ou um estojo para as canetas ou para os oculos, para alguém. Mais à frente, paragem na Perfumaria Lino, cremes e perfumes, também faziam sempre parte das listas de Natal, uma paragem na Onix para ver se surgiam mais ideias, outra paragem na Casa da Selva porque não ha quem não goste de nada que esteja nesta loja, chas, cafés, chocolates, rebuçados com embalagens especiais. Atravesso a estrada e paro no Sr. Jaime. Passeio-me pelos corredores à procura de agendas, canetas e subo à antiga livraria para ver se ha alguma coisa em que não pensei mas que pode ser uma boa ideia. Entro na loja “dos indianos”, encontram-se sempre pequenos objectos com graça, meio kitch... e assim continuo a descer a Estrada de Benfica... so neste bocadinho ja encontrei uma série de presentes. E à medida que vou descendo, vou sentindo o cheiro que vem de dentro dos cafés e pastelarias, quase a postos para as encomendas de Natal.

Mas a verdade é que ha ja cinco anos que não faço este percurso e desde então ja não existe a retrosaria, nem a perfumaria... ja restam poucos comércios nesta parte da Estrada de Benfica. Mas, e ainda bem, as pastelarias mantêm as portas abertas com o delicioso cheiro das especialidades desta época, que misturado com o burburinho e com as iluminações de Natal aquecem o coração...

03/12/10

Às vezes mais vale estar quieta...


Eu tenho andado silênciosa. Tenho andado silênciosa porque durante as férias me zanguei com uma parte de São Domingos de Benfica, porque, às vezes, a querer fazer bem, mais vale estar quieta, como diz o outro (e como dizia a minha avó). Então, como em tantas outras de manhã de férias, saí de casa à caça de fotografias, de reservas para os próximos meses e fui em direcção ao mercado de São Domingos. Pela Estrada de Benfica, vou parando para clicar e apanhar o momento em vários sitios e finalmente chego à “praça”. Já lá tinha estado uma vez e tinha fotografado sem qualquer problema. Mas desta vez foi diferente. Clico para registar aquela primeira loja, ainda fora do mercado, que “no meu tempo” era uma loja de frangos e que hoje... já não me lembro o que é. Embora a imagem tenha permanecido dentro da minha máquina uns 15 minutos, o meu cerebro apagou-a completamente da memória. Daí entro no mercado, registo o grande cartaz azul com letras pretas onde se lê “aqui ha bacalhau”, acho-o tão português que faço um zoom, para o apanhar a jeito. Uma fotografia de panoramica geral às frutas, legumes e flores e dei a volta ao mercado com 4 fotografias na máquina. Quase à saída vejo aproximar-se uma “simpática” senhora que se dirige a mim nestes termos: “ouça lá, você tirou-me ali uma fotografia na banca do bacalhau”. Perante tal abordagem e acusação faço cara de quem não esta a perceber o que me diz e ela continua “sim, eu estava ali na banca do bacalhau e a senhora fotografou-me, por acaso pediu-me autorização?”. Explico-lhe que não lhe tirei fotografia alguma e para a tranquilizar mostro-lhe a pancarta do bacalhau “zoomada” e as 3 fotografias seguintes. Ele vira-me as costas, sem desculpas, sem boa tarde, sem obrigada e continua. E pronto, tive que lhe dizer que o mínimo que ela devia ter feito era ter dito qualquer coisa, perante uma acusação injusta e não fundamentada e pela falta de educação. Nisto, vão-se aproximando os comerciantes, vem o “sr. dos frangos assados” e a “senhora dos legumes/frutas” (filho e mãe, fico a saber) que me dizem que para tirar fotografias tenho que pedir autorização. Digo que percebo, mas que já tinha vindo antes, que tinha pedido para fotografar e nunca ninguém se mostrou contra. E começo a explicar a razão da minha presença no mercado e das fotografias. E assim que abro a boca para dizer que estou ali graciosamente e com gosto, que existe uma página na internet que pretende divulgar e valorizar o bairro, eles põem a mão à cintura e respondem-me “você deve ser fina”... que não precisam de valorização nenhuma, que estão ali ha 29 anos e já têm toda a valorização de que precisam... eu penso “29 anos foi o tempo que eu vivi neste bairro” e decido acrescentar “a minha mãe durante muitos desses anos fez aqui as suas compras e sempre pensei nos senhores do mercado com simpatia” e a senhora, que na minha recordação de infância tinha um ar tão acolhedor, diz-me assim “pois, FAZIA, é o tempo do verbo” e perante tal arrogância apago ali as minhas 4 miseraveis fotografias e vou à administração lavar a alma. E hoje venho aqui também lavar a alma, para ver se me regressa a inspiração para outros posts que continuem a valorizar São Domingos de Benfica. E sobre este mercado, penso que pouco mais terei a dizer. Não quero contar historias de lugares e pessoas contra a vontade delas.

01/09/10

Livraria Números Simétricos

Apetecia-me guardar este post para Setembro. Para mim há dois principios de ano, em Janeiro, quando começa o ano oficial e Setembro quando (re)começa a vida apos dois meses de silly season...


Estas fotografias, como quase todas, foram tiradas em Maio, num dos dois sábados das minhas férias. Por ali abaixo, depois do café no Mimo de Benfica e antes da história do Arabesco. Tinha sabido pela Gilia que o Sr. Jaime tinha aberto uma livraria por detrás do cabeleireiro e estava cheia de curiosidade de vê-la. Cumprimentei a senhora que estava ao balcão e fui observando por ali adentro. A memória atraiçoa-me um bocadinho, porque já passaram alguns meses... mas assim não conto tudo para os leitores do Mercado de Bem-Fica terem vontade de lá ir espreitar.

Já devia passar do meio dia, e a livraria estava silenciosa. Depois de visitar pus-me à conversa com a senhora, pedi-lhe algumas informações suplementares sobre aquele novo espaço e perguntei-lhe se podia fotografar a loja para pôr num blog que fala sobre Benfica e São Domingos de Benfica. Ela aceitou, gentilmente, e sairam estas fotografias. Afinal, como já foi contado aqui no blog ou na pagina do Facebook foi uma antiga funcionaria do Sr. Jaime que lhe comprou o negócio e assumiu de um lado a papelaria/tabacaria e de outro a livraria. Parece que a clientela é habitual e como há muitas escolas à volta a livraria costuma ter movimento.


Apostar numa livraria de rua, nos dias que correm, é de louvar... numa cidade (para não dizer um país) em que, aos olhos da maioria das pessoas (não todas, claro) que compra livros existem praticamente duas livrarias, em que o mercado editorial foi completamente monopolizado, em que “a grande livraria portuguesa” deixou de fazer o desconto inicial que levava centenas de pessoas a comprarem ali... e em tempos em que nos apetece voltar ao comércio tradicional, poder sair à rua sem ter o sentimento de que se mora num dormitorio, é de dar valor às livrarias de bairro, com atendimento simpatico e personalizado...


Numeros Simétricos, uma livraria em São Domingos de Benfica
Estrada De Benfica, 333-B / 304-B, Lisboa, Lisboa 1500-075 Lisboa

19/07/10

Novidades no comércio tradicional


E por falar precisamente nesta rua, deram-se conta que abriu uma loja para animais onde era uma antiga loja de artigos de desporto?
E mais uma loja a encerrar e dar luz a outro negócio; vi também que a Perfumaria Lino (da Jú) estava hoje mesmo a ser "desmontada". Questionei, o que irá nascer por ali? Será mais uma loja de chineses? Vocês sabem quantas lojas de chineses há desde a Univ. Internacional até ao Califa???? Precisamente 8!!! E parece que vai abrir mais uma onde era uma loja de móveis (La Senia) ao lado mesmo da Univ. Internacional. Será que já não chega???? Não tenho nada contra as pessoas, mas este tipo de negócio também arrasa o tradicional. Não há limites?????
Fotografia e comentario de Ana Sa

24/03/10

A Papelaria do "Celeiro"



(ou sera que tinha nome proprio?)

Aqui esta ela, a fotografia da desaparecida papelaria que ficava mesmo ao lado do Celeiro. É pena que tenha sido apanhada nesta perspectiva porque só apercebemos alguém a dar uma vista de olhos nas revistas... a senhora que durante anos lá trabalhou também ficou na foto... não podia ser de outra forma... é a senhora que durante anos espreitou por détras daquela janelinha minuscula que nos fazia pensar que so ela cabia la dentro...

Uns compraram aqui os primeiro maços de cigarros... eu, aqui, lembro-me de comprar carteirinhas de cromos...

e assim sendo, agora quem quiser comprar “artigos de tabacaria” terá que ir até à Cave ou até ao quiosque que fica em frente à Pizza Hut... se ainda existirem, um e outro...

10/03/10

Um prédio bonito na Estrada de Benfica...

Estas fotografias já foram tiradas no ano passado. Talvez, entretanto, algumas coisas tenham mudado. Parece que há tempos havia obras logo na esquina com as Galerias Benfica, antigo Habib.


Esta foi mais uma dessas manhãs em que fui à procura de uma reserva de fotografias para os meses que se iriam seguir. Nunca tinha parado antes a olhar para este prédio. Passei para o outro lado da estrada, o dia estava cinzento mas os azulejos castanhos, iluminavam-no. Olhei para as varandas, e depois para as águas fortadas, sempre gostei de águas furtadas a fazerem lembrar o livro de Frances Burnett, “A Princesinha”. Gostei dos azulejos, achei-os retro e aconchegantes... e de repente lembrei-me de uma loja que alguém teve a ousadia de abrir ali, em tempos, numa daquelas portas. Chamava-se qualquer coisa como “Mad Dog”. Tinha roupa original mas cara. Parece que não ficou aberta muito tempo. Depois olhei para a mercearia Santa Isabel, mergulhada na penumbra, mas quase todas as mercearias de que me lembro são assim...

Quem passa, não liga muito àquele comércio, mas quem conhece diz que a mercearia tem fruta muito boa e que a casa de pasto/tasca que vemos mesmo ao lado, apesar de pouco convidativa por fora, esta sempre cheia. A senhora serve deliciosos pratos, tipicamente portugueses, e mima os clientes com atenções.

23/12/09

Presentes em S. Domingos de Benfica

Fotografia tirada da "janela da sala da 2a classe" da CEBE

Duas da tarde. O J. liga-me a dizer que encontrou as prendas que eu lhe pedi para comprar para a mãe. Fico surpreendida porque ontem tinha ido a um grande centro comercial e não tinha encontrado. Pergunto-lhe onde está e ele diz-me que está na Ouriversaria Onix, na Estrada de Benfica. Lembro-me desta ourivesaria desde sempre, mas sobretudo do tempo em que se usavam aneis de prata nos dez dedos das mãos. Era lá que o meu pai comprava presentes para a minha mãe e o meu irmão perpetuou esse hábito. Eu sei porque é que ele gosta de lá ir. Porque há poucas pessoas, porque é mesmo ao pé de casa e o atendimento é personalizado. A Ourivesaria Onix fica na correnteza de lojas da drogaria, da farmacia e dos cafés, chás e bolinhos. Penso que a loja ainda pertence ao mesmo senhor, que soube acompanhar os anos, e apesar de muito pequenina a loja tornou-se clara e moderna e talvez por isso seja das poucas que ainda tem as portas abertas...

01/09/09

Habib ou Galerias Benfica...


Foram óptimos tempos os do liceu… somos do tempo em que no 12° ano tinha apenas três disciplinas e um dia de semana livre. O nosso era a segunda-feira… melhor do que isto só a sexta… a maior parte dos amigos a sério data deste tempo… tornamo-nos tão próximos que passavamos o tempo, fora dos horários escolares, sempre juntos para saídas à noite, caracoladas, cafés… mesmo em tempo de aulas acontecia faltarmos e muitas vezes vinhamos para aqui jogar tetris e matraquinhos… matraquilhos a 20 escudos… bons tempos esses do « HABIB » era assim que lhe chamavamos e penso que era assim que se chamava. Agora são as Galerias Benfica, onde há sempre um remoinho de lixo a voar, em frente à entrada… das restantes lojas que existiam aqui dentro lembro-me de um cabeleireiro e de uma espécie de tabacaria… à entrada, à direita, parece-me que havia um senhor indiano que vendia relógios… era um « centro comecial » pouco acolhedor…talvez entretanto tenha sido renovado e esteja diferente...

11/07/09

São Domingos de Benfica ontem e hoje (5)










Não me lembro o que existia nestas lojas antigamente, ou no tempo da fotografia a preto e branco… talvez alguns leitores deste mercado se lembrem… mas recordo-me de quando o prédio foi pintado e arranjado e de terem surgido aqui espaços comerciais, com as portas pintadas de verde fresco. No lugar do cabeleireiro de homens havia uma mercearia de produtos biologicos, apeteciveis e com muito boa apresentação. À direita desta loja abriu uma loja de roupa interior que também fazia arranjos de costura. Na loja completamente à esquerda não me lembro o que existia.
Nas férias do verão do ano passado reparei que a mercearia tinha fechado para dar lugar a um cabeleireiro de homens, mas que a loja de roupa interior continuava em actividade… um ano depois as portas fecharam… o que irá agora ocupar este espaço ? terá o comércio tradicional futuro em São Domingos de Benfica?

18/02/09

Afinal de contas o que se vende aqui ?


A Rua Montepio Geral sempre foi uma rua de pequenos comércios. Quando entravamos pelo sentido da circulação dos carros encontravamos à esquerda a peixaria, depois a mercearia da Dona Nia e do Sr. Augusto, depois o talho do Pedro. Mais adiante, ao meio da rua, a oficina do Zé e uma loja de estofos. Atravessando para o outro lado e voltando para trás, um lar, depois a padaria, depois a loja dos móveis, depois a mercearia da Dona Helena, e mais à frente a oficina do Sr. Garcia… mas isto era antes… porque desde Junho que não vejo a peixaria, a Dona Nia trespassou a mercearia, a loja dos estofos desde que ardeu e reabriu nunca mais foi a mesma, a padaria fechou. A mercearia da Dona Helena assim como as oficinas mantêm-se e a loja dos móveis parece-me que também, mas o negócio não lhes vale pela montra… em todo o caso da vontade de parar… afinal de contas o que se vende aqui ?

17/02/09

Contra a crise e a favor do comércio tradicional, senhoras e senhores, o cartão freguês!



Algumas descobertas hoje no site da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica. A primeira foi a do próprio site, bastante mais moderno em relação ao que existia anteriormente, e o novo cartão freguês. Este cartão que custa 2.50€ permite aos moradores da freguesia beneficiarem de inúmeros descontos. Existe aqui uma lista de todos os comércios e empresas que aderiram ao cartão freguês, embora eu não consiga visualizá-la correctamente (talvez vocês consigam). Percorrendo o site descobri ainda que o centro cultural oferece igualmente um desconto de 10% na apresentação do cartão.

A iniciativa é interessante… esperamos que tanto os moradores como os comerciantes e empresarios ganhem com ela. Fica a ideia para quem ainda não sabia !

17/01/09

"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir





Em Benfica, existe ainda um Alfarrabista - repleto de História e de memórias de lutas por uma Causa - que teima em Resistir, depois de 40 anos...





Situada na Avenida do Uruguai, no Nº 13A A, a “Livrarte” iniciou, formalmente, o seu negócio na venda de livros, há cerca de 29 anos (por volta de 1969): “(...) iniciado pela “Ulmeiro”, que tinha Editora e a Livraria (...)”, como nos contou a D. Lúcia Ribeiro, proprietária desta casa.

A “Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à “Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.

Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.

Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.

Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.

Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.”

O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” e “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.





Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.

Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro” e ao ramo editorial.

Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.

A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.

1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte” também estava incluída.

Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.

E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).
O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.





Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.

Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.
De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.

Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.
Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.

Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.

Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”, “(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.





A “Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.

No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.
Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".

No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.

Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).





Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.

De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”.

Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.

Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.
Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.