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03/10/13

“ O Laranjal do Conde de Bonfim” ou "Recordar é Viver ! "


É difícil a mobilidade no largo, só com uma entrada, veículos sobre os passeios, a ambulância entra com precisão milimétrica para ir buscar o doente idoso.
As fachadas dos prédios do Largo Conde de Bonfim estão pintadas com cores pastel, o Parque Infantil não têm crianças a esta hora da manhã de Setembro, acantonadas nas escolas.
O tempo retrocede, na mesma coordenada geográfica. 

Um rapazinho aproveita os ramos da árvore do jardim, para testar a sua coragem e encontrar um refúgio; à tarde corria com os outros miúdos atrás de uma bola, últimos "cartuchos" das férias, coração a bombear o peito todo, tempo parecendo não ter fim. Os eléctricos tilintavam e guinavam sobre os carris da estrada de benfica. Por vezes, acompanhava a mãe a comprar flores na Quinta das Campainhas e planava sobre um ar cheiroso e perfumado. 
Noutra intersecção do tempo, no mesmo local, uma criança segura uma laranja na mão e o sol de fim de tarde escorre-lhe pelos dedos.
O laranjal era do Conde de Bonfim, para onde ia em certas tardes, mesmo ao lado da Quinta das Campainhas onde nascera e vivia.Conhecia bem aqueles campos, quando a seara estava alta, aí se escondia, a criadagem caminhando vereda acima, entre as oliveiras, até à eira e depois aparecia na vacaria para beber do leite acabado de mungir, leiteiras cheias para uso doméstico. No início do Verão apanhava rãs no regueiro junto ao muro.

Em 15 de Fevereiro de 1941, o dia do ciclone, o eucalipto de grande porte que ladeava o laranjal abateu-se sobre muro rosa da propriedade do Conde de Bonfim. Ficou muito impressionado o rapaz, que nos dias seguintes, ainda tentou fazer do eucalipto tombado a sede das suas brincadeiras.
A ambulância retirou-se, e desbloqueou a entrada para o largo, voltando-se a poder circular.


(Texto a partir de uma conversa  ocasional  e afortunada com  um antigo morador da Quinta das Campainhas,  ou "Palácio do Beau Sejour")

01/07/12

Uma Cena Infantil no Palácio Marquês da Fronteira e Alorna

Com 4 anos de idade, o Marquês de Fronteira e Alorna empreende uma viagem de Benfica ao Palácio de Mafra para ser apresentado ao futuro rei D.João VI



excerto do artigo de Rogério Fernandes, Notes About Children´s , publicado na revista
Educação e Pesquisa, São Paulo, v 26, nº1 p 87-97, Jan-Jun 2000

(adaptação livre do texto para português de Portugal )


" A narrativa auto-biográfica, do mesmo modo que outros ego-documentos, constitue uma das fontes mais ricas para a reconstrução histórica do passado infantil dos adultos. Perante os silêncios sem história das crianças que somos, é preciso recorrer às memórias vivas das crianças que fomos.
A infância do Marquês de Fronteira e d’Alorna parece ter deixado traços muito vivos na sua memória. Nascido em 1802, ficou órfão quando estava prestes a completar cinco anos. Sendo impossível entregar a sua tutela à avó materna, a Condessa d’Oyenhausen, futura Marquesa de Alorna, pelo facto de se encontrar exilada em Inglaterra, receberia esse encargo um dos seus tios, o Marquês de Belas. Este, recorda o Marquês de Fronteira e de Alorna, graças às influências de que dispunha no Príncipe Regente, o futuro D. João VI, consegue que "eu, seu pupilo primogénito, fosse agraciado com os títulos da casa de meus antepassados, bens da Coroa e direitos banais que a mesma desfrutava, os quais rendiam para cima de 14 000$000 r [éi]s. por ano" (Alorna, 1926, p.6).Para tanto, era necessário que a criança, apesar de ter menos de cinco anos, se dirigisse a Mafra e fosse apresentada a Sua Alteza. Depois dessa formalidade, todos os direitos ficavam reconhecidos e os Fronteira e Alorna podiam continuar a beneficiar sem sobressaltos da sua considerável fortuna.
O que vai ser essa deslocação a Mafra a partir do palácio de Benfica onde o jovem órfão vivia, assim como a própria cerimónia de que seria protagonista, é descrito pelo Marquês com um admirável senso de discreto humor. Em primeiro lugar, a evocação do veículo e da ocupação do seu espaço interno, de que seguramente a parte menos cómoda era a que cabia ao herdeiro primogénito dessa grande casa:
Saí de noite de Benfica, meio a dormir, em uma sege, acompanhado por um íntimo amigo de meu Pai (…) e por Mr. Fabre, meu guarda-roupa, emigrado francês.
A jornada, segundo as minhas reminiscências, não foi das mais cómodas. A sege, uma das mais antigas de meu Pai e talvez de meu Avô, feita naturalmente de propósito para estas viagens, era estreita e não oferecia outra vantagem, além da sua solidez, para resistir aos baldões dos péssimos caminhos (…).
Os meus companheiros ocupavam uma boa parte do veículo, não só porque eram bem fornecidos de carnes, mas porque iam embuçados em grandes capotes; e o resto ia por tal forma cheio com as condeças e sacos com a minha toilette de Corte e com as grandes latas de gulodices que o velho copeiro de meu Pai (…) para ali tinha metido, que pouco espaço ficava para me assentar, indo por isso quase sempre no colo de um deles
.
Se as condições no habitáculo eram já de si mesmas altamente incómodas para a criança, esta situação negativa agravava-se pela velocidade a que se conduzia o veículo. Ela tornava-se tanto mais perigosa quanto eram eivados de perigos os desvios e inclinações da estrada, designadamente na ladeira de Cheleiros, ainda hoje caracterizada por uma encosta muito acentuada. Assim recorda o Marquês de Fronteira e de Alorna, não sem alguma imprecisão, o acidente ocorrido durante a viagem:
Naquela época era moda o viajar a toda a brida e, embora os amos quisessem o contrário, os bolieiros não obedeciam: o cavalo da sela conservava-se sempre a galope, enquanto o das varas ia a trote rasgado. Nestas viagens a Mafra aconteciam muitas vezes desgraças terríveis. Na descida de Cheleiros caiu-me o cavalo das varas, escapando eu por milagre de sair pela sege fora, e ficar talvez morto. Este acontecimento atrasou alguma coisa a jornada e não me lembra o meio de que se serviram para a podermos continuar.
Uma vez em Mafra, é recebido com todo o desvelo pelos empregados da Casa Real, que guardavam excelente memória de seu Pai e lamentavam a sua morte prematura. Mas os direitos psicológicos da criança, por assim dizer, recuperam o seu lugar e logo a partir desse momento fazem-se ouvir sem mais inibições:
Logo que cheguei, entrei a gritar pelas criadas que tinha deixado em Benfica e, apesar dos esforços que empregavam e promessas que me faziam, não podiam socegar-me.
Os adultos iniciam então uma estratégia de sedução da criança, a fim de a persuadirem a aceitar as convenções do lugar:
Levaram-me ao colo para o quarto de outro tio que residia na Corte e era então Ministro dos Negócios Estrangeiros (…) e aí, depois de grandes promessas, presentes de bonitos e muito doce, conseguiram despir-me o fato de viagem, um pouco original (pois era um chapéu cinzento com grande laço azul e encarnado, um baju verde com alamares de oiro, grandes folhos caídos na camisa, calções de veludilho preto com grandes laços brancos caídos, meias cor de carne, e sapatos com laços brancos) e vestiram-me à Corte.
A parte mais trabalhosa do serviço coube naturalmente a Monsieur Fabre, o francês exilado que ganhava a vida como guarda-roupa do pequeno Marquês. Ele próprio o confessa ao escrever:
Foi isto negócio difícil para o meu guarda-roupa, porque, tendo eu o cabelo comprido e anelado, e sendo preciso pôr uma cabeleira empoada e de rabicho, não como a do grande Marquês de Pombal, mas do mesmo género, ainda que em miniatura, eu, a quem ela incomodava, queria a todos os momentos tirá-la, correndo assim o risco de se perder o trabalho que o cabeleireiro tivera em Benfica para arranjar aquela obra.
O infantil rebelava-se, pois, contra o convencionalismo dos adultos, incapazes de medir as distâncias entre os dois universos em presença. Tal rebelião manifestava-se em todas as oportunidades:
A muito custo conseguiram acomodar-me. Vestiram-me uma camisa com grandes punhos e bofes de renda de França, um pescocinho branco apertado por uma fivela de aço, uns calções de veludo preto com fivelas de aço e laços pretos, meias de seda branca, sapatos pretos com grandes saltos encarnados e abotoadura de madrepérola, espadim com copos de aço, e chapéu elástico de plumas brancas.
Assim vestida e armada, a criança com menos de cinco anos entrava no mundo da ficção adulta sem que pudesse, nessa época, descodificá-la. Ele próprio o confessa ao revelar como galgava de um ápice até ao topo a escadaria das hierarquias nobiliárquicas:
Nunca fui ao Paço sem espada, porque nunca fui Moço Fidalgo, tendo gozado, desde a idade de cinco anos, as honras de Grande do Reino.
Havia, no entanto, que consumar a cerimónia de iniciação que no Paço de Mafra se representava. À distância dos anos, o Marquês de Fronteira evoca-a com um sentimento irónico, na sucessão de terrores em que ela se constituiu:
Conduzido por meu tutor e tios, encaminhei-me para a sala de recepção do Príncipe Regente, sendo acompanhado pelos meus dois companheiros de jornada até onde a etiqueta da Corte lhes permitia, mas, apenas os perdi de vista, desatei num berreiro de choro, sem querer seguir por diante, gritando por meu irmão de quem nunca me tinha separado, e por Mr. Fabre, meu guarda roupa. Logo que avistei S. A., tremi de medo, tal foi a impressão que me causou a sua fealdade, mas, conhecendo quase todos os que o cercavam, porque ou eram meus parentes ou amigos de meu Pai, tranquilisei-me.
A cena vai atingir o seu vértice cómico e equívoco, precisamente no acto seguinte, rememorado nestes termos:
Sua Alteza costumava fazer sempre a mesma pergunta às crianças que, na minha posição, lhe eram apresentadas, e era ela: Para que lhe serve a espada que traz à cinta? Meu tio tinha-me ensinado a resposta que eu, à força de me ser repetida, decorei, e, quando S. A., segundo a etiqueta, me fez a pergunta, respondi de pronto: Para defender a V. A.! O Príncipe nem para mim olhou, e estou hoje convencido de que nem ouviu a minha resposta.
Logo que respondi, gritei por Mr. Fabre, e S.A., persuadindo-se de que eu tinha levado comigo um frade, disse para meu tio: Chamem o Frade! Meu tio disse-lhe que era pelo meu guarda-roupa que eu chamava e que não era frade.
Esta atmosfera burlesca envolve a cena capital em que a criança, travestida de adulto e transportada para um mundo adulto mas fictício, recupera os direitos à sua própria infantilidade. "

28/04/12

25 de Abril na estrada de benfica

Em 25 de Abril de 1974 acordei a ouvir minha tia avó na altura com 71 anos, dizer à minha mãe que as revoluções deixavam tudo na mesma, ela que já tinha vivido a queda da monarquia e todas as convulsões da 1ª Republica . A minha mãe recebera logo de manhã, antes de sair para o trabalho um telefonema de uma sua comadre que acedia a informações directas do cunhado, controlador aéreo do Aeroporto da Portela, que ficasse em casa e se abastecesse de alimentos, não se sabia se seria preciso.
Nesse dia aprendi junto à rádio com meu pai o que queria dizer  a palavra "eufemismo", como é que "Direcção Geral de Segurança" tinha substituído e se referia à "PIDE".  E também aprendi em "Curso Acelerado De Todas As Coisas Que Não Sabia Porque Quase Ninguém Falava" o que significava PIDE.
Sei que nesse dia a minha mãe se foi abastecer num supermercado na rua Padre Francisco Alvares, o meu pai levou-me depois do almoço ao Liceu D.Pedro V para se ver que não havia aulas, depois ele seguiu para a Gulbenkian para ver também que não havia congresso . Mas na Estrada de Benfica haviam cravos e pessoas que se saudavam  com alegria com nunca antes vira. No dia 26 de Abril, vindo do liceu e depois de ter percorrido toda a zona arrelvada no centro da praça de Sete-Rios em direcção à estação do metropolitano e às paragem dos eléctricos percebi uma concentração de pessoas que se apinhavam , junto a uma casa apalaçada, nº 241 da Estrada de Benfica.  Acerquei-me juntando-me à multidão e fiquei a saber que a casa era a escola técnica da PIDE; os militares estavam a capturar pides, e estes chegavam escoltados e muito  acossados pelas pessoas que se amontoavam mas lá entravam a salvo e a custo no edifício. Um pouco mais tarde, no largo onde eu morava em São Domingos de Benfica, a minha vizinha do lado  lançava impropérios ameaçadores da varanda quando percebeu que os militares iam buscar alguém da Legião Portuguesa, o vizinho do prédi em frente e a fúria fê-la descer num ápice do 3º andar à rua.  
Nessa tarde percebi que os militares, não eram bárbaros . Em minha opinião, é por isso que  podemos explicar ainda hoje o 25 de Abril aos nossos filhos e aos nossos netos, e eles querem saber, porque precisamente ainda lhes chegam esses ecos. E podemos lançar e apanhar os cravos !
cartaz

Vieira da Silva / sem data in

25 de Abril 30 Anos 100 Cartazes

Diário de Notícias

19/10/11

Andar na escola num outro tempo

O externato era num rés do chão de quatro assoalhadas adaptado a escola, num prédio situado num largo com jardim, em São Domingos de Benfica. O "Se´sôr", abreviatura de senhor professor, vivia no 1º andar desse mesmo prédio, andava com uma cana comprida na mão, fumava "Definitivos", segurando o cigarro com os dedos amarelos, por vezes a cinza caia no chão.
Era tudo muito auditivo, a palavra do professor, as tabuadas cantadas, a leitura dos textos em voz alta, restava pouco para o visual ! Muita repetição nos cadernos, a escrita em duas linhas, a aritmética no papel quadriculado , não me lembro de caderno de desenho a partir da 2ª classe, relegado para o espaço em branco do cabeçalho por cima das cópias, vá lá, 3 centímetros, a ilustrar. Gostava do exercício da cópia de palavras difíceis numa tira de papel pautado, dividida ao meio, à esquerda o modelo bem escrito, à direita o espaço para copiar correctamente, era o " linguado ", gostava destas palavras que imaginava preencherem a "espinha do peixe".
Da casa do professor no 1º andar, vinha às quintas feiras de manhã a telefonia para o programa musical da emissora nacional, pegado em peso, cuidado com o estrado, no lugar do "Se`sôr" a telefonia, em cima da secretária, tínhamos de esperar que as válvulas aquecessem para o hino nacional, para a marcha da mocidade portuguesa, lá íamos "marchando e rindo…cantando, levados " sim levados, o pretinho Barnabé…a loja do mestre André...o burrinho que ia para ..., carregadinho de …! Nós gostávamos desta meia hora de audio, era uma quebra da rotina das cópias , dos ditados, os" tanques " enchiam-se à tarde de problemas de aritmética.

15/08/11

"Volta a Portugal em caricas"-brincadeiras de outros tempos

Nas férias de Verão da minha infância lisboeta, a malta do Largo, à estrada de Benfica, organizava uma brincadeira que conhecia a adesão de muitos de nós, quando se aproximava a Volta em Portugal em bicicleta.
Contávamos com um material que era um verdadeiro manancial, diremos nós agora, de reutilização : as caricas.Podiam ser da "Laranjina C", do "Vitasumo", da gasosa "Areeiro" , do "Sumol" , da "Sagres", da cerveja "Cuca", da "Canada Dry", da água de Carvalhelhos; fáceis de arranjar , no chão da esplanada da leitaria do srº Manel, ou noutro local qualquer. Procuravam-se as menos amolgadas pelo abre latas, para poderem deslizar melhor quando impelidas pelo piparote que lhes eram dadas pelos nossos dedos.
Escolhíamos seis ou sete caricas que se iriam juntar a mais 60, para deslizarem e tentarem manter-se a cada caricada, em cima de um banco de pedra com cerca de um metro de altura e 12 m de perímetro, forma irregular mas mais ou menos quadrangular, que circundava um canteiro com uma arvore de médio porte no interior. Para poderem cumprir a sua função na brincadeira, as caricas precisavam de ganhar peso e estabilidade e de serem identificadas, era o que fazíamos na fase de preparação . Primeiro cortávamos no topo as tampas de plástico que vedavam as garrafas de vinho de mesa, que pareciam pequenos chapéus e que tinham várias cores. Em seguida, aplicava-se a referida tampa de plástico por cima da carica, encaixava na perfeição e vedava. Depois, aplicava-se plasticina no espaço entre a borda da carica e a tampa.Para identificarmos as caricas, recortávamos dos cromos ( haviam colecções de cromos de ciclistas),a cabeça do corredor pretendido em redondo e aplicávamo-lo por dentro da carica (visível devido ao corte no topo da tampa), completando a identificação com o nome individual e o da equipa recortado de um jornal e colado com fita cola à tampa de plástico ou incrustada na plasticina. "Francisco Valada", "Peixoto Alves", "Joaquim Agostinho", "Fernando Mendes "," João Roque", "Leonel Miranda", "Américo Alves", "António Acúrsio", compunham o pelotão para esta Volta a Portugal “ sui – generis”. A brincadeira era organizada, havia várias etapas, umas mais longas outras mais curtas ( quer dizer, menos ou mais voltas ao banco quadrangular), com calendário, às vezes uma etapa de manhã outra à tarde, com prémio da montanha , prémio Laranjina C e Metas Volantes, nas quatro curvas do perímetro do circuito. Imaginemos 60 caricas em competição... A primeira a cair, não voltava à pista e era classificada na etapa com 60, a outra a seguir com 59, a primeira a cortar a meta com 1. Registava-se tudo etapa a etapa, faziam -se os somatórios. Entretínhamo-nos. Com competição à mistura.
Quando um de nós, dos mais habilidosos dava uma boa caricada e punha a sua à frente, ui !!! os outros não resistiam a comentários de atribuição causal do tipo " Tu tens é uma "g`anda latosa" ...!" ( referente a vaca leiteira; no "zodíaco" daqueles anos 60, era prognóstico de tipo claramente bafejado pela sorte ). As crianças são cruéis, lembro-me bem por isso que esse sortudo, que era o mais corpulento de nós e por isso justamente alcunhada por "Bomba" mais ternamente por "Bombita"numa caricada mais arriscada, desequilibrou-se para trás de mal sentado e só o vimos a fazer o pino que quase se matava. Enfim não foi nada de grave. Eu não tinha muito jeito, normalmente cabia-me a equipa do Tavira ou do Sangalhos, do meio da tabela,naquele tempo. Mas estas "Voltas a Portugal" eram memoráveis.

foto das caricas, retirada do blog http://coleccaodecaricas.blogspot.com
foto "Ases do Ciclismoretirada do blog http://cromos-de-caramelos.blogspot.com/2006/07/17-cromos-de-ciclistas.html"

10/07/11

Quarto com vista para o Jardim Zoológico

"(…) Lembra-se das águias de pedra da entrada do Jardim e das bilheteiras semelhantes a guaritas de sentinela onde oficiavam empregados bolorentos, a piscarem órbitas míopes de mocho na penumbra húmida? Os meus pais moravam não muito longe, perto de uma agência de caixões, mãos de cera e bustos do padre Cruz, que os uivos nocturnos dos tigres faziam vibrar de terror artrítico nas prateleiras da montra, inválidos do comércio místicos que decoravam os topos dos frigoríficos sobe ovais de crochet, de tal forma que o ronronar dos aparelhos se diria nascer dos seus esófagos de barro, afligidos de indigestões de galhetas. Da janela do quarto dos meus irmãos enxergava-se a cerca dos camelos, a cujas expressões aborrecidas faltava o complemento de um charuto de gestor. Sentado na retrete, onde um resto de rio agonizava em gargarejos de intestino, escutava os lamentos das focas que um diâmetro excessivo impedia de viajarem pela canalização e de descerem no jacto das torneiras grunhidos de examinador de matemática. A cama da minha mãe gemia em certas madrugadas o lumbago do elefante desdentado que tocava a sineta contra um molho de couves, num comércio centenariamente inalterável à inflação, comandada pela asma do meu pai em assopros ritmados de cornaca. A mulher dos amendoins, a que faltava o cotovelo esquerdo, montava a sua indústria de alcofas nos baixos da nossa varanda, e narrava à minha avó em discurso verticais, de baixo para cima, as bebedeiras do marido, através de cuja violência explodiam capítulos de Máximo Gorki da Editorial Minerva. As manhãs povoavam-se de tucanos e de íbis servidos com as carcaças do pequeno-almoço que abandonavam nos dedos a farinha ou o pó dos móveis por limpar. A mancha do sol da tarde trotava no soalho na cadência furtiva das hienas, revelando e escondendo os desenhos sucessivos do tapete, o relevo lascado do rodapé, o retrato de um tio bombeiro na parede, iluminando os bigodes , de que o capacete areado cintilava reflexos domésticos de maçaneta. No vestíbulo havia um espelho biselado que de noite se esvaziava de imagens e se tornava tão fundo como os olhos de um bebé que dorme, capaz de conter em si todas as árvores do Jardim e os orangotangos dependurados das suas argolas à laia de enormes aranhas congeladas. Por essa época, eu alimentava a esperança insensata de rodopiar um dia espirais graciosas em torno das hipérboles majestáticas do professor preto, vestido de botas brancas e de calças cor -de- rosa, deslizando no ruído de roldanas com que sempre imaginei o voo difícil dos anjos de Giotto, a espanejarem nos seus céus bíblicos numa inocência de cordéis. As árvores do rinque fechar-se-iam, atrás de mim entrelaçando as suas sombras espessas, e seria essa a minha forma de partir. Talvez que quando eu for velho, reduzido aos meus relógios e aos meus gatos num terceiro andar sem elevador, conceba o meu desaparecimento não como o de um naufrago submerso por embalagens de comprimidos, cataplasmas, chás medicinais e orações ao Divino Espírito Santo, mas sob a forma de um menino que se erguerá de mim como a alma do corpo nas gravuras do catecismo, para se aproximar, em piruetas inseguras, do negro muito direito, de cabelo esticado a brilhantina, cujos beiços se curvam no sorriso enigmático e infinitamente indulgente de um buda de patins(…)".

Excerto de
"Os Cus de Judas"
de
António LOBO ANTUNES

foto retirada de http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Jardim_Zoologico_Lisboa_1.JPG

15/03/11

" Casa do Cavaleiro à Porta "


Eu enquanto muito jovem fazia algumas incursões aos fins de semana na Rua da Furnas, a um local que eu considerava sagrado, um local em Benfica que me fazia entrar na máquina do tempo, sonhar e voar como se fosse em direcção à terra do nunca, a do Peter Pan, onde os meninos não queriam crescer, e qui-ça se eu também o quereria crescer? Era uma autêntica viagem à Alice do País das Maravilhas, eu não era o coelho, hoje sou, sempre cheio de pressa e a correr para todo o lado em busca de coisa de nenhuma...
Saía de casa, esperava ansiosamente o autocarro carreira nr.º 15, ainda com tradicional côr verde, e ali esperava no largo do rato, lá ia eu contente, com uma angústia saudável, ansioso de tocar na campainha daquela cave em Benfica, a abertura era só ás 15:00h, mas ás vezes ás 14:00 já lá eu estava de calções e meias até ao joelho.
Rua das Furnas fez parte do meu crescimento, soldadinhos de chumbo pintados com grande esmero e precisão cirúrgica pelas mãos delicadas de Alberto Cutileiro (Pai), restaurador quase residente do museu de Marinha, e do filho também. Castelos, veículos militares da I e II guerra mundial, barcos em balsa, comboios Märklin, Fleischmann, Rocco, automóveis antigos, Corgie Toys, maquetas á escala 1:76, milhares de soldadinhos da Airfix desfilando em parada, aviões, capacetes, espingardas, bandeiras do tempo das invasões napoleónicas, faziam todos os que ali se deslocavam e reuniam momentos de verdadeiro dia santo como de domingo se tratasse.
Eu entrava, e não queria sair mais, gostava de ser invadido pelo leve e doce aroma a ''antigo'', as essências dos objectos misturavam-se reportando a sua história, o cuco e o pêndulo tranquilizante do relógio de parede eram como ''Snipper's'', eram os Xanax, e os Prosac's da altura, mas isentos de efeitos colaterais, rasgavam o silêncio sepulcral de uma das divisões do Centro de Coleccionadores Casa do Cavaleiro à Porta, transformada em Atelier de pintura e restauro de soldadinhos de chumbo, e das vastas serigrafias pintadas pelo mestre Alberto Cutileiro.
Recordo ainda como se fosse ontem um momento e que passo a descrever, o pintor e restaurador Alberto Cutileiro, numa da minhas infindáveis visitas ao Centro de Coleccionadores, olha para mim, e diz: Fernando, espera um pouco. Eu assim fiz, e Alberto Cutileiro aparece com um pincel, e uma pequena cartolina e em escassos 10 minutos pinta e faz o meu retrato/caricatura, tinha eu 18 anos, é uma das provas artísticas que guardo religiosamente de Alberto Cutileiro ( não confundir com o escultor Cutileiro, são de famílias diferentes .
A cave da Rua da Furnas, descobri um santuário, catraio ou talvez nem tanto, 17 aninhos, pensando que a minha vida passaria só por ali, deus meu, tanta ingenuidade junta em tão pouca massa corporal. Deliciava-me a ver as obras dos mais velhos, carros de combate da II guerra mundial pintados à escala 1:35, autênticas réplicas do que foram na realidade, ficava quase em verdadeiro estado catatonito ao ver aquelas miniaturas, construídas com muito engenho, arte e sabedoria, saindo dali porém com uma certeza, de que as minhas mãos também fariam e construiriam miniaturas, pois passados alguns tempos o Centro de Coleccionadores convidou-me para participar várias vezes em concursos de miniaturas militares, muitas delas ainda guardadas e conservadas como de um verdadeiro território sagrado de Prishtina se tratasse.


texto de Fernando Pinto Barbosa
foto de caricatura de Alberto Cutileiro, cedida gentilmente por Fernando Pinto Barbosa

23/10/10

Onde bem fica este lago?



Visto de cima Benfica continua a ser Benfica e a continuar a surpreender-me.
Benfica ainda esconde encantos por revelar e que lhe bem ficam.
Tirei esta foto de um lago octogonal, vazio, com aproveitamento, segundo me parece, de água no nível inferior.
Sei bem onde fica mas não sei como se designa o local onde se situa.
Quem sabe onde fica?

Caro Simone acertou em cheio!
Trata-se de facto do Lago existente na Quinta das Alfarrobeiras e do Palácio Ludovice, localizado na Rua António Saúde, no Calhariz de Benfica, atrás do Califa.

Ficam aqui mais umas imagens do sítio.




17/10/10

São Domingos de Benfica ontem e hoje (6)




A primeira fotografia é de 1961 e é da autoria de Augusto de Jesus Fernandes (AML). A segunda fotografia foi tirada por mim em Maio de 2010. No dia em que a tirei lembro-me de ter pensado que nunca tinha reparado bem neste edificio, e no entanto, ele é bem visivel e muito bonito. Azulejos brancos e azuis, uma porta grande, também bonita e azul. Nunca reparei bem nele porque sempre que por aqui passava reclamava por haver sempre carros em cima do passeio. Portanto, no dia em que esta fotografia foi tirada tive uma sorte exatraordinaria, não havia ali nem um carro e fiquei alguns minutos do outro lado da estrada a admirar os azulejos e as cores. Não sei qual é a historia desta casa, não sei se pertence a particulares (ao pesquisar na internet, entre outras, encontrei esta informação), mas é mais um dos poucos edificios de outros tempos que resta em São Domingos de Benfica.

21/09/10

" O Parque "


Domingo, 23 de Setembro de 2017
Foto de João Xavier.Não há duas sem três e voltei a este "post" , por razões muito especiais; um grupo de velhos amigos re-encontraram-se cerca de trinta e cinco anos depois , amigos de infância , amigos de adolescência. Confirmámos aquilo que já sabíamos ou seja a sobrevivência das amizades mas o que descobrimos de forma muito profunda foi a consciência da importância desempenhada por cada um na formação das pessoas que somos hoje. Nos idos dos anos 60 a finais de 80 do século passado, as crianças e os jovens passavam muito tempo na rua;  a par das nossas famílias, da escola, eventualmente da igreja, a " malta " foi um  poderoso meio de socialização, o lugar das maiores traquinices, onde pisávamos o risco, mas também nos confrontávamos com os nossos limites, por nivelar  no "corpo a corpo" as ficções e a realidade das outras instâncias. Nós éramos convidados das casas um dos outros , os nossos pais conheciam os nossos amigos, as casas dispunham-se à volta do largo, os prédios com janelas e varandas permitiam comunicar , ver e ser vistos, conhecer . Na fotografia somos alguns de nós mas podemos juntar mais, de diferentes gerações, e esperamos poder fazê-lo na próxima vez, pois será sempre uma descoberta e um prazer.
Fomos protagonistas da história que podem ler abaixo e temos um orgulho enorme de o ter sido, pela minha parte, não quero nada menos do que isso!
..em 1975, vivíamos um processo intenso de participação dos cidadãos em todas as esferas da vida. Os moradores mais antigos do Largo Conde de Bonfim, consideraram que o velho jardim central ao largo, já não cumpria a sua função de espaço de lazer e certamente em comissão popular, aproveitando a dinâmica de um vizinho empresário da construção civil, resolvem dotá-lo ou transforma-lo num parque infantil com uma multiplicidade de novos atractivos, a saber, um campo de jogos com balizas e tabelas de basquetebol, uma pista para atletismo ou bicicletas, um corredor para exercício físico de inspiração militar (subida de cordas, barreiras, equilíbrios…), zona de baloiços, uma biblioteca, pontuado aqui e ali por novos espaços verdes, bancos e mesas, e até um WC. O processo de planeamento do novo parque foi concorrido, muito vivido pelos moradores, em reuniões nocturnas na loja e arrecadação de materiais do vizinho empresário, e onde a malta adolescente também se fez ouvir, representada por um de nós, mais velho, que tinha ido à guerra colonial e voltara. A malta queria colaborar, o largo também nos pertencia, era nos bancos de jardim que nos encontrávamos na nossa adolescência nocturna, estávamos como peixes na água, mas não tínhamos desafogo económico, de modo geral não recebíamos mesadas dos pais, quando um de nós recebia uma nota partilhávamos com os outros e íamos ficando por ali. Toda a gente colaborou para a construção do parque infantil, disponibilizando tempo de fim de semana; o sapateiro deu da sua loja, a electricidade para os trabalhos --- mesmo acabando por ficar com o quadro eléctrico derretido--- os moradores, a mão de obra, o empresário de construção civil o seu saber - fazer especializado e materiais e certamente muitos outros contribuíram mas não me apercebi na altura… Alguns equipamentos lúdicos foram improvisados com materiais de construção, reutilizaram-se as pedras dos bancos que já lá estavam e dispostos em novos lugares e para novos usos, plantaram-se novas árvores. Isto em consonância com a Câmara Municipal já que o novo parque seria vigiado por funcionárias municipais assim como ficaria encarregue da manutenção dos espaços verdes. A nós, adolescentes, caberia a animação desportiva e cultural do parque e foi organizado um calendário de actividades, com horários estipulados, para todas as crianças que aparecessem e delas quisessem usufruir; cada um dos adolescentes monitorizava a actividade da sua preferência, treinos de voleibol, de futebol, corridas de atletismo ( Carlos Lopes era já popular e orgulho de todos nós só batido pelo Lasso Viren em Montreal) , actividades de leitura e alfabetização ( tínhamos um bairro da lata ao lado)… E lá estivemos orgulhosos, nas nossas animações, quando se realizou, a um domingo, uma jornada de trabalho nacional!....

Agradeço ao Srº Adão, sapateiro do largo, a forma tão prestável como em Abril de 2011 cedeu a foto que tinha emoldurada na sua loja e embora já reformado volta ainda hoje ao parque onde o encontrámos neste dia de Setembro sentado num banco pronto a desfiar memórias e tecer as suas considerações e sempre "vivaço" no relacionamento.
Dedico este texto à memória dos antigos moradores.
Aos actuais moradores do largo.
E como não pode deixar de ser, à  "malta" do Largo Conde de Bonfim .

12/09/10

Sport,Lisboa e Infância


Lugares de jogo da minha infância lisboeta, numa praceta , nos finais dos anos 60 e princípio dos 70, século XX." Vou para o jardim Mãe … " descia em saltos de sete degraus os lances de escada do 3º andar até ao rés do chão. Era o tempo em que o Verão tinha três meses, nas tardes de canícula, a partir das 4 e meia começava o futebol…Circundado por prédios de três andares, o jardim era o espaço mais amplo e apetecível para o futebol da malta, de solo empedrado ligeiramente inclinado mas macio, preferível ao alcatrão da estrada que circundava o jardim e que terminados os prédios confinavam com uma "quinta", lugar de duvidosa garagem, térreas barracas onde viviam pessoas, cresciam ervas por todo o lado, cascalho, cães e carreiros por onde se chegava às azinhagas .
A baliza sul era entre a pedra da bica , e a esquina do ressalto calcário que delineava o caminho de entrada e saída do jardim. Atrás, a Estrada de Benfica dos eléctricos e dos autocarros de dois andares da Carris. A baliza norte era delimitada por um dos lados de um banco quadrangular de pedra calcária, 3x3m, que circundava um canteiro com uma arvore de médio porte no interior. A criançada gostava de subir aquela árvore e lá ficar empoleirada, a salvo, provavelmente do mundo dos adultos, sítio para pensar ou apenas estar…
Nessas tardes intermináveis, os desafios, muda aos cinco acaba aos dez em regime de sessões contínuas, eram jogados por todos com entrega total, uns mais novos, outros mais velhos, e por vezes, juntava-se a nós um ou outro adulto , abrindo um parêntesis nessa sua condição. As contribuições dos crescidos que não resistiam a entrar em partidas tão renhidas eram por vezes assaz cómicas, como por exemplo o livre marcado " à Eusébio ", cheio de balanço, por um dos mais velhos que já tinha ido "às sortes" ; perante barreira assustada o remate acabava por parir um rato pois a bola voava por cima da arvore indo parar à loja do sapateiro no topo da praceta enquanto era o próprio sapato do marcador de livres a entrar na baliza improvisada. E era tudo a rir...Ou então o adulto obeso, de fato, resolve entrar na jogatana da malta, pleno de entrega, e desfaz-se em suor o que leva algum tempo para se dessedentar e recompor da camisa alagada e do pó nas calças. O jardim era nestas tardes verdadeiramente multi-usos pois enquanto a miudagem jogava à bola, nos bancos dos jardins, linhas limite de um lado e de outro do campo de jogo, avós sentavam-se com os seus netos normalmente crianças pequenas, criadas namoravam com magalas, … Por vezes a bola ressaltava na cabeça da" netinha ", iniciando o choro compulsivo da criança, a indignação da avó e as desculpas do "infractor" apressadas pela febre da refrega futebolística que urgia.
Esta actividade futebolística no jardim era pois actividade proibida . Os jogos desenrolavam-se na incerteza do aparecimento sub-reptício do encarregado da jardinagem, alcunhado como "o mau", capaz de nos subtrair a bola, de a retalhar com um canivete, aí tudo parava, escondia-se a bola "assobiava-se para o ar". Mas a cegada maior era quando aparecia a polícia, "a bófia", "os chuis", havia a possibilidade difusa de ir parar à esquadra, e aí é que era debandada da malta, em corrida desenfreada em direcção à quinta, por onde nos embrenhávamos em dias de maior aflição, ou escondendo-nos nas escadas dos prédios com portas ocasionalmente abertas.

dedico este texto à malta do " Conde de Bonfim "

30/06/10

E se um dia alguém lhe oferecer flores...



Esta é uma história que está muito, muito atrasada, mas às vezes sou atropelada pelas tarefas quotidianas e não há nada a fazer.
Passou-se no dia da mãe. O Domingo estava calmo, com menos barulho de autocarros e movimentações na Estrada de Benfica. (Plácidos Domingos em São Domingos de Benfica).
Felizmente a florista aqui da rua estava aberta e desci para comprar as costumeiras rosas. Enquanto esperava, com o bebé no sling, que os devidos arranjos se fizessem entrou uma jovem mulher. Era rechonchuda, cabelo curto (mesmo curto) com madeixas louras pronunciadas, t-shirt branca e um avental preto. Achei que era uma cabeleireira, tinha ar disso. Entrou rápida, espavorida, olhou para todo o lado...
- Onde é que estão...? Ah, já encontrei!
(dirige-se às jarras com flores)
- Olhe, queria três destas rosas vermelhas. São lindas não são, o que é que acha? (espera, duvida)... Não, assim se calhar é muito vermelho, ponha uma mais clarinha.
A florista diz:
- Sim, assim fica melhor. Quer um arranjo?
- Sim, um arranjo bem bonito. Pago o que for preciso! E pode por um cartão? Desses a dizer "amo-te", 'tá bem?
A florista acena que sim com a cabeça. Permanecíamos em silêncio.
- E já agora, pode entregar ali na Colmeia? Em meu nome, 'tá bem? Célia, não se esqueça. Um arranjo vistoso, mesmo que seja preciso pagar mais. Já que ninguém me oferece, ofereço eu!!
- E agora tenho de ir. Ninguém me pode ver sair daqui.
Assomou-se à porta, olhou para todos os lados e saiu, subindo a rua, no sentido contrário à Colmeia. Ficámos a sorrir, espantadas com tanto à vontade e divertimento!

São Domingos de Benfica Ontem e Hoje (6)

Falava eu aqui no outro dia no Mimo de Benfica, o café do Sr. João, onde tudo tem uma apresentação limpissima e arrumadissima e onde são todos muito bem educados. Apetece-me voltar a falar neste café porque quando regresso a Lisboa não deixo de passar por la para beber uma italiana enquanto espero pelo autocarro. Este mês de Maio não foi excepção... é engraçado pensar que passaram 5 anos que ja não vivo em Lisboa e quando entro la dentro, apesar de apenas trocarmos um "bom dia", sei que conhecem o meu pedido, mas perguntam sempre por educação e nunca se esquecem de trazer o copo de agua que não pedi mas que queria pedir... dizia eu que em tempos aqui tinha existido uma mercearia e que não me lembrava do nome do senhor e da sua esposa. Pois também me cruzei com ele no mês de Maio e como relembrava aqui um dos nossos leitores, era a mercearia do Senhor Baltazar


Agora olho para a fotografia a preto e branco, vejo os carris do electrico e penso se nesta altura, naqueles toldos ja existiria a dita mercearia ou se existiria ali outra coisa. Em todo o caso, mesmo a preto e branco, parece uma tarde de Verão de Sabado e de Agosto, lembro-me de la irmos comprar guloseimas enquanto disfrutavamos vagarosamente dos três meses de férias...

26/01/10

Querido Hiss




"A Menina Maria Virgínia Zanatti escrevia assim ao "Cidadão" Hiss um postal cheio de carinho. Presumo que tenha sido um cãozinho realojado. Agora onde era a Villa Silva Carvalho é que não sei ainda. Alguém pode esclarecer-me? Em S. Domingos de Benfica, era... "
Escrevia eu assim no Dias que Voam em 2008.
E o desenlace foi interessante. Escreveu-ne o neto de Maria Virgínia, que queria saber como arranjar o postal que a sua avó tinha enviado ao cidadão. Dei-lhe as premissas e ele adquiriu-o. O mundo é pequeno.

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11/07/09

São Domingos de Benfica ontem e hoje (5)










Não me lembro o que existia nestas lojas antigamente, ou no tempo da fotografia a preto e branco… talvez alguns leitores deste mercado se lembrem… mas recordo-me de quando o prédio foi pintado e arranjado e de terem surgido aqui espaços comerciais, com as portas pintadas de verde fresco. No lugar do cabeleireiro de homens havia uma mercearia de produtos biologicos, apeteciveis e com muito boa apresentação. À direita desta loja abriu uma loja de roupa interior que também fazia arranjos de costura. Na loja completamente à esquerda não me lembro o que existia.
Nas férias do verão do ano passado reparei que a mercearia tinha fechado para dar lugar a um cabeleireiro de homens, mas que a loja de roupa interior continuava em actividade… um ano depois as portas fecharam… o que irá agora ocupar este espaço ? terá o comércio tradicional futuro em São Domingos de Benfica?

26/05/09

São Domingos de Benfica ontem e hoje (4)

Lembro-me deste letreiro, a estrela fazia-o brilhar. Muitas vezes ouvia-se "mora para o lado das Peles"... mas nunca cheguei a saber o que ali se fazia, se tratamento de peles, se objectos em pele... o letreiro desapareceu, há quanto tempo não sei, e deu lugar a um cogumelo. Ao lado nasceram outras construções, em frente do prédio cresceu alguma vegetação, instalaram candeeiros altos, colocaram sinais de trânsito... mas ainda haverá ali peles?



18/04/09

São Domingos de Benfica Ontem e Hoje (2)

São demasiado óbvias… ainda assim desafio-vos a encontrar as diferenças…

A primeira fotografia, é tão « clean » … e não é apenas por causa das cores. A fotografia mais recente foi tirada em Junho de 2008... ambas na Vila Grandela...



27/02/09

São Domingos de Benfica ontem e hoje (1)

No início, ou no meu início era assim… não me lembro do letreiro a dizer « Laboratórios de Benfica », mas lembro-me destes portões e sobretudo do cheiro intenso a quimicos, que por vezes se fazia sentir, quando vinha da escola…

Depois o laboratório fechou e vieram as obras que deram origem a esta obra prima da arquitectura… passou-se um mês de Junho, um de Novembro, outro de Junho e cada vez que voltamos vemos este painel…