O externato era num rés do chão de quatro assoalhadas adaptado a escola, num prédio situado num largo com jardim, em São Domingos de Benfica. O "Se´sôr", abreviatura de senhor professor, vivia no 1º andar desse mesmo prédio, andava com uma cana comprida na mão, fumava "Definitivos", segurando o cigarro com os dedos amarelos, por vezes a cinza caia no chão.
Era tudo muito auditivo, a palavra do professor, as tabuadas cantadas, a leitura dos textos em voz alta, restava pouco para o visual ! Muita repetição nos cadernos, a escrita em duas linhas, a aritmética no papel quadriculado , não me lembro de caderno de desenho a partir da 2ª classe, relegado para o espaço em branco do cabeçalho por cima das cópias, vá lá, 3 centímetros, a ilustrar. Gostava do exercício da cópia de palavras difíceis numa tira de papel pautado, dividida ao meio, à esquerda o modelo bem escrito, à direita o espaço para copiar correctamente, era o " linguado ", gostava destas palavras que imaginava preencherem a "espinha do peixe".
Da casa do professor no 1º andar, vinha às quintas feiras de manhã a telefonia para o programa musical da emissora nacional, pegado em peso, cuidado com o estrado, no lugar do "Se`sôr" a telefonia, em cima da secretária, tínhamos de esperar que as válvulas aquecessem para o hino nacional, para a marcha da mocidade portuguesa, lá íamos "marchando e rindo…cantando, levados " sim levados, o pretinho Barnabé…a loja do mestre André...o burrinho que ia para ..., carregadinho de …! Nós gostávamos desta meia hora de audio, era uma quebra da rotina das cópias , dos ditados, os" tanques " enchiam-se à tarde de problemas de aritmética.
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19/10/11
23/02/11
Fragmentos
Neste aniversário, o Mercado de Bem-Fica merece um post diferente, uma espécie de "meta-post", um post sobre os post's publicados nestes três anos, sobre os seus conteúdos , sobre o exercício de escrita, de leitura e de registo visual e os efeitos que isso tem em nós próprios e nos outros. Que me desculpe o "Mercado", por me faltar agora o engenho e a arte, mas os meus votos são o de uma longa vida em que continue a dar conta da "borbulhante sabedoria das ruas" e a despoletar recordações de pessoas, comércios e histórias ... Gosto de acreditar que para saber para onde vamos, temos de saber de onde viemos.
Nem quero acreditar quando olho para esta fotografia e passados 45 anos começo a dizer os nomes dos colegas de escola primária, que nunca mais vi. Dinis, Ramalheira, Baptista, Domingos, Carrilho, Francisco Mattoso, Luís Coelho, Fernando Paulo, Lima, Frias, Vítor, Alfredo, Roque, Diamantino... Fico espantado por me continuarem a ser tão familiares…
Lembro-me de estar com eles a jogar " à palmadinha ", nos degraus para o recreio, no quintal das traseiras, com os rectângulos de papel estampados com os jogadores de futebol, depois de comer os rebuçados lá embrulhados e que se compravam na loja, retirados de uma caixa quadrangular de folha que quando acabasse dava uma bola da "cautchú" ( "cade- chumbo" como eu dizia, por ser pesada a chutar) .
Lembro-me de nos divertirmos aos sábados de manhã, havia escola até à hora do almoço, o professor organizava corridas e saltos com canas de bambu grandes, que eram usadas como fasquias para saltos individuais e de grupo, no passeio frente ao prédio do externato.
Jogávamos ao eixo, à barra do lenço, ao "jogo do alho" , alho 1, alho 2, alho 3… ao "Senhor Barqueiro". Na época do hóquei arranjávamos umas tábuas a fazer de sticks, jogávamos à bola até com tampas plásticas, com bola não podia ser por causa dos vidros das janelas.
A escola , na Praça General Vicente de Freitas, tinha um quintal que confinava com a Rua Inácio de Sousa, onde ainda não existiam os prédios que hoje lá existem ao fundo da rua, uma ou outra vivenda .para quem vem da estrada de Benfica, só começava a haver prédios outras vez, virando à esquerda, na Rua Conde de Almoster . Para a direita, na direcção da estação de comboios de São Domingos de Benfica não existiam prédios nem estrada, apenas campo, e a linha de comboio um pouco mais ao fundo. Para um miúdo que vivia no Largo Conde de Bonfim junto à estrada de Benfica , esta zona por onde também se acedia à Mata de São Domingos de Benfica era verdadeiramente o" mundo exterior", lugar para o qual não tinha permissão de me deslocar , mas onde se jogavam partidas de futebol com os miúdos de outras ruas ou largos. Onde se jogava com a bola de cautchú e onde pontificava um craque da equipa adversária, de seu nome" Eusébio".
Post do Xavi
22/01/11
A escola 110
O post do João Xavier sobre o Professor Martins e as eleições de amanhã recordaram-me os meus quatro anos na escola 110, a lendária escola das escadinhas. :) Um porque me lembrou a D. Ângela (a minha professora primária) e as segundas porque aí retornarei amanhã para, a par do dever de cidadania, me deslumbrar com um pequeno museu que guarda zelosamente acessórios do meu tempo. (Finjo ignorar a possibilidade de me tornar também uma peça de museu!) Sim, porque nem o mobiliário é o mesmo ( adorava as secretárias de madeira com o tampo de dobradiças!) e os recursos já são outros. Ainda assim, não resisto à onda de saudosismo que me invade, afinal eu fui feliz ali e a memória guarda alguns desses momentos, mais que não seja as brincadeiras na hora do recreio ou os preparativos para a festa de Natal ou do final do ano.
Chegar à 110 implicava alguns riscos e muito esforço. Eu morava na rua do mercado de S. Domingos e lá seguia, em grupo de cinco ou seis, sem a supervisão de um adulto ( outros tempos... todos os pais já tinham seguido para os seus empregos), rua acima, depois de atravessar a Estrada de Benfica, a guardar o fôlego para subir as escadinhas.
Recordo o meu primeiro companheiro de carteira, do clã Partidário, o meu primeiro bilhetinho de amor (que me deixou vermelha que nem um tomate), os ditados, a cantilena da tabuada, os projectos de Meio Físico, as composições e os trabalhos manuais, as declamações de poemas e os teatrinhos, as cantigas de roda, o elástico, a corda, o mata, o toca e foge, Simão diz, o macaquinho do chinês, o lenço, a cabra-cega... e tantas outras das quais guardo uma vaga lembrança. Algumas eram motivo de torneio, quer no recreio, quer mais tarde, já na Cecília Meireles, depois do lanche, quando as mães podiam ir deitando o olho às brincadeiras de rua.
Amanhã lá estarei para cumprir o meu dever cívico. Lá verei o menino de pedra a guardar o portão da entrada da António Nobre, sempre concentrado na sua leitura; lerei as composições dos meus "novos colegas" de classe, verei os seus projectos e os seus sucessos registados nas tabelas da sala e espreitarei para o recreio, quase ouvindo os gritos das muitas crianças que ali têm passado. Às vezes bem me apetecia poder "fazer de conta" que era a Maia do Espaço 1999 e transformava-me noutra coisa, mais conveniente às circunstâncias e aos desafios do momento.
Este texto tem duas dedicatórias.
A primeira à D. Ângela, minha professora, que me ensinou a arte de contar histórias e a gostar de partilhá-las. A segunda à Fia, à Paula e ao Xico, à Fatinha e à Isabel, às Carlas, à Guilhermina e ao Carlos, à Natércia, à Teresa, ao Pedro e à Sandra, meus companheiros de brincadeiras na Cecília Meireles.
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Chegar à 110 implicava alguns riscos e muito esforço. Eu morava na rua do mercado de S. Domingos e lá seguia, em grupo de cinco ou seis, sem a supervisão de um adulto ( outros tempos... todos os pais já tinham seguido para os seus empregos), rua acima, depois de atravessar a Estrada de Benfica, a guardar o fôlego para subir as escadinhas.
Recordo o meu primeiro companheiro de carteira, do clã Partidário, o meu primeiro bilhetinho de amor (que me deixou vermelha que nem um tomate), os ditados, a cantilena da tabuada, os projectos de Meio Físico, as composições e os trabalhos manuais, as declamações de poemas e os teatrinhos, as cantigas de roda, o elástico, a corda, o mata, o toca e foge, Simão diz, o macaquinho do chinês, o lenço, a cabra-cega... e tantas outras das quais guardo uma vaga lembrança. Algumas eram motivo de torneio, quer no recreio, quer mais tarde, já na Cecília Meireles, depois do lanche, quando as mães podiam ir deitando o olho às brincadeiras de rua.
Amanhã lá estarei para cumprir o meu dever cívico. Lá verei o menino de pedra a guardar o portão da entrada da António Nobre, sempre concentrado na sua leitura; lerei as composições dos meus "novos colegas" de classe, verei os seus projectos e os seus sucessos registados nas tabelas da sala e espreitarei para o recreio, quase ouvindo os gritos das muitas crianças que ali têm passado. Às vezes bem me apetecia poder "fazer de conta" que era a Maia do Espaço 1999 e transformava-me noutra coisa, mais conveniente às circunstâncias e aos desafios do momento.
Este texto tem duas dedicatórias.
A primeira à D. Ângela, minha professora, que me ensinou a arte de contar histórias e a gostar de partilhá-las. A segunda à Fia, à Paula e ao Xico, à Fatinha e à Isabel, às Carlas, à Guilhermina e ao Carlos, à Natércia, à Teresa, ao Pedro e à Sandra, meus companheiros de brincadeiras na Cecília Meireles.
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21/01/11
A Lição

O professor já topara, o puto atrasado e com pouca vontade em começar o aquecimento, enquanto os colegas esperavam sentados no chão, nas suas posições na sala que funcionava como se fosse um ginásio. "OH ! SEU ZÉQUINHA …"ouvia-se então a voz do professor a troar pelo ar, o puto retardatário ainda arrastar-se com o frio da manhã, a enfiar o blusão, ainda não estava a perceber, se fosse preciso o professor aproximava-se e abria muito os olhos, "SEEUU... ZÉQUIIIiNHA ...!!!", podia-se sentir o seu hálito , e o puto lá percebia ... Era a sério, mas era "uma coisa teatral, de meter medo" , o que fazia o Professor Martins , no resto dava lições. Na Escola Preparatória Pedro de Santarém, acabada de inaugurar em Benfica, mesmo no início de 70, foi o professor que me marcou mais em três anos.
Nas aulas do Professor Martins desenvolviamos durante a semana o Atletismo e o Voleibol, e aos sábados participávamos nas actividades "circum-escolares" do desporto escolar. Eu adorava futebol , nunca o joguei nas aulas de ginástica mas em troca fiquei com os gestos técnicos indispensáveis à prática de desportos que não conhecia; as manchetes, os puxanços, os vóleis, primeiro o domínio individual, depois os jogos e em seguida a competição. O atletismo fazia-se à volta da escola, nas corridas longas, marcaram-se as pistas para a velocidade , atrás das oficinas.
Na porta envidraçada de acesso ao bufete dos alunos, nessa manhã de segunda -feira, estava afixada uma nota do Profº Martins, sobre os resultados do desporto escolar de fim de semana. "No corta-
-mato realizado no domingo passado no Campo Grande, conseguimos o 3º lugar. A equipa esteve incompleta, sem Xavier e Hilário".
Durante a semana anterior tínhamos treinado para o corta-mato, saía-nos os bofes pela boca, eu sempre gostara de correr, desembaraçava-me nas corridas de resistência, lutava pelo primeiro lugar mas nem sempre o conseguia, o professor incitava-nos. Estava convocado para o corta-mato, no domingo às 10 horas! Acontece que eu gostava muito de futebol e aos domingos ia com o meu avô à Luz , ver o Benfica; começava às onze da manhã com os juniores, à tarde os seniores, era o programa completo de futebol " à antiga portuguesa". Enganei-me de propósito na hora da convocatória do corta mato, para o perder, e seguir para o futebol ,a tempo de ver o jogo dos juniores , ou seja , preferi a bancada à competição.
Na segunda feira lá estava a notícia no vidro afixado, e havia uma parte que era "toda ela para mim"; eu pertencia à equipa de atletismo do Pedro de Santarém, a minha presença podia ter feito a diferença . O professor Martins nunca me pediu explicações da minha ausência, não foi preciso, a Lição estava dada.
Dedico este texto à memória do Professor Martins
foto retirada do sites.esjgf.com/esjgf/historia-1/.../escola-basica-2-3-pedro-de-santarem
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