
Uma das coisas que me fez vir viver para este sítio foi o facto do meu prédio não ser demasiado alto. Apenas três andares e assim todos os vizinhos se conhecem. No início disseram-nos: "é como se fossemos todos uma família" e passados quatro anos constato que há alguma razão na afirmação que, na altura, me pareceu exagerada.
O rés-do-chão com um casal novo de um lado e do outro, uns avós onde, por vezes, os netos brincam no pátio. No 1º andar, o senhor que é taxista com a mulher e duas filhas (que entretanto já saíram de casa) e a vizinha de 90 anos que foi viver com o filho. No 2º andar vive a personagem mais caricata do prédio: uma senhora que já está muito surda, mas que é muito faladora e divertida. Quando nos vê assusta-se sempre, porque não nos ouve chegar e só já nos apanha mesmo ao pé dela: "Ai que susto!" e continua: "Assustei-a não foi?" (acha que ela própria nos assusta com o susto dela!).
Também no 2º andar, mesmo por baixo de nós, a Dona Lurdes vive com o marido que já não pode sair. Têm um relógio que dá as horas, as meias-horas e os quartos e confesso que me foi difícil habituar ao princípio. Embora não seja a administradora é a Dona Lurdes que toma conta das coisas mais práticas do prédio: a senhora das escadas, o limpa-chaminés, algumas da contas necessárias. Quando chego a casa ela está à janela e, por vezes, como vê que venho carregada com o bebé e com sacos, abre-me a porta lá em baixo. Outras vezes ouve-nos subir e espera à porta para ver o Manuel e perguntar se tudo vai bem. Diz sempre: "É muito bonito!". Um dia confessou-me que tinha engravidado por duas vezes, mas os bebés nunca chegaram a nascer. Ela e a senhora que ouve mal (também é Lurdes) são chegadas e têm grandes conversas (ou monólogos) no prédio. Sei que, de manhã, alguém deixa o pão à porta da Dona Lurdes e que o Sr. Alexandrino, da mercearia, lhe vem também trazer as compras. É uma vizinha simpática.
São todos vizinhos simpáticos!
Ontem, quando vinha a chegar do emprego a Dona Lurdes não estava à janela. Quando dei o primeiro passo para entrar no prédio vinham os senhores da funerária a descer com um corpo. Recuei, subi a rua uns metros e fiquei à porta do café. Pensei que tinha sido o marido que já estava doente, mas quando saíram reparei que o corpo era demasiado pequeno. "Tão pequenina, coitadinha!", comentou alguém. Perguntei ao sr. Nunes, do café, se tinha sido a Dona Lurdes. Ele disse que sim.
Durante a noite, fui imensas vezes à janela espreitar para baixo: às vezes via-a estender a roupa ou apanhar fresco. Hoje não havia pão à porta. O relógio já não bate.






