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23/07/10

Sapateiros, sapateiros, sapateiros...


Não há muito tempo atrás, existia aqui um sapateiro. Sempre achei muita graça aos sapateiros e sempre os vi como uma profissão para uma clientela menos consumista ou mais apegada às suas coisas. Acho-os preciosos e, olhando para estas portas fechadas, volto a constatar que é uma profissão em vias de extinção... assim como os engraxadores, que ainda não desapareceram por fazerem parte do charme da cidade ou dos hábitos de certas pessoas. Engraxadores em Benfica nunca vi, não sei se em tempos os houve, mas sapateiros há uns quantos. Há aquele em frente ao Jardim Zoologico (entrada da Estrada de Benfica) onde são muito simpáticos. Pela quantidades de sapatos nas prateleiras parecem ter clientela, apesar da montra já não ser o que era. Lembro-me de passar ali à frente e ver na vitrina uma série de malas, carteiras, porta moedas, chinelos em couro... depois, há aquele senhor no Bairro das Furnas e haverá certamente outros, como estes meio escondidos, por toda a freguesia. Alguns modernizaram-se e tornaram-se polivalentes, como o sapateiro do Fonte Nova. Este sapateiro era à moda antiga. Como em quase todas as lojas de sapateiros, tudo é em tons de preto e cinzento, cheira a graxa, as mãos que trabalham têm as unhas pretas, o avental sujo. Há sempre um radio a tocar e há bocadinhos dos mais variados materiais que acabarão, um dia, por ter uso. Não me lembro de ver aqui máquinas, mas certamente haveria alguma e o que era extremamente curioso é que não ainda há muito tempo atrás, este senhor, deixava as suas galinhas passearem alegremente aqui à porta.
Sabem onde ficava?

05/07/10

Historietas na Rua Montepio Geral...

Fim de semana de bicicleta. Encontro marcado de manhã cedo. A pista é no meio das arvores, junto ao rio, ha frescura por todo o lado. A ultima vez que andei de bicicleta foi em Sevilha, numa tarde de muito calor, em 2002. Ontem, antes de começarmos, fiz uma experiencia com a D. que me relembrou que para travar tinha que ser com os dois travões ao mesmo tempo e la fomos nos, eramos talvez umas 20 pessoas. eu vinha atras e quando olhava para as bicicletas a descerem por ali não consegui deixar de lembrar-me do video dos smiths.

Andar de bicicleta faz parte das minhas nitidas recordações de infância. Ainda me lembro dos meus pais me terem oferecido uma bicicleta vermelha da IBA. Tinha um assento comprido, com encosto, e o voltante em forma de asas. Aos Domingos eles desciam comigo à rua para me ensinarem. Eu em cima da bicicleta a pedalar enquanto o meu pai ou a minha mãe agarravam na parte de tras do assento para eu manter o equilibrio. Depois eu entusiasmava-me com o pedalar, eles corriam e quando ja não podiam acompanhar-me largavam-me e la ia eu, cabelos ao vento. De repente deixava de ouvir as vozes deles, olhava para tras, via-os a acenar e percebendo que ja estava a andar sozinha caia... não sei se por falta de equilibrio se por me aperceber que não havia ninguém a agarrar-me. Joelhos e cotovelos esfolados, duas lagrimas a correrem pela cara, mas não podiamos desistir. Mais umas quantas tentativas até que pedalar em equilibrio tornava-se natural...

Os meus pais chegavam a casa mais cansados do que eu por correrem pela Rua Montepio Geral acima e abaixo e ao jantar riamos a pensar no dia... e ontem, equanto pedalava, no meio da floresta, lembrei-me destas tardes, na rua deserta e silenciosa e de ouvir os meus pais gritarem "não pares, continua, continua"...

14/04/10

A Casa da Selva II


É, sem duvida, uma das minhas lojas preferidas em S. Domingos de Benfica. Em vias de extinção as lojas de café são cada vez menos numerosas pela cidade, por isso, considero a Casa da Selva uma relíquia. Esta magnifica loja, tem por proprietários um casal muito simpático. Nunca soube o nome deles, mas lembro-me muito bem de que o senhor da loja quando se dirigia aos clientes para os atender começava sempre por dizer “tenha a bondade”. Aqui lembro-me de comprar sobretudo bolinhos secos, vendidos ao kilo acondicionados dentro de grandes sacos de plástico transparentes e expostos em cima do balcão, quem entra, do lado esquerdo. A Casa da Selva está sempre cheia, sobretudo ao final do dia, aos Sábados e no Natal nem se fala. Magníficas broas espreitam pela pequena vitrina, abraçando chás e cafés vindos de toda a parte do mundo. Tudo aqui é bom. E como a loja esta sempre cheia vamo-nos aconchegado dentro do pequeno espaço e pensando que íamos ali comprar um kilo de bolinhos secos mas que afinal vamos levar mais duas variedades diferentes de chocolates e mais um tipo de chá que vai mesmo bem com aqueles bolinhos e que aquelas amêndoas parecem ser tão boas, porque não experimentá-las. Mas enquanto esperamos nem damos pelo passar do tempo, porque à direita há uma grande montra cheia de coisas para ver. E há também uma cadeirinha para quem não pode esperar de pé ou para quem gosta de ter tempo para conversar. Uma loja que nos faz voltar atrás no tempo, regresso aos sabores da infância, ao aconchego do inverno, com um atendimento exemplar dificil de encontrar nos dias que correm...

... e posto isto, so me resta esperar que a filha destes senhores, que, por vezes, também por ali viamos, nunca deixe aquelas deliciosas portas fecharem...

Mais histórias e fotografias da Casa da Selva pela Marta G. aqui

24/03/10

A Papelaria do "Celeiro"



(ou sera que tinha nome proprio?)

Aqui esta ela, a fotografia da desaparecida papelaria que ficava mesmo ao lado do Celeiro. É pena que tenha sido apanhada nesta perspectiva porque só apercebemos alguém a dar uma vista de olhos nas revistas... a senhora que durante anos lá trabalhou também ficou na foto... não podia ser de outra forma... é a senhora que durante anos espreitou por détras daquela janelinha minuscula que nos fazia pensar que so ela cabia la dentro...

Uns compraram aqui os primeiro maços de cigarros... eu, aqui, lembro-me de comprar carteirinhas de cromos...

e assim sendo, agora quem quiser comprar “artigos de tabacaria” terá que ir até à Cave ou até ao quiosque que fica em frente à Pizza Hut... se ainda existirem, um e outro...

21/03/10

Histórias de traseiras das nossas casas...


Para mim, as traseiras dos prédios sempre tiveram algo de misterioso e muitas vezes pensei que certas pessoas podiam ver através das suas janelas coisas que quem passa de fora nunca poderá saber. Estas são as traseiras da minha casa. Não se pode dizer que tenham grande vista, apesar da frestas do lado esquerdo deixarem ver um bocadinho do pulmão de Lisboa.

Sempre pensei que gostava de subir aos prédios que ficam ao lado de
uma das casas mais antigas de S. Domingos de Benfica, para saber como era a casa e o jardim visto de cima ou por trás. A história das minhas traseiras já a contei. Mas hoje, ao olhar para esta fotografia voltei a lembrar-me do que se dizia. Muitas vezes, quando era pequena, ficava intrigada a olhar para aquilo que em tempos, naquele quintal de baixo, tinha sido uma casa, destruída segundo contam por um incêndio... o poço, que ainda ali estava, deixava-me perplexa e na minha cabeça surgiam mil e uma histórias. Até hoje não sei se é verdade o que se conta ou o que se contou, que ali vivia uma família e que houve um incêndio, a casa ficou completamente queimada e morreu uma criança. As ervas foram crescendo, o quintal quase se transformou num matagal. E um dia, aquele bocado de terreno transformou-se numa espécie de parque de estacionamento de carros velhos, depois numa espécie de armazém para carros novos. Puseram lá dois cães que ladravam muito e assim ficou até hoje… quando pensamos que aqui há muitos anos atrás houvesse quem cultivasse legumes nestas terras….

Esta é a história do lado esquerdo das traseiras, a do lado direito é igualmente misteriosa, mas pelas melhores razões… trata-se das traseiras da única casa antiga que resta na Rua Montepio Geral, já contada
aqui)

E com esta curiosidade sobre aquilo que se pode ver através das janelas de trás desafio quem quiser a tirar uma foto das suas traseiras e/ou contar a sua história…

16/03/10

A Conchita…


Há duas conchitas na minha vida, uma que compreende uma das maiores vergonhas da minha infância e a Conchita dos bons tempos da adolescência...

Tenho poucas recordações de quando era pequena, mas nunca me esquecerei daquele dia em que os meus pais foram beber um café à Conchita e me levaram com eles. Estavamos sentados numa mesa perto da janela e, terminado o café, eles levataram-se e foram pagar ao balcão. Eu continuei sentada no meu lugar, sonhadora, possivelmente a olhar para os comboios. De um lado para o outro corria uma miuda pequena, do balcão para a parede e da parede para o balcão fazendo muito barulho com as sandálias de borracha quando tocavam o chão. Não sei o que me terá aborrecido mais, mas levantei-me devagarinho, fiquei de pé junto à mesa e no momento em que ela passou a correr ao meu lado, estiquei o pé, ela tropeçou e caiu. Um berreiro que fez voltar todas as caras e vi a minha mãe tornar-se escarlate. E no meio da conchita, à frente de toda a gente, levei uma palmada no rabo que me ficou registada na memória até hoje.

Não sei se terá sido por isso que durante muito tempo deixei de ir à conchita e um dia, resolvi confrontar-me com os meus fantasmas. A Conchita tem uma esplanada mesmo à beira da estrada, onde a circulação é acelarada e onde todo o dia se ouve o barulho dos comboios... sempre tive a sensação de haver imensas coisas a acontecerem à volta, mas podermos continuar a ser anónimos. E um dia a Conchita mudou de proprietários, mudaram as cadeiras e as mesas, começaram a vender pão, faziam tostas mistas, em pão caseiro, deliciosas, e os bons bocados eram feitos com uma massa estupenda. Eu gostava de ir para ali estudar de manhã, sem saber muito bem porquê, conseguia concentrar-me bem. Assim, as manhãs eram dedicadas ao estudo e as tardes aos encontros com os amigos, na esplanada, ponto de encontro de vários grupos da zona...

A memória da miuda pequena que esticou o pé desapareceu e ficou o cheiro fresco do pão, a pastelaria quente pela manhã os fins de tarde mornos, a luz que entrava pelas janelas, a esplanada e os amigos... e, claro, o barulho dos comboios...

12/03/10

Memórias da Rua Inácio de Sousa


Parece que há por aqui muitos revivalistas e eu sou uma delas. Tantas coisas para contar sobre esta rua, mas uma história só, nunca seria suficiente. O que esta rua me faz imediatamente lembrar é a Samira, claro, o meu ponto de referência na Inácio de Sousa. Muitas tardes de Verão e fins-de-semana em... casa dela, tardes de férias (quando ainda duravam três meses) de gelados, chocolates, pastilhas e coca-colas no Sr. Ferreira tudo por conta do avô dela (ou na conta do avô dela) que um dia descobriu e se zangou “a sério”... a sério a sério não, porque era um senhor demasiado simpático para se zangar muito... e por isso, as compras continuaram, em menor quantidade e mais discretamente... tempos depois soubemos que vinha uma prima da Samira, e vimos chegar a Hélia, direitinha de Cabo Verde. A Hélia chegou e foi como se estivesse sempre estado ali. Passavamos os dias a passear na rua para cá e para lá, íamos encontrando a vizinhança, adoptamos a entrada de uma porta e encontramos ali uma espécie de assento para as nossas tardes. O lugar que escolhemos era estratégico para cruzarmos certas pessoas, como o rapaz que trabalhava na loja dos móveis. Não muito longe dali passava muita gente doida, a “maluca” dos óculos escuros (que quando houve o incêndio do Pastelinho, foi à CEBE pedir dinheiro para ajudar), o “Ramalho” com o seu carrinho de cartões, que por vezes falava sozinho outras vezes falavas com as árvores, mas falava muito alto e se estava num dia mau, insultava as pessoas na rua. O rapaz de cabelos compridos e do pacote de vinho na mão, Estrada de Benfica acima e abaixo. Quando eram horas de voltar para casa fechavamo-nos no quarto da Samira com a janelinha lá em cima, a conversar e ouvir música, e quando a casa estava mais vazia experimentavamos a roupa da Vanda, na salinha pequena, ao lado da sala de jantar e tiravamos fotografias... e nos últimos anos, a varanda tornou-se o nosso lugar preferido... já não me lembro exactamente em que momento é que isso aconteceu e como ficamos a saber. Talvez um dia tenhamos ido à janela e tenhamos tido uma espécie de miragem. Do outro lado da rua, três simpaticos rapazes (é o menos que se pode dizer) vindos de Sines para estudar em Lisboa, foram ocupar um apartamento mesmo em frente à janela onde passavamos muitas tardes e foi nesse dia que as contas do Sr. Ferreira começaram certamente a ser mais moderadas, porque o nosso lugar preferido era então a dita varanda azul. Passamos mesmo muito tempo a olhar para o outro lado, a observar os dias daqueles rapazes, penso que não tinham cortinados. Um dia um deles veio fumar à janela e, a partir desse dia, deixaram de ser uma vizinhança platónica...

06/03/10

Jardim de Inverno

Foi um dia antes de irmos embora... há sempre a sensação de que muitas coisas ficaram por fazer… mas vamos vivendo o momento, e quando o dia D chega, levamos a mão à testa e pensamos em tudo o que não fizemos.

Acordei, tomei banho e fui por ali fora… os passos levaram-me para os lados da praça. Mas já era tarde e havia pouca gente… o mercado estava vazio e as bancas desfalcadas, por causa da hora tardia. De maneira que pedi para tirar meia dúzia de fotografias, muito mal conseguidas, e sai à procura de algo que me enchesse a memoria antes de regressar a França… fui por ali, a olhar para todos os lados e a clicar em tudo o que detivesse o meu olhar mais de 3 segundos…












... a poucos metros dali, lembrei-me que podia fazer corta mato para voltar à estrada de Benfica… e, por momentos, tive a impressão de que entrava noutro mundo… ao inicio pensei “um jardim de Inverno” mas rapidamente mudei de ideias, tudo se tornou confuso, havia ali poesia e solidão… como se tudo estivesse desarrumado numa casa bonita…









clic, clic... clic clic… mas quem fez isto? Quem vem aqui? Volto atrás e tento encontrar respostas numa pessoa que me parece viver ali há muito tempo… “vêm para ai à noite, fazem barulho, há quem se queixe”… fico a pensar se será “o pessoal da praça”, termo usado para as pessoas que moravam mais para o lado do mercado e que passavam as tardes na esplanada do “Arabesco” e as noites no “Home” …








a verdade é que estava tudo muito bem distribuído, via-se alguma “arrumação” no meio da desarrumação... uma vassoura... um espelho... em todo o caso parecem pessoas com sede e que de vez em quando para aconchegarem o estômago, usam o micro ondas…













foi uma mistura de sensações, este lugar… um jardim comunitário e … humanitário, foi o que me pareceu...











03/03/10

Fotografia para a Helena

Eu ía poucas vezes à Pastelaria Colmeia... se passava por lá era com os meus pais, ou era porque o Arabesco estava cheio ou fechado... num comentário mais abaixo deixado pela Helena, realmente lembrei-me de uma espécie de mezzanine, em tempos, mas a verdade é que já há muito que não lá entro... Quem conhece a história da Colmeia? Tem especialidade?

02/03/10

A Tendinha - Churrasqueira


Para mim é A loja dos frangos de São Domingos de Benfica... quantas tardes depois de um dia de praia ou de piscina viemos aqui comprar um frango e batatas fritas Pála-Pála... cheira a calor... vamos pela sombra da Estrada de Benfica, a uma hora de almoço tardia, vamos na correnteza do comercio tradicional... o Sr. Ferreira, a retrosaria, a loja das malas, a perfumaria da Ju e do Nandim, a loja das loiças que chegou a ser uma ervanária, a drogaria, a Ourivesaria Onix, a Casa da Selva, a farmácia e pouco mais à frente... viramos à direita, passando pelo mercado e pelos dois largos com uma sombrinha agradável também. Se era nos fins de tarde de calor do Verão seguíamos pela Conde Almoster... chegavamos à porta e ja havia fila... mas aquele frango merecia a espera. O Sr. que la esta é o mesmo de sempre, uma simpatia e tinhamos sempre direito às perguntas “com ou sem molho picante? corto em quantas partes?”. Do lado direito do balcão as Pála-Pála em self service e atrás as bebidas. De regresso a casa, agora com o passo mais apressado, é o cheiro do petisco que pede... já imaginamos as mãos com a gordura do molho, porque isto de comer frango assado tem que ser à mão... uma bebida fresca e muitos guardanapos... e no cansaço bom do dia e de barriga cheia acabamos a noite a jogar jogos de sociedade...

01/03/10

A Fangela ou o Sr. Jaime



Foi num dia de Novembro, já no fim das férias. Na véspera tinha ido jantar a casa de uns amigos e conversa puxa conversa fiquei de passar uma entrevista do Lobo Antunes que tinha saído no Y ao Nuno. Como eu tinha gostado imenso de lê-la e queria guarda-la para mim, resolvi ir ao Sr. Jaime tirar uma fotocópia.

Quando cheguei à porta da papelaria achei estranho não ver o nome Fangela inscrito na placa. Entrei. Antes de parar em frente à máquina das fotocópias dei a volta à loja… há sempre tantas coisas para ver nas papelarias… entre os vários modelos de canetas e os cadernos, já se perde uma boa meia hora. Estranhamente achei tudo muito mais vazio. Subi à parte da livraria e achei-a pobrezinha… mas o que na verdade me chamou a atenção foi a ausência de caras conhecidas. Lembro-me bem do Sr. Jaime e de uma senhora na parte da papelaria, lembro-me da pessoa que estava mais vezes nas revistas e fotocopias e da senhora da livraria, claro, onde tantas vezes encomendei os meus livros escolares.

Eles eram todos uma simpatia, sobretudo as senhoras… não me lembro como se chamavam embora me lembre do Sr. Jaime trata-las pelos nomes. Era um serviço personalizado, com direito a explicação e conselhos…

Bem, depois desta enxurrada de memórias e de comparações com tempos antigos, lembrei-me que esta ali para a famosa fotocopia. Aproximei-me do aparelho e veio um rapaz que me perguntou o que desejava. Expliquei-lhe e ficou um bocadinho incomodado com o serviço e com o tamanho das páginas do Y. Um suspiro e um sorrisinho ao canto da boca e diz-me… “saía-lhe mais barato comprar o jornal”. Respondi-lhe que sabia mas que era um numero antigo e logo a seguir perguntei-lhe se a papelaria não pertencia às mesmas pessoas de antes. Ele disse-me “não… que dizer… mais ou menos”… e despedi-me com um “foi o que me pareceu, obrigada”….

28/02/10

“O túnel” ou "A passagem"


Este lugar é de passagem (quase) obrigatória para quem vive na Rua Montepio Geral. Chamamos-lhe “O túnel”. Durante muito tempo esteve fechado, não sei o que havia lá dentro, talvez pertencesse à “oficina do Zé” e um dia decidiram abri-lo. A vizinhança correu para ver como era, uns seguiam por ali naturalmente, outros espreitavam a medo e seguiam pelo caminho do costume… mas logo o lado prático fez com que fizesse parte do nosso percurso diário. Ao inicio parecia um lugar sujo, mas alguns moradores foram pintando os prédios e os muros à volta e começou a ficar com melhor aspecto. Com o tempo fizeram uma rampa para as pessoas com mobilidade reduzida, vieram os pombos e o que parecia inicialmente uma espécie de pátio interior acabou por ser de todos.

Mas à noite as coisas podem tornam-se estranhas… é um sitio escuro e de recantos e, por isso, por vezes, vemos por ali grupos de pessoas menos agradáveis, aparecem com frequência coisas escritas na parede, cheira a mijo de quem passou por ali e encontrou um lugar discreto para se aliviar. outras vezes vêem-se por ali namorados muito colados…


E depois noutras ocasiões ainda é lugar propicio a outras coisas, como no Carnaval, por exemplo… há balões de agua que voam das janelas sem que tenhamos tempo de ver de onde vêm… no Outono as folhas do chão misturadas com a chuva colam-se aos sapatos…


Apesar de tudo (e alguns dirão que sou doida) há aqui um silencio especial aos fins de semana. Aos sábados cheia a roupa lavada e vemos uma parte da vida das pessoas estendida à janela…

e na primavera há um cheiro dos primeiros dias quentes, um cheiro forte das primeiras flores misturado com o ar morno….
Por isto tudo cheguei, por vezes, a achar este lugar quase agradável e cheguei a pensar que o podiam tornar ainda mais agradável se ali fizessem uma esplanada.

… mas acho que gosto deste lugar… sobretudo na primavera e no Outono ao fim da tarde, quando o dia começa a desaparecer...

23/02/10

Dois anos de Mercado de Bem-Fica

Mais um ano de estorias e imagens... viajando por Benfica, pelas ruas, pelo tempo...

Aos que viajam connosco, colaboradores e leitores deixamos duas plantas, uma fatia de bolo, porque boas patelarias em Benfica ja percebemos que não faltam... e um grande obrigado!

20/02/10

O Mimo de Benfica


Não é das melhores fotografias, mas tenho que falar deste café. O Mimo de Benfica é para nós mais conhecido pelo café da paragem. Chamamos-lhe assim porque fica exactamente ao lado da paragem do autocarro. Antigamente existia aqui uma mercearia. Era escura, fresca e cheirava muito a frutas.

Comecei a frequentar o café da paragem todas as manhãs quando ia trabalhar. Enquanto bebia uma italiana, de pé, observava a vida do café. O Sr. João estava sempre ao balcão, de aparência impecável e sempre muito bem educado. A esposa, cujo nome desconheço, devia preparar o almoço na cozinha e de vez em quando apercebiamo-la. Por vezes, às horas de almoço, quando havia sempre mais movimento, ou aos fins de semana o filho vinha também dar uma ajuda.

No Mimo de Benfica, está tudo muito limpo e bem arrumado. Ainda servem os pedidos às mesas e para além da parte de café com pequena pastelaria e restauração rápida há um cantinho de especialidades regionais. A montra que fica de frente para o jardim mostra sempre sacos com bolinhos secos, caixas com queijadas e por vezes encontramos as deliciosas tortas de azeitão.

Aos dias de semana a minha passagem por aqui era rápida. Uma italiana, um copo com água e um bom bocado (bolo que começa a ser dificil de encontrar) observando tudo isto sem deixar de olhar para o relógio mesmo em frente ao balcão. Aos fins-de-semana o café tornava-se mais silencioso. Eu vinha pela manhã e instalava-me nas mesas mesmo ao lado da janela... um olho no público outro no movimento dos sábados da Estrada de Benfica... os autocarros vazios, as senhoras muito bem penteadas que regressavam do cabeleireiro a poucos metros dali, alguém que passa com um saco de compras da loja “dos indianos”, muitos carrinhos de lona, com rodinhas a transbordar de comércio tradicional, alhos franceses frescos do mercado e raminhos de salsa a espreitarem pelos cantos... e, do outro lado da estrada, o movimento de quem vai à “A Cave” comprar o jornal...

10/02/10

Passeando de autocarro...


Lembro-me do tempo em que a carreira 72 apareceu. Na altura não se sabia muito bem qual era o seu destino. Parece-me que chegava ao início da Estrada de Benfica, virava logo à esquerda e ía pela Rua Conde Almoster fora. Como eu raramente ía para aqueles lados, a não ser, anos antes, quando passava as tardes em casa da minha amiga Maria João, não percebia bem a utilidade do percurso. O 72 tinha estação terminal (e inicial) ao pé do 16C, autocarr(ito) que esperavamos pacientemente depois de acabaram as aulas na D. Pedro V. O 16C era daqueles autocarros pequenos... os mais pequeninos de todos com muito poucos lugares. Como viviamos quase todos para o mesmo lado, a nossa turma ficava “ensardinhada” logo no inicio do percurso.

Na paragem do Jardim Zoologico saía a Maria João, na paragem a seguir a Lucinda e a Alexandra, no Arabesco o Nuno Tiago, na paragem do Jardim do campo de Basket saía eu, a Paula e a Cristina (que ia a pé até ao Bairro Grandela para almoçar em casa da avó). Depois o 16C virava no sinal à direita e ia por ali acima. Passava pela Delfim Santos e na paragem a seguir descia o Gonçalo. No Califa descia o Vitor que ficava ali e a Sónia apanhava outro autocarro até ao Cemitério de Benfica. O 16C continuava até ao Bairro de Santa Cruz e ai desciam o Zé, a Inês e a Rosa, que ainda ia a pé até ao Bairro das Pedralvas.

Entretanto, deram sumiço ao 16C e para nossa grande indignação o 72 continuou a “rolar”. Hoje, vejo pela fotografia, o 72 transformou-se no 70 que se tornou um autocarro de “grande gabarito”, talvez devido à importância do percurso e afluência... e a carreira até aparece assinalada no guia de viagem francês “le guide du routard”, onde o Palácio Fronteira é visita vivamente recomendada.

Esta fotografia, de autoria de Pedro Almeida, é emprestada ao blog Diario do Tripulante (sem pedido, mas com a devida menção de autoria- se o autor não estiver de acordo, retira-la-ei) onde ha um simpático texto sobre a carreira 70 que liga a Serafina, o Monsanto e Sete Rios.

Ler aqui !

24/01/10

são domingos de cafés (4)


A Balalaika é um dos "meus" cafés de Domingo. E pequeno e familiar, por vezes da a sensação de estarmos em casa das pessoas que la trabalham. Nos dias de Verão, a esplanada esta cheia. Tem a vantagem de estar à sombra no pico do calor e, apesar de ficar à beira da Estrada de Benfica, (talvez uma das mais barulhentas de Lisboa), distrai as vistas porque vai sempre passando alguém conhecido que conta as novidades ou se vai juntando à volta da mesa. Atras das vitrines, os bolos chamam por nos, parecem sempre frescos e têm um aspecto delicioso... o sabor não fica atras... é o caso da piramide de chocolate com uma cereja cristalizada no topo que la comi recentemente. Uma delicia, e um sabor cheio de recordações... digam o que disserem sobre estas piramides e os restos de bolos do dia anterior. Deixamos o interior para os dias de chuva onde os casais idosos vêm beber o cha. La dentro é apertado, as mesas são pequenas, mas a vitrine/janela deixa ver a Estrada e enquanto conversamos olhamos la para fora...

Esta fotografia foi tirada por acaso, e apanhou uma das personagens e Benfica, "o poeta". Não sei se era "o poeta" para o nosso grupo de amigos ou se ele era assim conhecido no bairro. Frequentavamos muitas vezes os mesmos cafés e fico contente por tê-lo apahado na fotografia, neste dia que passei em frente à Balalaika. Anos depois, ha coisas que continum na mesma, pessoas que continuam nos mesmos sitios, sentadas nas mesmas esplanadas...

09/01/10

São Domingos de Benfica às cores...

A freguesia de São Domingos de Benfica esta a envelhecer, é certo. Cada vez mais se vêem prédios velhos, sujos, sem vida, com placas de agências imobiliárias desde o ano anterior onde se lêem as palavras “vende-se” ou “aluga-se”. Os comércios de rua vão fechando, sobrevivem os cafés... afinal somos um povo de café... mas algumas pessoas parecem querer dar alguma cor ao bairro e foi com surpresa que no verão passado vi prédios pintados de fresco, nas mais variadas cores... pela Estrada de Benfica, no quarteirão do Mercado de São Domingos de Benfica... um arco iris duradouro!