24/02/09

O que se ergueu aqui?

esta quase que merece prémio!


Pela T. soube do 1º aniversário do “Mercado de Bem-Fica” (no final deste post colocou uma brincadeira aniversariante, salut!) e isso trouxe-lhe à memoria que, quando por aqui falou da “Parreirinha do Chile”, prometera à J. que falaria de outras catedrais lisboetas de bifanas, a nadarem naquela molhanga, não se sabe de quanto tempo, bifanas mais a coser que a fritar, cenas eventualmente chocantes para estômagos sensíveis.. A ideia era o “Beira-Gare, pelas bifanas, mas também por um petisco da casa, prazer seu, gostosura de tantos dias que já correram.
Reuniu a equipa costumeira e lá se foi de armas e bagagens para o “Beira-Gare”, mas
ia-lhe dando uma coisinha má. Quando se pediram as sandes de isca com cebola, o empregado acenou lentamente com a cabeça, disse à turba que já não faziam. Perdeu clientela, disse, e continuou a explicar que mesmo bifanas só a malta velha, os novos já acham as bifanas um horror e voltaram-se para coisas que não fazem mal.
Agora ele diz para quem não saiba: no “Beira-Gare”uma sandes de isca com cebola era um “must” do colesterol. Isca frita com cebola bem refogada, ou esturgida, como dizem os minhotos. De as lágrimas começarem a correr, de prazer, cara abaixo. Dizia o Dudu, que quando se desse a primeira trinca numa daquelas sandes de isca deveria ouvir-se o “Hallelujah “do “Messias” de Haendel, sim uma imensa aleluia, júbilo por gostos únicos, talvez prazeres que matam, mas não andamos cá para outra coisa e o inferno é já ali.
Mas acabaram. Ficou assim meio sem graça a olhar para os compinchas, a sentirem-se órfãos perdidos, todos a concluírem, em silêncio, que o mundo como o conheceram e amaram está a desaparecer Decididamente estão a matar tudo o que de bom esta cidade tinha. Privam-nos destas coisinhas, causam-nos desassossegos, põem-nos tristes. Vão todos morrer com saúde. Tempo para lembrar o Bertrand Russel quando confessou que a última vez que tinha feito exercício físico foi para acompanhar o funeral de uma amigo seu que tinha morrido a fazer “jogging”, ou aquele provérbio irlandês: “life is a bitch… and then you die.”
Claro que atacámos umas bifanas, os fininhos costumeiros, mas nada daquilo soube ao que deveria saber. O fim das iscas com cebola, no “Beira-Gare”, estavam atravessadas na garganta.
Para sempre?

23/02/09

Um Ano de Mercado de Bem-Fica



Faz hoje um ano que o Mercado de Bem-Fica, com este post, abriu as suas portas. Um ano depois um post sobre o mesmo lugar, numa fotografia de que gosto muito tirada no verão passado. Fazendo um balanço, vários posts se sucederam ao longo deste ano, estórias, história, adivinhas, cores, imagens, recordações, tudo o que tinhamos "prometido"... Entrada de novos colaboradores, saída de uns, regresso de outros, o mercado vai mudando, crescendo.

A todos os leitores que por aqui têm passado e deixado as suas ideias, opiniões estórias e os seus conhecimentos um grande obrigado... como este é um mercado especial e com fregueses também eles especiais, as portas estão sempre abertas, em qualquer dia da semana e a qualquer hora do dia.

Voltamos a deixar o desafio lançado inicialmente, se tiverem estórias das freguesias de São Domingos de Benfica e de Benfica para contar podem tornar-se colaboradores deste mercado ou tão simplesmente enviar estórias, recordações ou episodios para o mail mercadodebemfica@gmail.com
, é com grande entusiasmo que os publicamos e que este blog ficará mais rico.

Para terminar um brinde ao mercado, aos seus colaboradores e visitantes com um vinho, que já tínhamos bebido
nesta ocasião, a condizer!


E vamos adivinhar...


Ainda vos lembrais? Onde era? Como se chamava?

Está provado cientificamente. Tentar adivinhar faz bem ao cérebro:)

Um ano

Foi graças a este espaço, que tive o prazer de conhecer a J. Há momentos de sorte na blogosfera e este foi um deles.
Agora que o Mercado faz um ano de existência, também nós comemoramos um ano de conhecimento e relembramos as comezainas do Verão e o prazer que foi conhecermo-nos irl, conjuntamente com outros amigos.
Longa e prazeirenta vida ao Mercado, porque esta é uma casa que privilegia a vida e as suas alegrias.

O lugar de Benfica

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Contemplei por largo tempo esses pomposos indícios de uma grandeza passada, até que a depressão do terreno me ocultou os últimos arcos, chegando então ao lugar de Benfica. As povoações à roda de Lisboa estão cheias de palácios e casas de campo de fidalgos portugueses e de ricos habitantes da capital. Estes edifícios, frequentemente construídos no melhor gosto, cercados de agradáveis jardins, fornecem aos arrabaldes de Lisboa um encanto especial (...) quando algumas elegantes casas de campo, e um palácio que pertence ao Marquês de Fronteira excitaram a minha atenção. Este último é edificado em estilo italiano e tem uma aparência exterior sumamente bela . Posteriormente passei muitas horas agradáveis nesta casa, cuja dona é uma das senhoras mais amáveis e mais espirituosas da sua terra.

Felix Lichnowsky excerto do livro "Portugal , Recordações do ano de 1842", Edição Frenesi.
Gravura:A quinta de Gerard de Visme, em São Domingos de Benfica, incluíndo a quinta do Marquês de Fronteira. Gravura do museu da Cidade, de Wells em 1794

18/02/09

Afinal de contas o que se vende aqui ?


A Rua Montepio Geral sempre foi uma rua de pequenos comércios. Quando entravamos pelo sentido da circulação dos carros encontravamos à esquerda a peixaria, depois a mercearia da Dona Nia e do Sr. Augusto, depois o talho do Pedro. Mais adiante, ao meio da rua, a oficina do Zé e uma loja de estofos. Atravessando para o outro lado e voltando para trás, um lar, depois a padaria, depois a loja dos móveis, depois a mercearia da Dona Helena, e mais à frente a oficina do Sr. Garcia… mas isto era antes… porque desde Junho que não vejo a peixaria, a Dona Nia trespassou a mercearia, a loja dos estofos desde que ardeu e reabriu nunca mais foi a mesma, a padaria fechou. A mercearia da Dona Helena assim como as oficinas mantêm-se e a loja dos móveis parece-me que também, mas o negócio não lhes vale pela montra… em todo o caso da vontade de parar… afinal de contas o que se vende aqui ?

17/02/09

Contextualizar o Califa



Clicar na imagem para ampliar.


Contra a crise e a favor do comércio tradicional, senhoras e senhores, o cartão freguês!



Algumas descobertas hoje no site da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica. A primeira foi a do próprio site, bastante mais moderno em relação ao que existia anteriormente, e o novo cartão freguês. Este cartão que custa 2.50€ permite aos moradores da freguesia beneficiarem de inúmeros descontos. Existe aqui uma lista de todos os comércios e empresas que aderiram ao cartão freguês, embora eu não consiga visualizá-la correctamente (talvez vocês consigam). Percorrendo o site descobri ainda que o centro cultural oferece igualmente um desconto de 10% na apresentação do cartão.

A iniciativa é interessante… esperamos que tanto os moradores como os comerciantes e empresarios ganhem com ela. Fica a ideia para quem ainda não sabia !

16/02/09

Manger...

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Comer, cette manière agréable de satisfaire à un besoin impérieux, como dissse uma mulher gastrónoma muito instruída e espirituosa (...)
Felix Lichnowsky no seu inteligente e apaixonante livro "Portugal , Recordações do ano de 1842", Edição Frenesi.

Quem adivinha o restaurante e bairro?

15/02/09

Adivinhais onde é?

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O Cinema Turim...

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Não fechou assim há tantos anos. Em 2001 ainda funcionava. Agora liquidaram-no em troca de um Centro Comercial. Mas estas fotografias evocam o espaço algo kitch deste cinema, antes da sua transformação. Uma pequenina sala das muitas que desapareceram por toda a Lisboa.
Investe-se em tudo o que é grande: escolas, esquadras, hospitais e até cinemas.
As cidades adormecem cedo envolvidas no doce aconchego da tecnologia.

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Para os benfiquistas mais velhos!







Alguns benfiquistas mais antigos se lembrarão destas casitas por certo. Estavam lá ainda há uns 20 anos. O soi disant progresso engoliu-as, como a muitas outras. Reconheceis? Onde se situavam? Ainda resta uma!
Se clicarem na imagem ela fica maior:)
Errata: Muito mais que vinte..Talvez uns 30 ou quarenta anos. O tempo voa.

Adivinhais?

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Para que serve este pequeno edifício e onde se encontra?

07/02/09

O Muro








O nº 745 da Estrada de Benfica (do lado oposto da rua, quase em frente à Vila Ana e Vila Ventura) não constitui parte do Património Municipal, mas é uma antiga vivenda encimada por dois magníficos painéis de azulejos.

Para além de muito bonita, esta vivenda encontra-se bem conservada, fazendo-nos pensar em outros tempos, quando Benfica se encontrava "fora de portas" e era composta por quintas onde se ia apanhar ar puro e veranear.






Bela perspectiva da recuperação desta antiga casa senhorial, não fora o facto de o muro que sustenta o portão de acesso à mesma se encontrar prestes a tombar em cima de qualquer transeunte que por ali circule (o que ainda mais estranho é de imaginar, dado que nesta casa funciona um escritório de advogados)!...







02/02/09

FINALMENTE!!








Depois de um ano
, consegui obter uma resposta por parte do Departamento de Conservação dos Edifícios Particulares da Câmara Municipal de Lisboa (afinal, sempre foi benéfico ter enviado um e-mail directamente ao Director do mesmo!)...






A ver vamos, se não será apenas "fogo-de-vista" e, no final, as coisas ficarão como até agora tem estado, apesar de todas as vistorias que se possam realizar (devido a não se encontrarem os seus proprietários, ou por estes alegarem não ter verbas para as obras de recuperação)!...

Manter-vos-ei ao corrente de mais desenvolvimentos nesta "luta" (que, certamente, irá continuar - pelo menos da minha parte).






18/01/09

Salvem a Vila Ana e a Vila Ventura!




"(...) e fomos viver para um dos andares de uma das duas casas casas iguais, uma chamada Vila Ana outra chamada Vila Ventura, na Estrada de Benfica... quem vai no sentido das Portas [de Benfica], do lado direito.
Essas duas casas são curiosas pela singularidade, no fundo são das chamadas 'Casas do Brasileiro'. E por isso mesmo estão actualmente 'tombadas' como dizem no Brasil, estão consideradas como imóveis de interesse municipal, não podem ser deitadas abaixo... podem ser deitadas abaixo no interior, mas exteriormente têm que ficar com aquele mesmo aspecto. Justamente por serem 'Casas do Brasileiro', representativas de uma época e de um tipo de construção muito característico naquela altura, um quase chalet, porque a época é quase coincidente com a dos célebres chalets franceses. E as casas do brasileiro são quase todas nesse género.
E então, como é um par simétrico... par que não foram construídas exactamente gémeas... Eu tenho uma fotografia... nem sei onde, tenho-a para ali... inclusivamente duas fotografias antigas, em que numa delas se vê ainda só uma das casas e depois noutra fotografia já se vêem as duas. Fotografias da época da construção portanto (...)"

Entrevista a João António Lamas (realizada a 17/03/08).









Em início de 2008, enveredei uma longuíssima troca de e-mails a propósito do destino da Vila Ana e da Vila Ventura (dois palacetes, em plena Estrada de Benfica, que me fascinam desde criança)...

17/01/09

"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir





Em Benfica, existe ainda um Alfarrabista - repleto de História e de memórias de lutas por uma Causa - que teima em Resistir, depois de 40 anos...





Situada na Avenida do Uruguai, no Nº 13A A, a “Livrarte” iniciou, formalmente, o seu negócio na venda de livros, há cerca de 29 anos (por volta de 1969): “(...) iniciado pela “Ulmeiro”, que tinha Editora e a Livraria (...)”, como nos contou a D. Lúcia Ribeiro, proprietária desta casa.

A “Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à “Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.

Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.

Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.

Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.

Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.”

O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” e “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.





Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.

Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro” e ao ramo editorial.

Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.

A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.

1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte” também estava incluída.

Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.

E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).
O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.





Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.

Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.
De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.

Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.
Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.

Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.

Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”, “(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.





A “Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.

No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.
Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".

No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.

Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).





Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.

De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”.

Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.

Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.
Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.


16/01/09

Lembram-se das Portas de Benfica?




Lembram-se das Portas de Benfica?
Da solene entrada na cidade de Lisboa, encabeçada por dois "castelinhos", onde outrora existiam guardas?

Graças ao progresso e desenvolvimento (assim como ao lucro fácil, que continua a imperar sobre tudo e todos, em detrimento dos verdadeiros valores), as Portas de Benfica vão transformar-se numa ilha no meio da CRIL...



Imagem de "Caixa D'Imagens"



Curioso que, ao visualizar esta imagem, me recordei que, aqui há uns tempos atrás, vi no telejornal da SIC (quando a rúbrica "Nós por Cá" ainda fazia parte do mesmo) um caso idêntico, no norte do país, onde numa vila (de que não me recordo o nome) uma casa ficara isolada no meio de uma rotunda.

Nessa altura, o caso fora apresentado como estonteante, surreal e digno de reclamação...
O que é normal face ao sui generis de tal "obra arquitectónica"!

Pena que, actualmente, face aos avanços destruidores da CRIL (e dos senhores que vão alcançar lucro com este negócio chorudo), os mass medias (e tantos outros) considerem que a palhaçada em que as Portas de Benfica se vão transformar é algo de normal.









05/01/09

flores

fake flowers iii
fake flowers ii
fake flowers i

Ao ler o post mais abaixo, lembrei-me que já tinha fotografado as flores do Bazar.
Aqui ficam, também para desejar um bom ano a todos (e para prometer um maior número de posts).

02/01/09

Quinta da Granja










Circundada por prédios altaneiros, um terminal rodoviário, um centro comercial e um enorme hospital, ali bem perto da 2ª Circular, ergue-se a Quinta da Granja.

Alheia ao tempo que passa e aos avanços da modernidade, naquele espaço apenas impera ainda a vontade da natureza... e as lides rurais associadas a cada uma das estações do ano.

Antigamente, quando por ali passava todas as manhãs, a caminho do emprego, ficava largos momentos embevecida a olhar para aquele espaço natural imenso dentro da cidade, que o Homem ainda não conseguira usurpar.

Nunca ali vislumbrei vivalma, a não ser os parcos hortelões que por ali bem perto ainda cultivavam a sua subsistência em pequenas hortas urbanas.

Da Quinta da Granja de Baixo soube mais tarde que permanecia inabitada, em ruínas e votada ao abandono, como a grande maioria dos palácios e casas senhoriais de Benfica.
Mas e aquela outra casa branca, que se podia ver ao longe, quando por ali passávamos a pé? Será que ainda ali habitaria alguém?
Às vezes, dava-me vontade de lá ir espreitar.

Na Primavera, os campos enchiam-se de um verde frondoso, ao passo que a meio caminho da chegada do Verão, alguém areara todo aquele imenso terreno... vendo-se pequenos montes de erva apodrecida, por aqui e por ali.

Rezam as memórias dos mais idosos de Benfica (pelo menos de 2 senhores que uma vez escutei no autocarro), que os diversos herdeiros daquela Quinta não conseguem chegar a consenso... e daí a mesma ainda não ter sido vendida ao desbarato para gáudio de alguns promotores imobiliários.

Em ano de eleições camarárias, corre, por outro lado, a notícia que a Quinta da Granja vai dar lugar a um imenso Parque Urbano.
A ver vamos!...









31/12/08

Os Jogadores








Por volta das 14h, quando o Mercado de Benfica encerra, é vê-los chegar...

Numa azáfama incontrolável, apropriam-se das bancadas onde horas antes se vendiam tecidos e roupas, brinquedos e plásticos.
Os "almeidas" mal conseguem fazer o seu trabalho de limpeza urbana, tal não é a sofreguidão com que eles ali chegam, barrando-lhes o caminho.

Em diversos grupos de 7 a 8, ali ficam a tarde toda, cada grupo na sua bancada... a jogarem.

De cada vez que por ali passo e os vislumbro, não consigo evitar pensar se utilizarão aquelas bancadas para jogar imbuídos de algum misticismo, crendo que a sorte que os ciganos ali têm nas suas vendas lhes será transmitida nos jogos que encetam...

Ou se, afinal de contas, a sua utilização é bem mais prosaica, uma vez que não existem outros espaços amplos na freguesia de Benfica onde possam livremente jogar.





28/12/08

Benfica Colorida II


É Inverno, está frio mas este dia de sol pede cor e faz pensar no Verão... lembro-me deste bazar desde sempre, antigamente tinha menos vasos com flores cá fora. Havia mais tampas para as sanitas, baldes e esfregonas, tábuas de engomar... na verdade, havia de tudo, aqui... até brinquedos, como indica o letreiro. Hoje em dia esta palavra (ou este comércio) está também em vias de extinção e a ser substituído pelo comércio asiático... por aqui quando há confusão ou desarrumação costumamos dizer "quel bazar"... e eu lembro-me sempre destas lojas, que nas últimas férias tive debaixo de olho…

13/12/08

Palacio Fronteira como uma das "loucuras" de arquitectura da Europa

Nós andavamos a comprar os últimos livros do ano em Chambéry e tinhamos ainda uma boa parte do orçamento para poder investir em albuns (des beaux livres) para o Natal… e no centro da mesa estava este livro que me chamou a atenção pela capa. Pego no livro. Observo sempre a capa em primeiro e o segundo gesto é virá-los para ver a contracapa e lá estava ele o Palácio Fronteira… ça m’a réchauffé le cœur…

No interior é possivel ver mais fotografias do Palácio e ler a sua história… para o Mercado de Bem-fica, esta informação é o que interessa mais, mas Portugal está em grande destaque neste livro… escusado será dizer que o trouxemos !



08/12/08

De Cinema a Teatro...








A informação que nos havia sido dada pelo nosso leitor MR sempre era verdade!...

O antigo Cinema Turim (da nossa infância), vai, em breve, passar a chamar-se Teatro José Viana, com algumas peças já anunciadas em cartaz.

Esperemos que as obras sejam rápidas e que este novo espaço cultural traga mais ânimo à freguesia.






23/11/08

Prémio Foto





O Bic Laranja atribuiu um Prémio Foto à última fotografia publicada neste post aqui do Mercado, o que muito humildemente agradeço.


Segundo as regras, cabe-me agora premiar 8 outros blogs.

Decidi acrescentar uma pequena alteração e, dado o conteúdo do Mercado de Bem-fica, optei por nomear apenas fotografias relacionadas com a cidade de Lisboa e os seus bairros.

E, assim, o prémio segue para:


- Manel, por esta foto do Areeiro, no Blue!

- Sancha Trindade, por esta foto, no Lisboa na ponta dos dedos

- António José Ribeiro, por este triptíco chuvoso, no Moro em Lisboa

- Ao Englishman da Alta, por este maravilhoso arco-íris, no Uptown Lisbon

- Ao Flip, O Abandono, no Lisboa a Sépia

- À Luísa R., por esta paisagem, no Daqui de Lisboa

- Ao Jaime, por estas janelas, no Olhares sobre Lisboa

- à LxGirl, pela primeira fotografia deste post, no Lisboa em Mim


À vous de jouer maintenant!...