13/06/14
Os putos da minha rua
14/12/11
A Rua do Montepio Geral e os anos 80

Ontem em conversa com uma amiga lá da rua a propósito da relação entre uma caneta bic e uma cassete vieram-me à ideia uma catrefada de recordações. Ora, não sei vocês, mas para mim, aquela imagem de rebobinar as cassetes com as canetas bic é tremenda. Tardes inteiras a querer ouvir as mesmas músicas e o rebobinador a não funcionar e nós ali de caneta enfiada a andar para trás com a fita... santa paciência! E como lembrou ela, muito bem, a desencravar a fita que por vezes se enrolava na cabeça do leitor e ficava em acordeão e lá se ía a música. Lembro-me disto na Rua Montepio Geral, em tardes tórridas do mês de agosto. Nessa época em que as férias demoravam 3 meses, em que nos deliciavamos com os gelados de água e corantes da Olá no Pastelinho, em que o “dedo” custava doze e quinhentos. Era o tempo em que lá na rua todos os miúdos tinham alcunhas, era o kikas, o galinhas, o gordo, o caixa d’óculos, o puto estupido e tantas outras que já não me lembro.
05/07/10
Historietas na Rua Montepio Geral...

Andar de bicicleta faz parte das minhas nitidas recordações de infância. Ainda me lembro dos meus pais me terem oferecido uma bicicleta vermelha da IBA. Tinha um assento comprido, com encosto, e o voltante em forma de asas. Aos Domingos eles desciam comigo à rua para me ensinarem. Eu em cima da bicicleta a pedalar enquanto o meu pai ou a minha mãe agarravam na parte de tras do assento para eu manter o equilibrio. Depois eu entusiasmava-me com o pedalar, eles corriam e quando ja não podiam acompanhar-me largavam-me e la ia eu, cabelos ao vento. De repente deixava de ouvir as vozes deles, olhava para tras, via-os a acenar e percebendo que ja estava a andar sozinha caia... não sei se por falta de equilibrio se por me aperceber que não havia ninguém a agarrar-me. Joelhos e cotovelos esfolados, duas lagrimas a correrem pela cara, mas não podiamos desistir. Mais umas quantas tentativas até que pedalar em equilibrio tornava-se natural...
Os meus pais chegavam a casa mais cansados do que eu por correrem pela Rua Montepio Geral acima e abaixo e ao jantar riamos a pensar no dia... e ontem, equanto pedalava, no meio da floresta, lembrei-me destas tardes, na rua deserta e silenciosa e de ouvir os meus pais gritarem "não pares, continua, continua"...
13/06/10
That's when good neighbours become gooood friends...
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Os miúdos mais crescido lá da rua também andavam a pedir, eles com mais credibilidade do que nós, pois o pedido deles era para a organização da festa da rua e nós, os putos, acabávamos por ser mais ou menos uma pedra no sapato, pois se nos davam a nós, não iam depois dar-lhes a eles. A festa tinha lugar um bocadinho antes de chegar à Dona Helena, mesmo ao lado da janela da Dona Fernanda. Aí faziam uma espécie de um bar e do outro lado havia um assador. Lembro-me de o meu irmão e eu termos ido a essas festas umas duas ou três vezes… e depois acabaram. Anos sem Santo António na Montepio…
Os anos passaram… muitos anos… e aqueles que anos antes eram “os putos” tomaram conta da rua e continuam a perpetuar a festa… fazem isto cheios de boa vontade, gostam de agradar os vizinhos, do espírito da vizinhança… a rua é deles… os preparativos começam a desenhar-se uns dois dias antes. A vizinhança atenta começa a estacionar os carros em lugares estratégicos que depois se tornarão no espaço da festa. Muita gente participa, os comerciantes contribuem e nesses dias há muitos braços que preparam a noite. Há música improvisada, o caldo verde feito pela mãe do B. um bolo feito por outra vizinha, a sangria feita por um vizinho. Um empresta isto outro empresta aquilo e a coisa vai-se compondo. As raparigas cortam os papelinhos para enfeitarem a rua, outros trazem manjericos para simbolizar o dia e as pessoas vão chegando.
… pela noite dentro… a festa vai animada e penso no Valete e no Boli (coisas também do tempo em que toda a gente da rua tinha uma alcunha) que têm o coração na mão e nunca se esquecem da festa de Santo António na Montepio Geral… e apetece-me cantar
Neighbours, everybody needs good Neighbours
Just a friendly wave each morning, helps to make a better day
Neighbours, need to get to know each other
Next door is only a footstep away
Neighbours, everybody needs good Neighbours
With a little understanding, you can find the perfect blend
Neighbours, should be there for one another
That's when good Neighbours become good friends
Para ouvirem a musica cliquem aqui!
21/03/10
Histórias de traseiras das nossas casas...

Sempre pensei que gostava de subir aos prédios que ficam ao lado de uma das casas mais antigas de S. Domingos de Benfica, para saber como era a casa e o jardim visto de cima ou por trás. A história das minhas traseiras já a contei. Mas hoje, ao olhar para esta fotografia voltei a lembrar-me do que se dizia. Muitas vezes, quando era pequena, ficava intrigada a olhar para aquilo que em tempos, naquele quintal de baixo, tinha sido uma casa, destruída segundo contam por um incêndio... o poço, que ainda ali estava, deixava-me perplexa e na minha cabeça surgiam mil e uma histórias. Até hoje não sei se é verdade o que se conta ou o que se contou, que ali vivia uma família e que houve um incêndio, a casa ficou completamente queimada e morreu uma criança. As ervas foram crescendo, o quintal quase se transformou num matagal. E um dia, aquele bocado de terreno transformou-se numa espécie de parque de estacionamento de carros velhos, depois numa espécie de armazém para carros novos. Puseram lá dois cães que ladravam muito e assim ficou até hoje… quando pensamos que aqui há muitos anos atrás houvesse quem cultivasse legumes nestas terras….
Esta é a história do lado esquerdo das traseiras, a do lado direito é igualmente misteriosa, mas pelas melhores razões… trata-se das traseiras da única casa antiga que resta na Rua Montepio Geral, já contada aqui)
E com esta curiosidade sobre aquilo que se pode ver através das janelas de trás desafio quem quiser a tirar uma foto das suas traseiras e/ou contar a sua história…
28/02/10
“O túnel” ou "A passagem"

Este lugar é de passagem (quase) obrigatória para quem vive na Rua Montepio Geral. Chamamos-lhe “O túnel”. Durante muito tempo esteve fechado, não sei o que havia lá dentro, talvez pertencesse à “oficina do Zé” e um dia decidiram abri-lo. A vizinhança correu para ver como era, uns seguiam por ali naturalmente, outros espreitavam a medo e seguiam pelo caminho do costume… mas logo o lado prático fez com que fizesse parte do nosso percurso diário. Ao inicio parecia um lugar sujo, mas alguns moradores foram pintando os prédios e os muros à volta e começou a ficar com melhor aspecto. Com o tempo fizeram uma rampa para as pessoas com mobilidade reduzida, vieram os pombos e o que parecia inicialmente uma espécie de pátio interior acabou por ser de todos.
Mas à noite as coisas podem tornam-se estranhas… é um sitio escuro e de recantos e, por isso, por vezes, vemos por ali grupos de pessoas menos agradáveis, aparecem com frequência coisas escritas na parede, cheira a mijo de quem passou por ali e encontrou um lugar discreto para se aliviar. outras vezes vêem-se por ali namorados muito colados…

E depois noutras ocasiões ainda é lugar propicio a outras coisas, como no Carnaval, por exemplo… há balões de agua que voam das janelas sem que tenhamos tempo de ver de onde vêm… no Outono as folhas do chão misturadas com a chuva colam-se aos sapatos…

Apesar de tudo (e alguns dirão que sou doida) há aqui um silencio especial aos fins de semana. Aos sábados cheia a roupa lavada e vemos uma parte da vida das pessoas estendida à janela…
e na primavera há um cheiro dos primeiros dias quentes, um cheiro forte das primeiras flores misturado com o ar morno….Por isto tudo cheguei, por vezes, a achar este lugar quase agradável e cheguei a pensar que o podiam tornar ainda mais agradável se ali fizessem uma esplanada.
… mas acho que gosto deste lugar… sobretudo na primavera e no Outono ao fim da tarde, quando o dia começa a desaparecer...
10/03/09
As traseiras da Rua Montepio Geral
Esta era a horta do « meu » porteiro… lembro-me que tinha galinhas e alguns legumes, parece-me… hoje é um matagal, não sei a quem pertence o espaço, mas é possivel que acabe como o que está ao lado, uma espécie de armazém de carros ora novos ora desfeitos. Mas voltando ao porteiro, lembro-me de o ver muitas vezes aqui… outras vezes tornava-se invisível, pois entrava naquela casinha, que conseguimos ver à esquerda e ali ficava uma grande parte do tempo a arranjar malas e sapatos. Era a sua profissão, sapateiro. Só regressava a casa ao som da voz da sua esposa, a Dona Maria José, que ía à varanda e gritava « Mendes ! Mendes ! Ō Mendes » e lá vinha ele. Ouviamo-lo subir as escadas, às vezes ía parando em cada porta do prédio para entregar os sapatos que os vizinhos pediam para concertar, outras vezes ouviamos apenas o barulho da porta a fechar (vivier num prédio é assim, conhecemos o som de todas as portas)
Estas hortas (ou quintas) eram, para mim, misteriosas… a que hoje serve de depósito de carros, em tempos tinha um poço e lembro-me de vê-lo ainda. Lembro-me de umas pedras sobrepostas, como se fossem vestígios de casas que ali existiram em tempos… reza a história que naquele terreno morreu queimada, não sei se uma familia, se uma criança e desde então nunca mais aquele espaço foi ocupado…
Mas para a verdadeira história ficamos à espera da entrevista do Rui ao senhor da hora !
18/02/09
Afinal de contas o que se vende aqui ?

15/07/08
A "mansão"...
... mas esta casa tem história. Quando eramos pequenos era para nós uma espécie de mansão. Embora raramente vissemos os seus habitantes, rezava a história que vivia lá um padre, mas que estava sempre ausente. Esta casa assinala também a divisão da rua, graças à sua localização quase central muitas pessoas dizem “eu moro deste lado da rua”. As pessoas que lá moram continuam a ser muito discretas... não sei se, na verdade, alguma vez terá lá vivido um padre ou se ainda viverá.
A casa foi arranjada, pintada e dizem que por trás tem um grande jardim, mas a minha máquina e perspectiva só conseguiram captar esta imagem...
05/07/08
Comércio tradicional
À semelhança do que diz a Alexa sobre a loja de brinquedos Bambi, embora com consequências diferentes na nossa infância, o encerramento desta padaria foi o fim de mais um episódio da minha infância. Quantas vezes lá fui, de manhã, a pedido da minha mãe, comprar carcaças, “mal cozidas, não te esqueças”, dizia-me ela… e lá ía eu, descia os 54 degraus das escadas do meu prédio (temos 4° andar mas sem direito a elevador) e lá ía eu à Dona Deolinda que dava nome à padaria. Gostava muito dela, porque tinha o nome da minha mãe. Depois da Dona Deolinda veio a Dona Inês, que falava pelos cotovelos. Ria-se por tudo e por nada e enquanto atendia os clientes falava com as senhoras que, não tendo nada para fazer durante a tarde, levavam uma cadeirinha e instalavam-se ao pé dela. Depois da Dona Inês deve ter havido, certamente, mais alguém mas eu, entretanto, deixei de lá ir. E como eu muitas pessoas o fizeram. E a padaria fechou, como diz o anuncio, no dia 8 de Outubro de 2007.

... e assim sem mais nem menos, enviaram-nos para aqui... embora seja um lugar estratégico, ao lado dos melhores caracóis de São Domingos de Benfica... mas a história desta padaria não faz parte da minha infâcia...
22/03/08

... à esquerda o n°13 (em grande plano), onde um dia, o casal que para lá foi morar, para o 1° andar, construiu a primeira marquise. mais ao fundo o n°17, onde havia uma rapariga que passava as noites quentes de verão a cantar na varanda das traseiras... nesta altura o n°15 ainda não estava construido... apenas conseguimos ver uma cerca ao abandono... foi para lá que fui morar há 32 anos...
26/02/08
O amolador...
Não posso dizer com toda a certeza, mas... estou quase certa que esta fotografia foi tirada numa tarde silenciosa de domingo... porque o amolador aparecia sempre em dias assim... perguntei-me muitas vezes se tocariam todos a mesma música... e lembro-me que quando ouviamos a gaita ao longe alguém dizia “ah!vem ai chuva”
Encontrei algumas respostas às minhas perguntas e outras curiosidades neste texto sobre o amolador. Gostei muito. Vale a pena ler.

