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03/10/13

“ O Laranjal do Conde de Bonfim” ou "Recordar é Viver ! "


É difícil a mobilidade no largo, só com uma entrada, veículos sobre os passeios, a ambulância entra com precisão milimétrica para ir buscar o doente idoso.
As fachadas dos prédios do Largo Conde de Bonfim estão pintadas com cores pastel, o Parque Infantil não têm crianças a esta hora da manhã de Setembro, acantonadas nas escolas.
O tempo retrocede, na mesma coordenada geográfica. 

Um rapazinho aproveita os ramos da árvore do jardim, para testar a sua coragem e encontrar um refúgio; à tarde corria com os outros miúdos atrás de uma bola, últimos "cartuchos" das férias, coração a bombear o peito todo, tempo parecendo não ter fim. Os eléctricos tilintavam e guinavam sobre os carris da estrada de benfica. Por vezes, acompanhava a mãe a comprar flores na Quinta das Campainhas e planava sobre um ar cheiroso e perfumado. 
Noutra intersecção do tempo, no mesmo local, uma criança segura uma laranja na mão e o sol de fim de tarde escorre-lhe pelos dedos.
O laranjal era do Conde de Bonfim, para onde ia em certas tardes, mesmo ao lado da Quinta das Campainhas onde nascera e vivia.Conhecia bem aqueles campos, quando a seara estava alta, aí se escondia, a criadagem caminhando vereda acima, entre as oliveiras, até à eira e depois aparecia na vacaria para beber do leite acabado de mungir, leiteiras cheias para uso doméstico. No início do Verão apanhava rãs no regueiro junto ao muro.

Em 15 de Fevereiro de 1941, o dia do ciclone, o eucalipto de grande porte que ladeava o laranjal abateu-se sobre muro rosa da propriedade do Conde de Bonfim. Ficou muito impressionado o rapaz, que nos dias seguintes, ainda tentou fazer do eucalipto tombado a sede das suas brincadeiras.
A ambulância retirou-se, e desbloqueou a entrada para o largo, voltando-se a poder circular.


(Texto a partir de uma conversa  ocasional  e afortunada com  um antigo morador da Quinta das Campainhas,  ou "Palácio do Beau Sejour")

29/06/12

A música de Carlos Paredes



Durante uma parte dos anos setenta e inícios dos 80, nos meus verdes anos,  Carlos Paredes o guitarrista que "amava demais a música para viver dela" viveu na Estrada de Benfica no nº 403, mesmo em frente ao Largo Conde de Bonfim. 
Era com admiração que o via sair de casa, com o estojo da sua guitarra portuguesa e apanhar um táxi, imaginava eu para  um ensaio ou para um espectáculo, ou para a Liberdade...  Dizia-se que trabalhava num hospital a arquivar radiografias, uma espécie de Fernando Pessoa a trabalhar no escritório do Vasques.
 Por vezes em curtos passeios nocturnos não se coíbia de se aproximar da malta adolescente se lhes via nas mãos uma viola, queria saber que músicas tocávamos e gostávamos. Era uma época em que se ouvia a música tradicional portuguesa chamada de intervenção, a par dos grupos de rock anglo saxónicos, ainda não havia muito a educação para escutar com atenção a música instrumental, no caso de Paredes, com instrumentos próximos de um Fado ainda não re-inventado.
Durante varios anos tive em casa uma cassete, gravada por cima de outra música qualquer e sem caixa, com música de Carlos Paredes, sei agora que era o LP Carlos Paredes, Guitarra Portuguesa  de 1967; tocou muitas vezes no meu rádio gravador "Hitachi", que comprei com um dinheiro que herdei de meu avô materno, Francisco.


28/04/12

25 de Abril na estrada de benfica

Em 25 de Abril de 1974 acordei a ouvir minha tia avó na altura com 71 anos, dizer à minha mãe que as revoluções deixavam tudo na mesma, ela que já tinha vivido a queda da monarquia e todas as convulsões da 1ª Republica . A minha mãe recebera logo de manhã, antes de sair para o trabalho um telefonema de uma sua comadre que acedia a informações directas do cunhado, controlador aéreo do Aeroporto da Portela, que ficasse em casa e se abastecesse de alimentos, não se sabia se seria preciso.
Nesse dia aprendi junto à rádio com meu pai o que queria dizer  a palavra "eufemismo", como é que "Direcção Geral de Segurança" tinha substituído e se referia à "PIDE".  E também aprendi em "Curso Acelerado De Todas As Coisas Que Não Sabia Porque Quase Ninguém Falava" o que significava PIDE.
Sei que nesse dia a minha mãe se foi abastecer num supermercado na rua Padre Francisco Alvares, o meu pai levou-me depois do almoço ao Liceu D.Pedro V para se ver que não havia aulas, depois ele seguiu para a Gulbenkian para ver também que não havia congresso . Mas na Estrada de Benfica haviam cravos e pessoas que se saudavam  com alegria com nunca antes vira. No dia 26 de Abril, vindo do liceu e depois de ter percorrido toda a zona arrelvada no centro da praça de Sete-Rios em direcção à estação do metropolitano e às paragem dos eléctricos percebi uma concentração de pessoas que se apinhavam , junto a uma casa apalaçada, nº 241 da Estrada de Benfica.  Acerquei-me juntando-me à multidão e fiquei a saber que a casa era a escola técnica da PIDE; os militares estavam a capturar pides, e estes chegavam escoltados e muito  acossados pelas pessoas que se amontoavam mas lá entravam a salvo e a custo no edifício. Um pouco mais tarde, no largo onde eu morava em São Domingos de Benfica, a minha vizinha do lado  lançava impropérios ameaçadores da varanda quando percebeu que os militares iam buscar alguém da Legião Portuguesa, o vizinho do prédi em frente e a fúria fê-la descer num ápice do 3º andar à rua.  
Nessa tarde percebi que os militares, não eram bárbaros . Em minha opinião, é por isso que  podemos explicar ainda hoje o 25 de Abril aos nossos filhos e aos nossos netos, e eles querem saber, porque precisamente ainda lhes chegam esses ecos. E podemos lançar e apanhar os cravos !
cartaz

Vieira da Silva / sem data in

25 de Abril 30 Anos 100 Cartazes

Diário de Notícias

22/03/11

Cine-Clube Movimento


Estavam-se a abrir de par em par as janelas da liberdade em Portugal , a "malta" do Conde de Bonfim ainda jogava à bola no jardim mas ia aparecendo pessoal mais velho com mais estudos, mais informação, outros interesses. Era o caso do Pedro de Matos que nos convidou para nos fazermos sócios de um cine-clube; as quotas eram baratas, já não me recordo quanto mas barato, para estar ao alcance dos nossos bolsos. A malta queria saber, esponjas para toda a informação que nos chegava finalmente. Benfica era um bairro onde não haviam cinemas era necessário deslocarmo-nos a outros pontos da cidade. Aderimos. Ser sócio dava direito a ver dois filmes por mês. As sessões de cinema decorriam à noite no antigo salão de festas do Bairro das Furnas com texto de apoio escritos à máquina sobre os respectivos realizadores e tinha no final um debate com um convidado, lembro-me de um crítico de cinema, José Vaz Marques. Alguns dos filmes como " Laços Eternos" de André Delvaux, de 1968, recorria a constantes passagens real/irreal, que lhe conferia um tipo de narrativa não linear a que não estávamos habituados; de regresso ao largo a pé pela estrada de benfica íamos discutindo o que víramos à procura de sentidos. O programa começou com a "A regra do Jogo " de Jean Renoir, em 12 de Dezembro de 1975, e depois tivemos oportunidade de ver "Butch Cassidy and the Kid", com Robert Redford e Paul Newman , música de Burt Baccara, para nós o primeiro western "pós - Bonanza". A seguir foi nos apresentado KubricK e o "Doctor StrangeLove" com o seu cowboy a cavalo de uma bomba pronto a saltar da escotilha aberta do avião, a fantasia ou fantasmagoria da "Semente do Diabo" de Polanskii , as "Luzes da Cidade" de Chaplin," "L`énfant sauvage" de Truffaut . Tanta coisa para descobrir...

02/03/11

Pinguim

Pinguim, Estrada de Benfica

O Pinguim deve ter sido um dos primeiros “take away” na zona de S. Domingos de Benfica. Desde sempre que me lembro das pessoas elogiarem a comida do Pinguim e de lá irem de propósito comprar menus para degustarem em casa. Lá dentro o Pinguim não é nada de especial, no que respeita ao espaço. Penso que almocei lá uma vez e se, bem me recordo, fiquei junto à vitrina. Quem esta na parte de dentro vê tudo e quem passa do lado de fora, só se consegue ver ao espelho, de maneira que toda a gente, da uma arranjadela no cabelo, olha-se dos pés à cabeça para ver se está apresentável. Outros conhecem e não se esquecem da rasteira, mas olham de solslaio na mesma...

Entretanto, passeando pela internet, vi que o Pinguim tem um site e que afinal tem 15 anos de vida... tinha a ideia de o ver ali desde sempre. No site, podemos descobrir os deliciosos menus do dia, as especialidades das épocas festivas e fiquei a saber que o Pinguim trabalha bastante com empresas, podem fazer-se encomendas com entrega no local de trabalho. No site esta tudo, dêem uma espreitadela!

O site ja esta na nossa lista "degustando por Benfica" aqui ao lado

23/02/11

Os Barbeiros de São Domingos de Benfica

Acordo cedo. Tenho encontro marcado com uma amiga. Penso que me apetece fotografar a azáfama dos sábados de manhã, mas hoje não tenho tempo.


Vou à papelaria / tabacaria “Cave” comprar o jornal e vejo as mesmas caras de sempre, no entanto, não consigo recordar-me do nome, talvez um dos senhores se chame Carlos. Sento-me no café do Sr. João, só estou eu e um casal. Peço o costume: um café, um copo com água e um bom bocado. Vou folheando o jornal. Começam a chegar clientes, todos eles habituais, porque todos trabalham do outro lado da estrada.



Entra um dos barbeiros, vem um dos senhores da Cave e chega outro barbeiro. Pedem 3 cafés ao Sr. João. Gera-se ali um pequeno conflito amigável porque todos querem pagar, mas hoje paga o Sr. Ricardo porque os outros pagaram nas manhãs anteriores. Olho para os barbeiros, conheço estas caras desde pequena, de vê-los refeltidos no espelho, compenetrados a cortarem os cabelos, ou de vê-los à porta à espera de clientes. Através da vitrina do café olho para a barbearia. Gosto do espaço, é um bocadinho à moda antiga. As cadeiras são bonitas, forradas a vermelho, os utensilios parecem-me todos vintage. Os barbeiros, que devem ter cortado cabelos às mesmas pessoas aos 10, 20, 30 e 40 anos... quem, das pessoas que vivem em S. Domingos de Benfica, nunca tera cortado o cabelo neste salão?

Penso que um dia deste os senhores se reformarão e que certamente não terão filhos que queiram perpetuar o negócio. Talvez daqui a poucos anos, nasça outra coisa no lugar do barbeiro... mas gostava que ele ficasse ali para sempre, é um lugar que esta nas minhas recordações e sempre no meu caminho quando vou para casa.

08/12/10

Feriados de Dezembro


Se eu estivesse em S. Domingos de Benfica hoje seria dia de sair de casa à procura de presentes de Natal ou, pelo menos, de ideias de presente. Lembro-me de começar estas manhãs de feriados de Dezembro por beber um café no Pastelinho e de gostar de estar de folga a um dia de semana. As lojas estão abertas, como se não fosse feriado, aprecio o movimento e começo a caminhar pela Estrada de Benfica. Lembro-me de comprar presentes de Natal para a minha avo na retrosaria, mesmo ao lado do Sr. Ferreira onde hoje se instalou uma agência imobiliaria. Logo ao lado, na loja das malas, acabava sempre por escolher uma carteira ou um estojo para as canetas ou para os oculos, para alguém. Mais à frente, paragem na Perfumaria Lino, cremes e perfumes, também faziam sempre parte das listas de Natal, uma paragem na Onix para ver se surgiam mais ideias, outra paragem na Casa da Selva porque não ha quem não goste de nada que esteja nesta loja, chas, cafés, chocolates, rebuçados com embalagens especiais. Atravesso a estrada e paro no Sr. Jaime. Passeio-me pelos corredores à procura de agendas, canetas e subo à antiga livraria para ver se ha alguma coisa em que não pensei mas que pode ser uma boa ideia. Entro na loja “dos indianos”, encontram-se sempre pequenos objectos com graça, meio kitch... e assim continuo a descer a Estrada de Benfica... so neste bocadinho ja encontrei uma série de presentes. E à medida que vou descendo, vou sentindo o cheiro que vem de dentro dos cafés e pastelarias, quase a postos para as encomendas de Natal.

Mas a verdade é que ha ja cinco anos que não faço este percurso e desde então ja não existe a retrosaria, nem a perfumaria... ja restam poucos comércios nesta parte da Estrada de Benfica. Mas, e ainda bem, as pastelarias mantêm as portas abertas com o delicioso cheiro das especialidades desta época, que misturado com o burburinho e com as iluminações de Natal aquecem o coração...

17/10/10

São Domingos de Benfica ontem e hoje (6)




A primeira fotografia é de 1961 e é da autoria de Augusto de Jesus Fernandes (AML). A segunda fotografia foi tirada por mim em Maio de 2010. No dia em que a tirei lembro-me de ter pensado que nunca tinha reparado bem neste edificio, e no entanto, ele é bem visivel e muito bonito. Azulejos brancos e azuis, uma porta grande, também bonita e azul. Nunca reparei bem nele porque sempre que por aqui passava reclamava por haver sempre carros em cima do passeio. Portanto, no dia em que esta fotografia foi tirada tive uma sorte exatraordinaria, não havia ali nem um carro e fiquei alguns minutos do outro lado da estrada a admirar os azulejos e as cores. Não sei qual é a historia desta casa, não sei se pertence a particulares (ao pesquisar na internet, entre outras, encontrei esta informação), mas é mais um dos poucos edificios de outros tempos que resta em São Domingos de Benfica.

03/10/10

" O Estádio "


O antigo estádio da Luz foi um local importante na geografia da minha infância, pois morava muito perto dele, num largo à estrada de benfica. Com os tempos, aprendi a "ler" os sons que vinham do estádio, como se fosse um índio a decifrar sinais de fumo na pradaria; a imagem não é completamente fílmica porque entre a minha casa e o estádio existiam quintas dedicadas à agricultura e lacticínios, campos de trigo e vacarias, ligadas por azinhagas empedradas, e que prolongavam a antiga Rua dos Soeiros, da estrada de Benfica à estrada da Luz . Mesmo que não tivesse ido à bola, perscrutava os sons desde o meu largo e interpretava-os, sabia se tinha sido golo do Benfica, qual o nível do entusiasmo das exibições e das vitórias, a irritação protestativa do público quando as coisas não corriam bem ou o silêncio barulhento dos maus resultados, os golos dos adversários nos jogos importantes. Comecei a aprender muito cedo, a primeira vez que fui ao estádio da luz em dia de jogo , tive medo, era muito pequeno, assustei-me com os gritos do público, os pés das pessoas contra o cimento das bancadas do terceiro anel, as manifestações efusivas aquando da marcação dos golos, talvez os protestos contra as decisões do árbitro e o bruáá desesperado quando a bola não entrava.
Hoje quando vou à bola no novo Estádio da Luz , já não vou pelas azinhagas de que restam apenas vestígios e já não passo pelas poucas quintas que sobrevivem mas se olhar com atenção para a direita na entrada dos Altos dos Moinhos do novo estádio sei exactamente onde se erguia o antigo Estádio da Luz.
Se "olhar com atenção", o meu avô ainda lá está a meu lado nos lugares cativos por baixo do 3º anel, nos dias e noites de jogos grandes, os vizinhos da bola a apertarem-se na bancada para o puto se puder sentar, o avô a dar joelhadas reflexas no neto, querendo muito chegar àquela bola, em movimentos inscritos no corpo de futebolista da década de trinta, enquanto mastigo rebuçados, é prá tosse otimel, é prá tosse , e o vizinho da fila de baixo à esquerda, o da voz rouca, desenrola o farnel ,
tínhamos que ir mais cedo nos jogos grandes, mesmo os sócios com lugar cativo como o meu pai e o meu avô, o estádio com sessenta mil pessoas esgotado,
farnel a sério com garrafão de 5 litros, o vizinho da voz rouca a oferecer do farnel, e a sorrir, enquanto o jogo não começava, e eu a pensar agora, que nunca lhe ofereci um rebuçado para a tosse,
nos jogos europeus a emoção era muita, era o somatório dos resultados de dois jogos, tínhamos estado em vantagem e agora já não, mas veio o terceiro golo e foi a alegria total, tudo a abraçar-se, mas o vizinho da fila de baixo à esquerda deitado com a comoção,
façam-lhe respiração boca a boca,
felizmente foi passageiro,
deixe lá o farnel e o garrafão de 5 litros,
o jogo a continuar e logo a seguir o Benfica faz 4-1 e depois a marcar o quinto, o delírio total,o vizinho ainda não estava bem recuperado, voltou a vacilar, mas nenhuma sombra passou pelo estádio…
Se fechar os olhos e me concentrar, acho que ainda posso ver o que via quando,
depois de uma soalheira tarde de bola na Luz , descendo a rua dos Soeiros com meu pai até à estrada de benfica,
fechava os olhos , ainda com as retinas impregnadas do verde do campo , das camisolas berrantes e de luz intensa e clara.

15/09/10

Qual o vosso bolo/salgado preferido?

Porque o assunto das pastelarias de Benfica é, entre outros, um dos preferidos deste Mercado de Bem-Fica e porque o Pastelinho de Benfica já foi aqui várias vezes mencionado, queremos saber qual o bolo/salgado que os nossos leitores elegem desta deliciosa pastelaria. Na fotografia, fica o papel de embrulho dos bolinhos sortidos que não ficam atrás do resto...
...toca a fazer crescer agua na boca...

01/09/10

Livraria Números Simétricos

Apetecia-me guardar este post para Setembro. Para mim há dois principios de ano, em Janeiro, quando começa o ano oficial e Setembro quando (re)começa a vida apos dois meses de silly season...


Estas fotografias, como quase todas, foram tiradas em Maio, num dos dois sábados das minhas férias. Por ali abaixo, depois do café no Mimo de Benfica e antes da história do Arabesco. Tinha sabido pela Gilia que o Sr. Jaime tinha aberto uma livraria por detrás do cabeleireiro e estava cheia de curiosidade de vê-la. Cumprimentei a senhora que estava ao balcão e fui observando por ali adentro. A memória atraiçoa-me um bocadinho, porque já passaram alguns meses... mas assim não conto tudo para os leitores do Mercado de Bem-Fica terem vontade de lá ir espreitar.

Já devia passar do meio dia, e a livraria estava silenciosa. Depois de visitar pus-me à conversa com a senhora, pedi-lhe algumas informações suplementares sobre aquele novo espaço e perguntei-lhe se podia fotografar a loja para pôr num blog que fala sobre Benfica e São Domingos de Benfica. Ela aceitou, gentilmente, e sairam estas fotografias. Afinal, como já foi contado aqui no blog ou na pagina do Facebook foi uma antiga funcionaria do Sr. Jaime que lhe comprou o negócio e assumiu de um lado a papelaria/tabacaria e de outro a livraria. Parece que a clientela é habitual e como há muitas escolas à volta a livraria costuma ter movimento.


Apostar numa livraria de rua, nos dias que correm, é de louvar... numa cidade (para não dizer um país) em que, aos olhos da maioria das pessoas (não todas, claro) que compra livros existem praticamente duas livrarias, em que o mercado editorial foi completamente monopolizado, em que “a grande livraria portuguesa” deixou de fazer o desconto inicial que levava centenas de pessoas a comprarem ali... e em tempos em que nos apetece voltar ao comércio tradicional, poder sair à rua sem ter o sentimento de que se mora num dormitorio, é de dar valor às livrarias de bairro, com atendimento simpatico e personalizado...


Numeros Simétricos, uma livraria em São Domingos de Benfica
Estrada De Benfica, 333-B / 304-B, Lisboa, Lisboa 1500-075 Lisboa

24/08/10

Deserta esta a cidade

Image and video hosting by TinyPic

Mês de Agosto em que a cidade é pertença de quem a deseja conscientemente percorrer. Tempo de êxodo urbano em fugaz suspensão da rigidez de horários, desaparecimento da «voragem empolgante» tal como a retratou Rodrigues Miguéis por tanto conhecer o bulício citadino…Mesmo com orçamentos contidos , a diária caravana através da ponte à procura de sol, de mar... No passado alguém afirmou que Coney Island se encontrava para os nova-iorquinos como a Costa para os lisboetas. Não sei se será legítima tal aproximação e há muito que não visito a praia da margem Sul … Surgiu o pensamento quando os olhos se fixaram num dos poucos locais a trazer uma certa nostalgia do bulício: o parque infantil expondo-se, sem sentido, quando afastado de risos e correrias de criança.

Despojado o local de cores e chilreios, ganham sentido fragmentos desta Elegia número onze:
[…]
- são os passos que fazem os caminhos.
Deserta está a cidade.
Se houvesse alguém andando sozinho
- para ele se acenderiam então, como um olhar, todas
as cores!
Porque a cidade está cega, também.
O que não é visto por ninguém
não sabe a cor do aspecto que tem.
[…]

Mário Quintana

19/07/10

Novidades no comércio tradicional


E por falar precisamente nesta rua, deram-se conta que abriu uma loja para animais onde era uma antiga loja de artigos de desporto?
E mais uma loja a encerrar e dar luz a outro negócio; vi também que a Perfumaria Lino (da Jú) estava hoje mesmo a ser "desmontada". Questionei, o que irá nascer por ali? Será mais uma loja de chineses? Vocês sabem quantas lojas de chineses há desde a Univ. Internacional até ao Califa???? Precisamente 8!!! E parece que vai abrir mais uma onde era uma loja de móveis (La Senia) ao lado mesmo da Univ. Internacional. Será que já não chega???? Não tenho nada contra as pessoas, mas este tipo de negócio também arrasa o tradicional. Não há limites?????
Fotografia e comentario de Ana Sa

30/06/10

São Domingos de Benfica Ontem e Hoje (6)

Falava eu aqui no outro dia no Mimo de Benfica, o café do Sr. João, onde tudo tem uma apresentação limpissima e arrumadissima e onde são todos muito bem educados. Apetece-me voltar a falar neste café porque quando regresso a Lisboa não deixo de passar por la para beber uma italiana enquanto espero pelo autocarro. Este mês de Maio não foi excepção... é engraçado pensar que passaram 5 anos que ja não vivo em Lisboa e quando entro la dentro, apesar de apenas trocarmos um "bom dia", sei que conhecem o meu pedido, mas perguntam sempre por educação e nunca se esquecem de trazer o copo de agua que não pedi mas que queria pedir... dizia eu que em tempos aqui tinha existido uma mercearia e que não me lembrava do nome do senhor e da sua esposa. Pois também me cruzei com ele no mês de Maio e como relembrava aqui um dos nossos leitores, era a mercearia do Senhor Baltazar


Agora olho para a fotografia a preto e branco, vejo os carris do electrico e penso se nesta altura, naqueles toldos ja existiria a dita mercearia ou se existiria ali outra coisa. Em todo o caso, mesmo a preto e branco, parece uma tarde de Verão de Sabado e de Agosto, lembro-me de la irmos comprar guloseimas enquanto disfrutavamos vagarosamente dos três meses de férias...

12/06/10

Estrada de Benfica 411 e 413

Foi a primeira surpresa quando cheguei a Benfica. Depois de 6 horas de viagem de carro chegamos à rotunda da Rua Mariano Pina. Viramos à equerda e entramos na Professor Reinado dos Santos. Ainda não foi desta que consegui tirar fotografias, gosto muito desta rua especialmente no Verão e no Outono. Quando o carro começa a descer o meu olhar para em tudo à procura de novidades. Mais abaixo viramos à direita, passamos os Maristas e paramos no sinal. Sinal verde. Viramos novamente à direita e fico de boca aberta. A primeira ideia (porque estava sem óculos) é a de que o 409 foi abaixo, mas quando nos aproximamos vejo que foi “A”casa de esquina, das poucas que restavam do tempo das vivendas. Aquela de que já tinha falado aqui há bem pouco tempo. É o fim da tarde, há muito trânsito e não podemos parar. O meu irmão diz-me “foi sem mais nem menos, há dois dias” – nada faria prever que isto acontecesse...

Pousamos as coisas, instalamo-nos e mais tarde vamos comer os meus primeiros caracois de Maio ao 409. A imagem da escavadora deixa-me siderada, a pensar por que razão terá aquela casa sido vendida. Parecia habitadissima. Pergunto ao Luis, ele diz-me que os donos venderam e que vão ser ali construidos dois prédios. Outras pessoas disseram-me que a senhora recebeu uma boa soma para deixar a casa e que foi viver para o Largo Conde Bonfim...



Penso que tenho que lá voltar para tirar fotografias durante o dia, mas não voltei (pelo menos com máquina), tenho apenas estas fotografias tiradas de noite, depois dos caracois. Com tudo escavacado percebo que aquele terreno estava mesmo encostado à
Vila Grandela, pensei que existiam ali duas coisas: a casa e o jardim ao lado. Lembro-me de quando tirei a fotografia através de um buraco que existia naquele portão. Como eu gostava de ter aquele jardim com aquele anexo.

Fotografo o painel grande que ali afixaram. Só estou a lê-lo hoje “Conclusão da obra 7 de Junho de 2010” e penso que não é possivel.


E lá foi mais uma parte daquilo que foi São Domingos de Benfica... começam a ficar poucos vestigios desses tempos. Penso numa noite de sábado em que apanhei um taxi no Bairro Alto. Peço ao senhor para me levar à
Rua Montepio Geral e começo a explicar-lhe onde é, porque é raro saberem. O senhor diz-me “não se preocupe que eu sei onde é, menina”. Continuamos a viagem em silêncio. Ele vira na Rua Sousa Loureiro e quando entramos na Montepio ele diz-me: “sabe, era eu jovem taxista, nesta rua só havia vivendas. Hoje em dia já só resta esta”... mas qualquer dia, nem esta haverá...

05/06/10

Arabesco

Era um sábado também, dia 22 de Maio. As férias estavam a chegar ao fim e eu não tinha fotografias de Benfica na máquina... então saí para a rua, sem saber muito bem como fazer, queria fotografar tantas coisas e não sabia por onde começar e por outro lado queria que o meu olhar parasse em coisas que nunca tinha registado. Começar por tomar um café pareceu-me a melhor solução e fui descendo a Estrada de Benfica. Parei no Arabesco.



Pedi uma italiana, enquanto ouvia o burburinho dos clientes e da azáfama dos cafés aos sábados de manhã. E pus-me à conversa com o senhor Candido Lages, o gerente do café. Uma simpatia. Contou-me que o Arabesco abriu as suas portas pela primeira vez, como restaurante, em 1969, pelo casal Dias e Palma e que estes o venderam anos mais tarde para abrir uma camisaria, com o mesmo nome, do outro lado da estrada, onde é hoje o talho. Entretanto, o Arabesco teve várias gerências mas é a gerência dos irmão Lages, Candido e José, que ali está há mais tempo, desde o dia 21 de Maio de 1995, há 15 anos portanto.



Quem passeia pela Estrada de Benfica não pode deixar de ver o Arabesco. A pé ou de autocarro, olhamos sempre para a esplanada e para a vitrina com a deliciosa pastelaria. Quando ali se entra no Natal, os bolos, doces e especialidades, despertam a gulodice a qualquer um.


O Arabesco é uma pastelaria de fabrico próprio, o cheiro dos bolos e salgados frescos perfumam o local. Tive curiosidade em saber quais eram os mais pedidos e fiquei a saber não podemos ir ao Arabesco sem provar o salgado com o mesmo nome e as queijadas de requeijão. Na parte do restaurante parece que o arroz de pato e o bife à Arabesco são uma verdadeira delícia. A degustação de todas estas iguarias pode fazer-se todos os dias da semana excepto aos Domingos, dia de fecho para descanso.


Fico ali mais um bocadinho, olho à volta e reparo nos três grandes paineis de azulejos que decoram as paredes com as principais “atracções” da freguesia de São Domingos de Benfica: a entrada do Jardim Zoologico (porta da Estrada de Benfica), o Palacio Fronteira e o Chafariz.


Fotografo o que posso, agradeço o café gentilmente oferecido pelo Sr. Candido e continuo, de maquina na mão, Estrada de Benfica abaixo...

04/06/10

Califa, uma doce tradição

Acordamos de manhã… estava sol e eu tive uma vontade subita de ir comer bolos ao Califa. Ja la tinhamos passado na véspera, quando iamos para o cinema e uma manhã na “nova” esplanada pareceu-me um optimo programa.

Então acordei-os a todos, aliciando-os com os croquetes e dizendo queria comer uma delicia de morango. Califa, here we go. Um lugar na esplanada, estava sol e um ventinho agradavel. Havia dois pombos a comer as deliciosas migalhas (porque bolos deliciosos têm migalhas deliciosas) que foram o menos agradavel da manhã. Lançamos o pedido: 4 croquetes, uma delicia de morango, um folhado misto, varios “restaurantes” com manteiga, varios cafés, e clic clic algumas fotografias para registar esta doce manhã...


Não reconheci o empregado... mas reconheci a pastelaria ... se estivesse ali o meu pai dizia logo “isto é uma categoria”.

Parece que até têm publicidade na televisão..."Califa, uma doce tradição"

02/06/10

Azulejos em S. Domingos de Benfica

Engraçado como os olhos de pessoas diferentes podem parar exactamente nos mesmos pormenores... no mês de Maio tirei fotografias aos mesmos azulejos... estas são da Vera João... muito bonitas... podem ver mais aqui

estas sãs as minhas:

17/04/10

O jardim da paragem...

Este é o jardim onde iamos aos domingos em que não havia planos. Antes não era assim, não tinha nada destas diversões e escorregas novos.


Para nós sempre foi o jardim da paragem ou o parque. Há alguns anos estava rodeado por uma rede verde que devia ter 1m70, as portas estavam sempre abertas durante o dia. Neste jardim, havia logo à entrada um chafariz que servia, não apenas a quem brincava lá dentro, mas a qualquer transeunte que tivesse sede. Todo o chão era preenchido de areia e logo em frente à entrada havia um escorrega vermelho com uma base cor de aluminio. Mais à direita estavam os baloiços, velhinhos, com assento de madeira, uma tábua em frente que deslizava pelas correntes até baixo para nos impedir de cair para a frente e, para ganharmos balanço, agarravamo-nos a uma espécie de corrente traçada que mantinha os baloiços presos lá em cima. Mais em frente ao café Bonfim estavam as barras de ferro para fazer cambalhotas, havia 3 de tamanhos diferentes. Na parte de cima do jardim a rede misturava-se com alguns arbustos e aí estavam as casas de banho. Espalhados pelo jardim existiam vários banquinhos de madeira onde os adultos podiam vigiar as crianças ou os velhinhos podiam ver desfilar a vida alheia...

Uma das maiores atracções deste parque era o campo de basquete e talvez ainda hoje o seja.
Aos fins de semana havia sempre rapazes que corriam batendo a bola no chão e saltavam alto para a enfiarem dentro do cesto. Por vezes, pareciam fazer jogos “mais sérios” e nesses dias o jardim enchia-se de pessoas à volta da rede que delimitava o campo, gritando pela equipa que apoiavam.



Entretanto, com os anos, o jardim começou a sofrer algumas alterações. Tiraram a rede colocaram novas diversões e mais modernas e parece-me que o chafariz desapareceu... e, desta ultima vez que lá estive, voltei a ver que estava em obras, não sei como ficou no final... mas o campo de basquete parece que se mantem...

14/04/10

A Casa da Selva II


É, sem duvida, uma das minhas lojas preferidas em S. Domingos de Benfica. Em vias de extinção as lojas de café são cada vez menos numerosas pela cidade, por isso, considero a Casa da Selva uma relíquia. Esta magnifica loja, tem por proprietários um casal muito simpático. Nunca soube o nome deles, mas lembro-me muito bem de que o senhor da loja quando se dirigia aos clientes para os atender começava sempre por dizer “tenha a bondade”. Aqui lembro-me de comprar sobretudo bolinhos secos, vendidos ao kilo acondicionados dentro de grandes sacos de plástico transparentes e expostos em cima do balcão, quem entra, do lado esquerdo. A Casa da Selva está sempre cheia, sobretudo ao final do dia, aos Sábados e no Natal nem se fala. Magníficas broas espreitam pela pequena vitrina, abraçando chás e cafés vindos de toda a parte do mundo. Tudo aqui é bom. E como a loja esta sempre cheia vamo-nos aconchegado dentro do pequeno espaço e pensando que íamos ali comprar um kilo de bolinhos secos mas que afinal vamos levar mais duas variedades diferentes de chocolates e mais um tipo de chá que vai mesmo bem com aqueles bolinhos e que aquelas amêndoas parecem ser tão boas, porque não experimentá-las. Mas enquanto esperamos nem damos pelo passar do tempo, porque à direita há uma grande montra cheia de coisas para ver. E há também uma cadeirinha para quem não pode esperar de pé ou para quem gosta de ter tempo para conversar. Uma loja que nos faz voltar atrás no tempo, regresso aos sabores da infância, ao aconchego do inverno, com um atendimento exemplar dificil de encontrar nos dias que correm...

... e posto isto, so me resta esperar que a filha destes senhores, que, por vezes, também por ali viamos, nunca deixe aquelas deliciosas portas fecharem...

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