Mostrar mensagens com a etiqueta Em vias de extinção. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Em vias de extinção. Mostrar todas as mensagens

18/11/10

Itinerâncias de Sobrevivência


De vez em quando passavam pelo largo da minha infância lisboeta várias pessoas que traziam os seus serviços ou produtos, em itinerâncias de sobrevivência pela estrada de benfica, julgo perceber agora, mas que introduziam nos dias uma nota de diferença, interclassista e multicultural.
Dos mais antigos , tenho memória de ter visto da varanda da minha casa, pequenos espectáculo de rua , um de fantoches, com uma pequena barraca e outro de uma trupe reduzida a um adulto, uma criança e um cão, com o chamariz do toque da caixa, para contorcionismos sobre um tapete muito puído, colocado sob a calçada.
Os limpa chaminés tocavam na campainha dos prédios , entre o final de Novembro e o princípio de Dezembro, anunciando-se do rés do chão a oferecer o serviço. Naquela altura, haviam chaminés sem exaustores nem extractores e o uso dos fogões enchiam-nas de fuligem que depois de vassouradas pelos homens mascarrados caía sobre os tampos previamente fechados por previdentes donas de casa que suspeito não gostavam muito da operação.
Circundava o largo de quando em vez a carroça do petrolino, tinha vários frascos alguns com líquidos de cores exuberantes , interrogava-me sempre para que serviriam, com o seu cortejo de cães.
Os amoladores anunciavam-se com o som das flautas de pan, fazendo-nos olhar para o céu em busca do sinal das nuvens a prometer chuva ou desencadeando a corrida das mulheres da casa às caixas de costura e às gavetas das tesouras e das facas rombas, antes que o homem saísse do largo.
São Domingos de Benfica era zona de quintas dedicadas à agricultura e aos lacticínios e o marido da porteira do meu prédio, o srº António, trabalhava numa vacaria contígua à quinta onde se construíra o antigo Estádio da Luz. Dirigia uma carroça puxada por um macho, e na qual trazia o leite que bebíamos em casa, com nata que abominava, deixado à noite numa leiteira à porta no 3º andar. Estabelecimento da UCAL, com leite em pacote de plástico só mais tarde, e era na estrada de benfica perto da Rua Padre Francisco Alvares . As vendedoras ambulantes de queijos frescos, faziam as suas clientelas subindo aos terceiros andares dos prédios antes da hora do almoço, as vendedoras de figos traziam-nos em cestos de verga, na época deles. Uma vez por mês, a meio da manhã tocava à campainha o cobrador de quotas do Benfica o que dava muito jeito, quando no domingo seguinte se evitavam as filas antes do jogo na Luz.
O padeiro ainda distribuía o pão nos sacos pendurados nas portas, muito cedo de manhã e nas tardes de sábado, na fornada para o fim de semana, para gáudio de jovens adolescentes em crescimento, podia ser com manteiga, mas quentinhos "marchavam" mesmo assim.. Andava rápido aquele homem e carregado, ainda atendia na padaria, sempre atencioso, as mãos sempre brancas da farinha e as rugas no rosto cansado .

fotografia retirada de um post de Vítor Nogueira no blog Kant_O_XimPi

17/01/09

"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir





Em Benfica, existe ainda um Alfarrabista - repleto de História e de memórias de lutas por uma Causa - que teima em Resistir, depois de 40 anos...





Situada na Avenida do Uruguai, no Nº 13A A, a “Livrarte” iniciou, formalmente, o seu negócio na venda de livros, há cerca de 29 anos (por volta de 1969): “(...) iniciado pela “Ulmeiro”, que tinha Editora e a Livraria (...)”, como nos contou a D. Lúcia Ribeiro, proprietária desta casa.

A “Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à “Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.

Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.

Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.

Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.

Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.”

O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” e “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.





Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.

Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro” e ao ramo editorial.

Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.

A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.

1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte” também estava incluída.

Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.

E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).
O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.





Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.

Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.
De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.

Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.
Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.

Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.

Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”, “(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.





A “Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.

No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.
Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".

No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.

Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).





Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.

De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”.

Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.

Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.
Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.


05/07/08

Comércio tradicional

Comecei as férias com a impressão de que havia muitas coisas para venda em São Domingos de Benfica e acabei-as com a seguinte frase na cabeça : São Domingos de Benfica está à venda…

À semelhança do que diz a Alexa sobre a loja de brinquedos Bambi, embora com consequências diferentes na nossa infância, o encerramento desta padaria foi o fim de mais um episódio da minha infância. Quantas vezes lá fui, de manhã, a pedido da minha mãe, comprar carcaças, “mal cozidas, não te esqueças”, dizia-me ela… e lá ía eu, descia os 54 degraus das escadas do meu prédio (temos 4° andar mas sem direito a elevador) e lá ía eu à Dona Deolinda que dava nome à padaria. Gostava muito dela, porque tinha o nome da minha mãe. Depois da Dona Deolinda veio a Dona Inês, que falava pelos cotovelos. Ria-se por tudo e por nada e enquanto atendia os clientes falava com as senhoras que, não tendo nada para fazer durante a tarde, levavam uma cadeirinha e instalavam-se ao pé dela. Depois da Dona Inês deve ter havido, certamente, mais alguém mas eu, entretanto, deixei de lá ir. E como eu muitas pessoas o fizeram. E a padaria fechou, como diz o anuncio, no dia 8 de Outubro de 2007.



... e assim sem mais nem menos, enviaram-nos para aqui... embora seja um lugar estratégico, ao lado dos melhores caracóis de São Domingos de Benfica... mas a história desta padaria não faz parte da minha infâcia...

08/03/08

Cinema Turim



Já existia muito tempo antes de ter sido criado o Centro Comercial Fonte Nova (com as suas 3 salas de cinema), ou de se pensar sequer que o Centro Comercial Colombo iria abrir na freguesia de Benfica.

O Cinema Turim foi o local predilecto da infância de muitos jovens trintões!...
Não há ninguém que aqui tenha vivido que não se recorde desse local com um misto de ternura e de saudade.



Neste cinema, instalado no R/c de um pequenissímo centro comercial, passávamos as tardes a ver os últimos filmes que tinham saído, numa sala pequenina, com fabulosos cadeirões de veludo vermelho (as melhores poltronas que alguma vez viria a experimentar em qualquer outra sala de cinema de Lisboa).
Quando entrávamos, o écran encontrava-se ainda coberto por um pano, também ele, de veludo vermelho, onde se encontravam fixos uma série de anúncios publicitários do comércio local.
Nesse tempo idílico, ainda não existiam pipocas dentro dos cinemas (que benesse dos deuses!), mas comíamos chocolates Kit-Kat à saída da sala, depois de uma tarde bem passada.
Nas vésperas de Natal, o Cinema Turim encontrava-se sempre apinhado de crianças e pais ou avós, que faziam fila à porta para assistirem à nova película infantil que estrearia nessa quadra festiva.
E, em época normal, havia sempre dois filmes em exibição, a horários diferentes, em várias sessões.



Depois, com o passar dos tempos, e a abertura de novos centros comerciais com salas de cinema mais apetrechadas e espaçosas, o Cinema Turim deu origem a uma sala de retaguarda, onde apenas eram projectados os filmes que já tinham saído de cartaz nos outros cinemas.
Nessa altura, o meu irmão ainda por lá passou uma ou duas vezes, eu já não. O veludo das poltronas estava coçado e a alcatifa outrora resplandecente jazia agora suja e gasta pelos espectadores de outros tempos.




No fatídico dia 1 de Agosto de 2007, o Cinema Turim encerrou as suas portas ao público. E com elas, fechou, também, um importante capítulo na infância de muitos de nós.

Um belo sábado de manhã, em Janeiro do presente ano, ao passar pela entrada do Centro Comercial Turim, onde o cinema com o mesmo nome se encontrava instalado, deparo-me com dois indivíduos que tentavam colar um letreiro naquilo que foram o painel de anúncio dos filmes em cartaz. À sua volta, uma série de idosos curiosos miravam o que os indivíduos faziam. Um enorme cartaz onde se podia ler a inscrição "Igreja Maná de Benfica" acabava de ser colocado, para grande surpresa e ultraje dos mirones, que comentavam a blasfémia de um tal propósito mesmo ali, em frente à Igreja de Benfica.

Mais tarde, vim a saber, por portas e travessas (ou melhor, pelos meus avós, que andam sempre muito bem informados nestas coisas), que a Igreja Maná alugara a antiga sala do Cinema Turim para realizar as suas celebrações de culto aos sábados de manhã.
Uma semana depois, o famoso cartaz foi retirado do antigo espaço onde em letras garrafais vermelhas apareciam os nomes dos filmes em cartaz.
Quanto à Igreja Maná, não sei se permanece escondida na sala junto às bobines de filmes bem antigos... Mas, de facto, é um duro golpe para as memórias de infância de tantos de nós!...



Uma boa reportagem sobre o Cinema Turim, a ler aqui.




26/02/08

O amolador...


Não posso dizer com toda a certeza, mas... estou quase certa que esta fotografia foi tirada numa tarde silenciosa de domingo... porque o amolador aparecia sempre em dias assim... perguntei-me muitas vezes se tocariam todos a mesma música... e lembro-me que quando ouviamos a gaita ao longe alguém dizia “ah!vem ai chuva”

Encontrei algumas respostas às minhas perguntas e outras curiosidades neste texto sobre o amolador. Gostei muito. Vale a pena ler.