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06/03/09

Memórias da Rua Dr. João Couto (3)



A entrada nos anos 90 marcam o declínio da rua enquanto espaço de partilha, palco da juventude. O Fonte Nova, a escola de condução ao lado e o Metro trouxeram carros e a rua lentamente passou a ser para todos. A desintegração dos grupos, os amigos de fora e as idas para a universidade onde muitos acabaram por partir para outros voos, o futebol acabou, as redes foram desmontadas e o campo foi reconvertido num jardim com fonte. As poucas crianças que nasciam já não iam brincar para a rua.
As bicicletas foram substituídas pelos nossos carros e neste momento, esta rua nada é mais que um gigantesco parque de estacionamento sem o mínimo de interesse. É uma rua seca, atulhada, banal.

E hoje estive lá a ler paredes riscadas e a tirar fotos. Encontrei o Artur, o último sobrevivente e o puto Xaxa, que vai ser pai. Lembrámos algumas das histórias. Rimos.
E quando pensei que aquela rua não passava agora de um cemitério de memórias, afinal e no puro acaso, pode funcionar como um ponto de encontro improvável.
Hei-de lá voltar, a ver quem encontro dessa vez.

Fim

Texto e fotografias de Rui Kalda

03/03/09

Memórias da Rua Dr. João Couto (2)

Anos 80. A rua ainda não atropelada de carros, dava espaço para todo o tipo de jogos e convivios. Podia dizer que era a nossa rua: mas melhor, a rua era NOSSA.
Inventámos um grito que ainda hoje alguns trocam como cumprimento e que na altura servia para nos anunciarmos. Em vez de tocarmos às campainhas e gritar pelos nomes uns dos outros para descer à rua para a tomarmos de brincadeiras, ouvia-se “Óóóóóótxxóóóí”. Era uma espécie de grito de alarme. “Jopu....óóótxóóóói”.



Quando não havia adversário, jogávamos uns contra os outros. E há um desses dias que para mim foi memorável. A mim como capitão de uma equipa coube-me a missão de escolher a minha equipa. Armado em defensor dos fracos e oprimidos escolhi, uma rapariga e os jogadores mais toscos, os putos e os habitualmente rejeitados. Era o nosso David contra Golias que até ao meio tempo levava a melhor por 1-0. A equipa estava a jogar tão bem que as pessoas que passavam começaram a apoiar-nos, especialmente as mães dos habituais enjeitados e numa janela que dava para o campo os irmãos gordinhos Gustavo e Gonçalo tatuaram o meu nome por baixo do parapeito enquanto gritavam o meu nome. Foi um dia à Viriato para mim, e nem os golos dos “bons...da bola” a repôr a “verdade do jogo“ me incomodou. Não sei até que ponto aquele dia moldou o meu carácter - o gozo na defesa dos indefesos. Esquecido o efémero episódio, durante duas décadas o meu nome debaixo da janela marcou aquele dia. Voltei lá há 4 meses para visitar a minha mãe: limparam o prédio e da arqueologia daquele dia só resta a memória. Falei em rapariga? A Rita. Loura e gira, um pouco maria-rapaz, desgraçou-me. Um dia gritou no campo: quem é do Sporting joga na minha equipa! Eu que na altura era do Liverpool FC, lá tive que mudar para os verdes, até hoje. Mas a Rita era um cometa centenário, porque a rua era dos rapazes que nos dias jogavam à apanhada, ao rei manda, às escondidas, ao “Alho”, à batatinha frita, ao guelas, à carica, ao cagalhão, ao pontapé no rabo*. A noite era guardada para os polícias e ladrões (um toque e era-se apanhado e levado para o “coito” onde homem-livre que lá entrasse salvava os reclusos) e indios e cowboys (“morria-se” com tiros à queima roupa). Os prédios castanhos e azuis perto da Lusa foram o palco destas aventuras.

Na adolescência, as arcadas dos prédios castanhos serviam como base às noites de conversa. Depois do jantar lá íamos nós pras arcadas. Raparigas? Acho que ninguém queria saber. Se alguma aparecia, logo boicotávamos de alguma forma de forma a manter a unidade masculina. Só existiam no mundo escolar e como temática garganeiras nas nossas conversas da rua.
As nossas casas eram autênticas portas giratórias de garotagem com a campainha sempre a tocar. Eu em casa do Timacói a jogarmos Spectrum, depois eu e o Ci em casa do Zegas onde formámos os “Apocalípticos & Integrados”, uma banda ainda por vingar com temas fracturantes como Tio Manel das barbatanas, Susana, Velha moralista ou Poema anárquico. Foi na JC que se formou a efémera Alegre Confraria, associação cultural e artística...que deve ter durado uma semana. Foi na JC que se fez o primeiro sistema de Tv Cabo em Portugal. Eu vivia por cima do João Filipe (Pipi) e uma noite ligámos pelo exterior os nossos videos. Por isso eu via o que ele via no video e vice-versa. Foi assim que vi o Mask com a Cher e o Killing Fields com musica do Mike Oldfield.

Foi na JC que aprendi a andar de bicicleta, foi a descer a calçada do 6 que tive a minha primeira explosão de alegria quando o meu pai me comprou uma bicicleta por 50 escudos. Foi na JC que se comemmorava o Sto António saltando fogueiras, que apanhei a minha primeira bebedeira com Pisang Ambon e onde a minha mãe teve que me ir buscar porque andava a envagelizar as pessoas da rua com uma biblia, onde comecei a namorar, onde....bem. Nem tudo o que se faz na João Couto é para contar, não é?

*O alho jogava-se com uma “mãe” encostada à parede com as mãos no ventre em concha aparando a cabeça de um elemento agachado como nas formações do rugby, só que em fila com 3-4 elementos de pescoços engachados nas virilhas do da frente e que formavam uma espécie de coluna vertebral humana. Quando a formação estava feita, cada elemento da outra equipa gritava: “Alho um!” e saltava para cima desta coluna, depois “Alho dois!” e assim por diante, com a regra de não poder tocar com os pés nas pernas dos enfileirados. A “mãe” encarregava-se de vigiar. Quando todos os alhos estavam montados em cima da coluna, esta mexia-se de forma a derrubar os alhos.

*O cagalhão era jogado em terreno aberto com pedras da calçada. O objectivo era atingir a pedra do outro. Podia-se jogar mais 2 vezes e na última vez bater com a pedra na pedra do outro para criar o máximo de distância. O perdedor tinha que percorrer a distância entre as duas pedras com o outro montado às cavalitas.

*Na batatinha frita, um corredor humano tinha que ser percorrido por alguém que procurava ver se não levava caldussos no cachaço. Regras: os do corredor não podiam mostrar os dentes ou verem os seus movimentos detectados, sob o risco de perderem e terem que percorrer o corredor.
*Pontapé era isso mesmo. Rapazes com o rabo encostado às paredes tentando pontapear os rabos uns dos outros.
continua...
Texto e fotografias de Rui Kalda

01/03/09

Memórias da Rua Dr. João Couto (1)


Desde que me lembro de mim, lembro-me da Rua Dr. João Couto (JC) e pouco mais, talvez as ruas limítrofes que me serviam de fronteira. Ir a Carnide era como ir às Canárias: remota, com pessoas estranhas, pouco familiar. Nas fronteiras da minha rua jazia tudo o necessário para se sobreviver: Externato Si-lá-Sol que já não existe na Reinaldo dos Santos, depois o Magistério Público onde hoje está a Escola Superior de Educação, a Pedro de Santarém agora C+S e a escola Secundária de Benfica, actual José Gomes Ferreira. Mercearias, o café Talismã, talho, carrinha ambulante do peixe, amoladores, mais tarde o Fonte Nova. Não precisávamos do mundo de fora. Tinhamos tudo naquele micro-cosmos.


Uma rua com personagens: a Tia Ató, a Velha da escarreta, o Corates, a Estrelicadinha, o Dell’Velhote, a Espalhanço, o Nhôco, os ciganos que viviam onde hoje é o metro do Colégio Militar e que nos atormentavam, o Aparício (era um tipo que estava sempre a aparecer), a cadela Lassie, sempre grávida, bem.....e nós, claro. Porque a história da JC é também a história dos miudos que nela habitavam. Construída nos finais dos anos 60 e habitada por jovens casais com vontade de procriar, pois só no meu prédio éramos 4 da safra de 1970, do prédio da frente mais 2, o resto era 1969, 1971, 1972. Consequência: acabávamos por calhar nas turmas uns dos outros da Secundária.
Mas esta rua, que na realidade também era uma praceta e onde à volta do prédio 4 se podia jogar à carica no lancil do passeio. Hoje em dia os lancis estão soterrados pelos carros estacionados.

Vizinhos do Eusébio (que morava na praceta rival com quem jogávamos futebol aos domingos de manhã), do Daniel Sampaio, cá morava o Toni do Benfica, a Mónica Marques que agora lançou “Transa Atlântica” o Miguel Viterbo que fundou as Produções Fictícias com o Nuno Artur Silva e o professor Calisto de Melo hoje insigne advogado e que na altura se dedicava à causa do desporto amador. Com apoio da junta, criou um parque infantil que ainda resiste à porta do 4, e um campo de futebol/basquete que os futeboleiros tomaram por um só.













Foi lá fundado o oficioso Grupo Desportivo de Benfica: eu, o Zegas, Jopu, , Bolinhas, Ci, Puto Estúpido, Gargaté, Jorginho, João Filipe, Nuno Anselmo, Vasquinho, Pitó, Joãozinho, Xaxa, Miguel Teixeira, contra a praceta do Tozé. E ganhávamos sempre.

Continua...

Texto e fotografias de Rui Kalda