
Eu enquanto muito jovem fazia algumas incursões aos fins de semana na Rua da Furnas, a um local que eu considerava sagrado, um local em Benfica que me fazia entrar na máquina do tempo, sonhar e voar como se fosse em direcção à terra do nunca, a do Peter Pan, onde os meninos não queriam crescer, e qui-ça se eu também o quereria crescer? Era uma autêntica viagem à Alice do País das Maravilhas, eu não era o coelho, hoje sou, sempre cheio de pressa e a correr para todo o lado em busca de coisa de nenhuma...
Saía de casa, esperava ansiosamente o autocarro carreira nr.º 15, ainda com tradicional côr verde, e ali esperava no largo do rato, lá ia eu contente, com uma angústia saudável, ansioso de tocar na campainha daquela cave em Benfica, a abertura era só ás 15:00h, mas ás vezes ás 14:00 já lá eu estava de calções e meias até ao joelho.
Rua das Furnas fez parte do meu crescimento, soldadinhos de chumbo pintados com grande esmero e precisão cirúrgica pelas mãos delicadas de Alberto Cutileiro (Pai), restaurador quase residente do museu de Marinha, e do filho também. Castelos, veículos militares da I e II guerra mundial, barcos em balsa, comboios Märklin, Fleischmann, Rocco, automóveis antigos, Corgie Toys, maquetas á escala 1:76, milhares de soldadinhos da Airfix desfilando em parada, aviões, capacetes, espingardas, bandeiras do tempo das invasões napoleónicas, faziam todos os que ali se deslocavam e reuniam momentos de verdadeiro dia santo como de domingo se tratasse.
Eu entrava, e não queria sair mais, gostava de ser invadido pelo leve e doce aroma a ''antigo'', as essências dos objectos misturavam-se reportando a sua história, o cuco e o pêndulo tranquilizante do relógio de parede eram como ''Snipper's'', eram os Xanax, e os Prosac's da altura, mas isentos de efeitos colaterais, rasgavam o silêncio sepulcral de uma das divisões do Centro de Coleccionadores Casa do Cavaleiro à Porta, transformada em Atelier de pintura e restauro de soldadinhos de chumbo, e das vastas serigrafias pintadas pelo mestre Alberto Cutileiro.
Recordo ainda como se fosse ontem um momento e que passo a descrever, o pintor e restaurador Alberto Cutileiro, numa da minhas infindáveis visitas ao Centro de Coleccionadores, olha para mim, e diz: Fernando, espera um pouco. Eu assim fiz, e Alberto Cutileiro aparece com um pincel, e uma pequena cartolina e em escassos 10 minutos pinta e faz o meu retrato/caricatura, tinha eu 18 anos, é uma das provas artísticas que guardo religiosamente de Alberto Cutileiro ( não confundir com o escultor Cutileiro, são de famílias diferentes .
A cave da Rua da Furnas, descobri um santuário, catraio ou talvez nem tanto, 17 aninhos, pensando que a minha vida passaria só por ali, deus meu, tanta ingenuidade junta em tão pouca massa corporal. Deliciava-me a ver as obras dos mais velhos, carros de combate da II guerra mundial pintados à escala 1:35, autênticas réplicas do que foram na realidade, ficava quase em verdadeiro estado catatonito ao ver aquelas miniaturas, construídas com muito engenho, arte e sabedoria, saindo dali porém com uma certeza, de que as minhas mãos também fariam e construiriam miniaturas, pois passados alguns tempos o Centro de Coleccionadores convidou-me para participar várias vezes em concursos de miniaturas militares, muitas delas ainda guardadas e conservadas como de um verdadeiro território sagrado de Prishtina se tratasse.
texto de Fernando Pinto Barbosa
foto de caricatura de Alberto Cutileiro, cedida gentilmente por Fernando Pinto Barbosa