03/04/09

Caracolada...

Contagem decrescente para as férias é quase sinónimo de contagem decrescente para a caracolada... embora este não seja "O" meu sitio preferido para as tardes de calor, boa conversa e bebida, é a minha segunda escolha e dos sitios de Benfica com bons petiscos... já de encontro marcado com o R. para Junho... Quem se junta a nós?

17/03/09

Beco da Botica

Aproximamo-nos a passos largos da Primavera, dos dias longos, cheios de luz e de cor… e tudo isto me fez pensar nestas fotografias tiradas no final das férias de Junho… eu tinha ido ao Corte Inglês e estava quase pronta para vir-me embora quando o j. me liga a dizer que vem ter comigo. Chegou no seu novo (velho) descapotável, em tempos o carro dos meus sonhos, quando percebia um bocadinho desse assunto… fomos por ali fora… cabelos ao vento, Bairro Azul abaixo, avenida dos hoteis, Estrada de Benfica… eu tinha a máquina na mão, a certeza de não voltar nos próximos meses e queria abastecer-me de fotografias. Então o j. disse-me « Conheces o Beco da Botica ?» eu não conhecia e ele levou-me… a entrada mesmo ali, por onde tantas vezes passei, certamente sem olhar… entramos por aquele novo mundo, cheio de casas baixinhas, umas antigas outras velhas, mas com árvores cheias de cor, flores e frutos. O céu estava azul e todo aquele contraste me agradou. Clique aqui, clique ali e sairam estas fotografias… num cantinho cheio de cor…

















































13/03/09

Para a J


Para captar as histórias simples das gentes dos bairros, não basta percorrê-los, ir lá de quando em vez. É preciso viver lá, sentir o cheiro, a gritaria, o silêncio também.
À parte os domingos de futebol, vai regularmente a Benfica. A irmã vive nas Pedralvas, também lá vive a mãe – fez há dias 90 anos! – e, pelo menos, uma vez por semana percorre Benfica. Vai a pé desde o metro até às Pedralvas. Gosta de Benfica, um bairro com gente nas ruas, com um pequeno comércio activo, dizem-lhe que já foi mais.

Normalmente visitava a mãe pela tarde, mas um dia aconteceu ir de manhã. Para fazer um pouco de tempo, como gosta de mercados, da vozearia, dos pregões, de todo aquela lufa-lufa e entrou pelo Mercado de Benfica dentro.
Ao dar a volta à praça demorou-se a observar as bancas de peixe. Uma chamou-lhe a atenção e ficou a olhar. Gostou da frescura do peixe , mas acima de tudo apreciou a calma, chamemos-lhe serenidade, do vendedor. Não aparenta mais de 70 anos e tem um gesto manso de falar com os fregueses, por vezes um sorriso. Gosta deste tipo de vendedores. Nada de espalhafatos porque o saber e a competência não necessitam de gritaria. Apeteceu-lhe comprar peixe. Chegado a casa, tendo comido o que comprara, confirmou as suas expectativas. Passou a ir a Benfica não só pela mãe, mas também pelo Mercado.
As bancas dos vendedores de peixe estão no centro do mercado. De quem ele fala encontra-se na parte interior do círculo. Trata-se da banca do Sr. João, sabe o nome porque assim lhe chamam os fregueses. Tem peixe de toda a qualidade, mas ele vai pelas corvinas, pelos pargos, pelos robalos, pelos besugos, pelos salmonetes, pelos sargos, sargos que nem sempre são fáceis de encontrar e todos provenientes do mar. Quando são de aviário, essa indicação está bem à vista, mas não é a especialidade do Sr. João. Importante: é a existência de um interessante equilíbrio entre o preço e a qualidade. Por exemplo no sábado os robalos estavam no “El Corte Inglês” a 20,00 euros o quilo, na quarta-feira o Sr. João tinha-os a 15,00 euros.



Diga-se, ainda, que o Sr. João tem uma simpática e eficiente ajudante, que arranja o peixe da maneira que o cliente quiser. Não é pormenor de somenos.
Esta quarta-feira o Sr. João tinha uns estupendos carapaus para assar. Não resistiu e comprou. Chegado a casa envolveu-os num molho à espanhola e em que substitui a salsa por coentros.
Com água na boca encerra o “post”.
Prometeu à J. dois “posts” sobre Benfica. Haverá mais um. O que ainda tem para contar de Benfica tornaria este “post” extenso e, como não anda aqui para maçar ninguém, voltará amanhã ou depois, o tempo necessário para alinhavar o resto da prosa.

By gin-tonic

“PRIMEIRO DE DOIS “POSTS”, SOBRE BENFICA, PROMETIDOS À J.



Se lhe perguntassem em que dia foi pela primeira vez a Benfica, responderia sem qualquer ponta de hesitação: 14 de Julho de 1953. Pela mão do avô foi assistir à colocação do primeiro tijolo da construção do futuro Estádio da Luz. Tinha 8 anos. Onde hoje está instalado todo aquele pesadelo de cimento que rodeia o Estádio, onde está agora situada a 2ª Circular”, tudo aquilo eram quintas e mais quintas com árvores e rebanhos de ovelhas a pastar.
A construção do Estádio foi uma epopeia, pois uma boa e grossa fatia do dinheiro para as obras, proveio dos sócios e adeptos. Lembra-se do Pavilhão do Benfica na Feira Popular, onde hoje está a Gulbenkian, com um mealheiro gigante para depósito de notas e moedas. Lembra-se de quando o Benfica não jogava em casa ir assistir ao andamento das obras e durante os trabalhos de terraplanagem ver os sócios de enxada na mão em que cada cavadela custava 20$00. Também a realização de almoços a que se seguiam intermináveis leilões. Lembra-se que foi leiloada uma gaiola de periquitos e uma garrafa de Vinho do Porto foi leiloada 11 vezes. Rifas e mais rifas disto, daquilo e daqueloutro e em que o que menos interessava eram os prémios. Tudo servia para angariar fundos. Para a campanha do cimento havia um enorme letreiro:” quem não deu que dê agora, quem já deu que torne a dar.”
Sente que é isto que fez do Benfica um clube popular. Mas do dia da inauguração do Estádio, ele não pode dizer: “Eu estive lá!” Não esteve. Ficou de castigo, qualquer coisa relacionada com a escola, erros nos ditados, indisciplina na aula, não lembra bem. Mais tarde em conversas com o pai deu para perceber que o castigo doeu mais ao pai do que a ele. Não sendo, de modo algum, adepto da pedagogia do castigo, admite que hoje o pouco que sabe, também o deve a alguns desses castigos...


O Benfica é a sua mais velha paixão. Outras perderam-se, a maior parte esquecidas, mas a do Benfica persiste e arderá com ele, porque muito cedo lhe imprimiram o vermelho nas veias: o do clube e não só. “O Benfica foi, na ditadura, uma das poucas alegrias colectivas e o único vermelho tolerado, embora sob a atenuante de “encarnado”, escreveu César Príncipe.
Lembram-se de Xanana Gusmão no pátio da prisão de Cipiunang, com um boné do Benfica na cabeça? Lembram-se do filme “Em Nome do Pai, realizado por Jim Sheridan, pai e filho a reencontrarem-se na cela de uma prisão de alta segurança londrina com um galhardete do Benfica pendurado na parede?
Junta-lhe o azulejo que o Sr. Jofre tem na sua oficina de sapateiro: “Quem não é do Benfica não é bom chefe de família”
Em matéria de futebol não se pode ser razoável, pior ainda quando isso resvala para o Benfica. Como escreveu um velho e querido amigo: “O Benfica não é um clube: é uma etnia da alma. Não é uma ideologia: é uma paixão. É ser tão irracional em nós como a nossa infância”, ou esta citação, lida já não sabe onde, do livro “ Segunda Oportunidade”, de Vítor Elias:
“- Vais para casa? Pergunta-lhe o Borges.
Ainda não – respondo. Sou capaz de beber um copo com uma amigo meu, falar um bocado do Glorioso.
Fazem vocês muito bem. Falar de Nosso Senhor ajuda qualquer pessoa a encontrar orientação.”


O “post” é ilustrado com um selo emitido pelos CTT e referente à conquista da primeira taça dos Campeões Europeus e com os bilhetes mais antigos que possui: um é o da inauguração da Luz, em Junho de 1958, o Benfica empatou a um golo com o Flamengo. O outro é o da festa de homenagem a José Águas, seu ídolo de infância no dia 5 de Setembro de 1963, o Benfica venceu o Porto por 3 a 2.
Vai larga a prosa, mas não quer terminar sem invocar a frase, ouvida àquele velho alentejano, encostado ao balcão dum tasco, em S. Francisco da Serra, a navalhinha petisqueira a cortar uma côdea para entalar um pedacinho de queijo:”é melhor ser do Benfica do que ser rico".
Feliz o bairro que tem um clube como este!

Escrito por Gin Tonic

10/03/09

As traseiras da Rua Montepio Geral

Há dias, em mails que troquei com o Rui (meu vizinho de rua… sei-o agora,) falavamos das traseiras, da Rua Montepio Geral. O Rui dizia que podia ser mais um dos post possíveis para ele oferecer ao Mercado, entrevistando o dono da horta, e eu fiquei a pensar naquelas « quintas » que são a vista das nossas janelas… e, por mero acaso, acabei por encontrar esta fotografia…

Esta era a horta do « meu » porteiro… lembro-me que tinha galinhas e alguns legumes, parece-me… hoje é um matagal, não sei a quem pertence o espaço, mas é possivel que acabe como o que está ao lado, uma espécie de armazém de carros ora novos ora desfeitos. Mas voltando ao porteiro, lembro-me de o ver muitas vezes aqui… outras vezes tornava-se invisível, pois entrava naquela casinha, que conseguimos ver à esquerda e ali ficava uma grande parte do tempo a arranjar malas e sapatos. Era a sua profissão, sapateiro. Só regressava a casa ao som da voz da sua esposa, a Dona Maria José, que ía à varanda e gritava « Mendes ! Mendes ! Ō Mendes » e lá vinha ele. Ouviamo-lo subir as escadas, às vezes ía parando em cada porta do prédio para entregar os sapatos que os vizinhos pediam para concertar, outras vezes ouviamos apenas o barulho da porta a fechar (vivier num prédio é assim, conhecemos o som de todas as portas)

Estas hortas (ou quintas) eram, para mim, misteriosas… a que hoje serve de depósito de carros, em tempos tinha um poço e lembro-me de vê-lo ainda. Lembro-me de umas pedras sobrepostas, como se fossem vestígios de casas que ali existiram em tempos… reza a história que naquele terreno morreu queimada, não sei se uma familia, se uma criança e desde então nunca mais aquele espaço foi ocupado…

Mas para a verdadeira história ficamos à espera da entrevista do Rui ao senhor da hora !

07/03/09

Bairro da Boavista à procura da sua história

Chegou hoje ao Mercado de Bem-Fica um mail do Joaquim que criou um blog sobre o Bairro da Boavista. Neste mail ela pergunta se temos informações sobre os proprietarios dos terrenos que deram origem a este bairro. Recentemente disseram-lhe que estes terrenos foram oferecidos pelo Duque de Bonfim e pela Marquesa de Benfica para que a Câmara Municipal de Lisboa e servisse deles para ajudar as pessoas mais carenciadas.

O Joaquim pergunta se conhecemos ou temos informação sobre a história do Duque e da Marquesa. Sugeri-lhe que passasse pelo Gabinete de Etudos Olisiponenses para documentar-se, mas se tiverem alguma informação o Joaquim agradece que a deixem aqui.

06/03/09

Memórias da Rua Dr. João Couto (3)



A entrada nos anos 90 marcam o declínio da rua enquanto espaço de partilha, palco da juventude. O Fonte Nova, a escola de condução ao lado e o Metro trouxeram carros e a rua lentamente passou a ser para todos. A desintegração dos grupos, os amigos de fora e as idas para a universidade onde muitos acabaram por partir para outros voos, o futebol acabou, as redes foram desmontadas e o campo foi reconvertido num jardim com fonte. As poucas crianças que nasciam já não iam brincar para a rua.
As bicicletas foram substituídas pelos nossos carros e neste momento, esta rua nada é mais que um gigantesco parque de estacionamento sem o mínimo de interesse. É uma rua seca, atulhada, banal.

E hoje estive lá a ler paredes riscadas e a tirar fotos. Encontrei o Artur, o último sobrevivente e o puto Xaxa, que vai ser pai. Lembrámos algumas das histórias. Rimos.
E quando pensei que aquela rua não passava agora de um cemitério de memórias, afinal e no puro acaso, pode funcionar como um ponto de encontro improvável.
Hei-de lá voltar, a ver quem encontro dessa vez.

Fim

Texto e fotografias de Rui Kalda

05/03/09

Ai os doces de Benfica


No meu tempo só lá paravam os betos. Mas eu resistia lá àqueles maravilhosos jesuítas. Que pastelaria é?

Os talhos de Benfica


São montras de recados, mensagens, sinais e outras coisas mais.
Adivinham em que local se situa ?

03/03/09

Memórias da Rua Dr. João Couto (2)

Anos 80. A rua ainda não atropelada de carros, dava espaço para todo o tipo de jogos e convivios. Podia dizer que era a nossa rua: mas melhor, a rua era NOSSA.
Inventámos um grito que ainda hoje alguns trocam como cumprimento e que na altura servia para nos anunciarmos. Em vez de tocarmos às campainhas e gritar pelos nomes uns dos outros para descer à rua para a tomarmos de brincadeiras, ouvia-se “Óóóóóótxxóóóí”. Era uma espécie de grito de alarme. “Jopu....óóótxóóóói”.



Quando não havia adversário, jogávamos uns contra os outros. E há um desses dias que para mim foi memorável. A mim como capitão de uma equipa coube-me a missão de escolher a minha equipa. Armado em defensor dos fracos e oprimidos escolhi, uma rapariga e os jogadores mais toscos, os putos e os habitualmente rejeitados. Era o nosso David contra Golias que até ao meio tempo levava a melhor por 1-0. A equipa estava a jogar tão bem que as pessoas que passavam começaram a apoiar-nos, especialmente as mães dos habituais enjeitados e numa janela que dava para o campo os irmãos gordinhos Gustavo e Gonçalo tatuaram o meu nome por baixo do parapeito enquanto gritavam o meu nome. Foi um dia à Viriato para mim, e nem os golos dos “bons...da bola” a repôr a “verdade do jogo“ me incomodou. Não sei até que ponto aquele dia moldou o meu carácter - o gozo na defesa dos indefesos. Esquecido o efémero episódio, durante duas décadas o meu nome debaixo da janela marcou aquele dia. Voltei lá há 4 meses para visitar a minha mãe: limparam o prédio e da arqueologia daquele dia só resta a memória. Falei em rapariga? A Rita. Loura e gira, um pouco maria-rapaz, desgraçou-me. Um dia gritou no campo: quem é do Sporting joga na minha equipa! Eu que na altura era do Liverpool FC, lá tive que mudar para os verdes, até hoje. Mas a Rita era um cometa centenário, porque a rua era dos rapazes que nos dias jogavam à apanhada, ao rei manda, às escondidas, ao “Alho”, à batatinha frita, ao guelas, à carica, ao cagalhão, ao pontapé no rabo*. A noite era guardada para os polícias e ladrões (um toque e era-se apanhado e levado para o “coito” onde homem-livre que lá entrasse salvava os reclusos) e indios e cowboys (“morria-se” com tiros à queima roupa). Os prédios castanhos e azuis perto da Lusa foram o palco destas aventuras.

Na adolescência, as arcadas dos prédios castanhos serviam como base às noites de conversa. Depois do jantar lá íamos nós pras arcadas. Raparigas? Acho que ninguém queria saber. Se alguma aparecia, logo boicotávamos de alguma forma de forma a manter a unidade masculina. Só existiam no mundo escolar e como temática garganeiras nas nossas conversas da rua.
As nossas casas eram autênticas portas giratórias de garotagem com a campainha sempre a tocar. Eu em casa do Timacói a jogarmos Spectrum, depois eu e o Ci em casa do Zegas onde formámos os “Apocalípticos & Integrados”, uma banda ainda por vingar com temas fracturantes como Tio Manel das barbatanas, Susana, Velha moralista ou Poema anárquico. Foi na JC que se formou a efémera Alegre Confraria, associação cultural e artística...que deve ter durado uma semana. Foi na JC que se fez o primeiro sistema de Tv Cabo em Portugal. Eu vivia por cima do João Filipe (Pipi) e uma noite ligámos pelo exterior os nossos videos. Por isso eu via o que ele via no video e vice-versa. Foi assim que vi o Mask com a Cher e o Killing Fields com musica do Mike Oldfield.

Foi na JC que aprendi a andar de bicicleta, foi a descer a calçada do 6 que tive a minha primeira explosão de alegria quando o meu pai me comprou uma bicicleta por 50 escudos. Foi na JC que se comemmorava o Sto António saltando fogueiras, que apanhei a minha primeira bebedeira com Pisang Ambon e onde a minha mãe teve que me ir buscar porque andava a envagelizar as pessoas da rua com uma biblia, onde comecei a namorar, onde....bem. Nem tudo o que se faz na João Couto é para contar, não é?

*O alho jogava-se com uma “mãe” encostada à parede com as mãos no ventre em concha aparando a cabeça de um elemento agachado como nas formações do rugby, só que em fila com 3-4 elementos de pescoços engachados nas virilhas do da frente e que formavam uma espécie de coluna vertebral humana. Quando a formação estava feita, cada elemento da outra equipa gritava: “Alho um!” e saltava para cima desta coluna, depois “Alho dois!” e assim por diante, com a regra de não poder tocar com os pés nas pernas dos enfileirados. A “mãe” encarregava-se de vigiar. Quando todos os alhos estavam montados em cima da coluna, esta mexia-se de forma a derrubar os alhos.

*O cagalhão era jogado em terreno aberto com pedras da calçada. O objectivo era atingir a pedra do outro. Podia-se jogar mais 2 vezes e na última vez bater com a pedra na pedra do outro para criar o máximo de distância. O perdedor tinha que percorrer a distância entre as duas pedras com o outro montado às cavalitas.

*Na batatinha frita, um corredor humano tinha que ser percorrido por alguém que procurava ver se não levava caldussos no cachaço. Regras: os do corredor não podiam mostrar os dentes ou verem os seus movimentos detectados, sob o risco de perderem e terem que percorrer o corredor.
*Pontapé era isso mesmo. Rapazes com o rabo encostado às paredes tentando pontapear os rabos uns dos outros.
continua...
Texto e fotografias de Rui Kalda

01/03/09

Que rua é?

Clicar para ampliar.

Memórias da Rua Dr. João Couto (1)


Desde que me lembro de mim, lembro-me da Rua Dr. João Couto (JC) e pouco mais, talvez as ruas limítrofes que me serviam de fronteira. Ir a Carnide era como ir às Canárias: remota, com pessoas estranhas, pouco familiar. Nas fronteiras da minha rua jazia tudo o necessário para se sobreviver: Externato Si-lá-Sol que já não existe na Reinaldo dos Santos, depois o Magistério Público onde hoje está a Escola Superior de Educação, a Pedro de Santarém agora C+S e a escola Secundária de Benfica, actual José Gomes Ferreira. Mercearias, o café Talismã, talho, carrinha ambulante do peixe, amoladores, mais tarde o Fonte Nova. Não precisávamos do mundo de fora. Tinhamos tudo naquele micro-cosmos.


Uma rua com personagens: a Tia Ató, a Velha da escarreta, o Corates, a Estrelicadinha, o Dell’Velhote, a Espalhanço, o Nhôco, os ciganos que viviam onde hoje é o metro do Colégio Militar e que nos atormentavam, o Aparício (era um tipo que estava sempre a aparecer), a cadela Lassie, sempre grávida, bem.....e nós, claro. Porque a história da JC é também a história dos miudos que nela habitavam. Construída nos finais dos anos 60 e habitada por jovens casais com vontade de procriar, pois só no meu prédio éramos 4 da safra de 1970, do prédio da frente mais 2, o resto era 1969, 1971, 1972. Consequência: acabávamos por calhar nas turmas uns dos outros da Secundária.
Mas esta rua, que na realidade também era uma praceta e onde à volta do prédio 4 se podia jogar à carica no lancil do passeio. Hoje em dia os lancis estão soterrados pelos carros estacionados.

Vizinhos do Eusébio (que morava na praceta rival com quem jogávamos futebol aos domingos de manhã), do Daniel Sampaio, cá morava o Toni do Benfica, a Mónica Marques que agora lançou “Transa Atlântica” o Miguel Viterbo que fundou as Produções Fictícias com o Nuno Artur Silva e o professor Calisto de Melo hoje insigne advogado e que na altura se dedicava à causa do desporto amador. Com apoio da junta, criou um parque infantil que ainda resiste à porta do 4, e um campo de futebol/basquete que os futeboleiros tomaram por um só.













Foi lá fundado o oficioso Grupo Desportivo de Benfica: eu, o Zegas, Jopu, , Bolinhas, Ci, Puto Estúpido, Gargaté, Jorginho, João Filipe, Nuno Anselmo, Vasquinho, Pitó, Joãozinho, Xaxa, Miguel Teixeira, contra a praceta do Tozé. E ganhávamos sempre.

Continua...

Texto e fotografias de Rui Kalda

27/02/09

São Domingos de Benfica ontem e hoje (1)

No início, ou no meu início era assim… não me lembro do letreiro a dizer « Laboratórios de Benfica », mas lembro-me destes portões e sobretudo do cheiro intenso a quimicos, que por vezes se fazia sentir, quando vinha da escola…

Depois o laboratório fechou e vieram as obras que deram origem a esta obra prima da arquitectura… passou-se um mês de Junho, um de Novembro, outro de Junho e cada vez que voltamos vemos este painel…

24/02/09

O que se ergueu aqui?

esta quase que merece prémio!


Pela T. soube do 1º aniversário do “Mercado de Bem-Fica” (no final deste post colocou uma brincadeira aniversariante, salut!) e isso trouxe-lhe à memoria que, quando por aqui falou da “Parreirinha do Chile”, prometera à J. que falaria de outras catedrais lisboetas de bifanas, a nadarem naquela molhanga, não se sabe de quanto tempo, bifanas mais a coser que a fritar, cenas eventualmente chocantes para estômagos sensíveis.. A ideia era o “Beira-Gare, pelas bifanas, mas também por um petisco da casa, prazer seu, gostosura de tantos dias que já correram.
Reuniu a equipa costumeira e lá se foi de armas e bagagens para o “Beira-Gare”, mas
ia-lhe dando uma coisinha má. Quando se pediram as sandes de isca com cebola, o empregado acenou lentamente com a cabeça, disse à turba que já não faziam. Perdeu clientela, disse, e continuou a explicar que mesmo bifanas só a malta velha, os novos já acham as bifanas um horror e voltaram-se para coisas que não fazem mal.
Agora ele diz para quem não saiba: no “Beira-Gare”uma sandes de isca com cebola era um “must” do colesterol. Isca frita com cebola bem refogada, ou esturgida, como dizem os minhotos. De as lágrimas começarem a correr, de prazer, cara abaixo. Dizia o Dudu, que quando se desse a primeira trinca numa daquelas sandes de isca deveria ouvir-se o “Hallelujah “do “Messias” de Haendel, sim uma imensa aleluia, júbilo por gostos únicos, talvez prazeres que matam, mas não andamos cá para outra coisa e o inferno é já ali.
Mas acabaram. Ficou assim meio sem graça a olhar para os compinchas, a sentirem-se órfãos perdidos, todos a concluírem, em silêncio, que o mundo como o conheceram e amaram está a desaparecer Decididamente estão a matar tudo o que de bom esta cidade tinha. Privam-nos destas coisinhas, causam-nos desassossegos, põem-nos tristes. Vão todos morrer com saúde. Tempo para lembrar o Bertrand Russel quando confessou que a última vez que tinha feito exercício físico foi para acompanhar o funeral de uma amigo seu que tinha morrido a fazer “jogging”, ou aquele provérbio irlandês: “life is a bitch… and then you die.”
Claro que atacámos umas bifanas, os fininhos costumeiros, mas nada daquilo soube ao que deveria saber. O fim das iscas com cebola, no “Beira-Gare”, estavam atravessadas na garganta.
Para sempre?

23/02/09

Um Ano de Mercado de Bem-Fica



Faz hoje um ano que o Mercado de Bem-Fica, com este post, abriu as suas portas. Um ano depois um post sobre o mesmo lugar, numa fotografia de que gosto muito tirada no verão passado. Fazendo um balanço, vários posts se sucederam ao longo deste ano, estórias, história, adivinhas, cores, imagens, recordações, tudo o que tinhamos "prometido"... Entrada de novos colaboradores, saída de uns, regresso de outros, o mercado vai mudando, crescendo.

A todos os leitores que por aqui têm passado e deixado as suas ideias, opiniões estórias e os seus conhecimentos um grande obrigado... como este é um mercado especial e com fregueses também eles especiais, as portas estão sempre abertas, em qualquer dia da semana e a qualquer hora do dia.

Voltamos a deixar o desafio lançado inicialmente, se tiverem estórias das freguesias de São Domingos de Benfica e de Benfica para contar podem tornar-se colaboradores deste mercado ou tão simplesmente enviar estórias, recordações ou episodios para o mail mercadodebemfica@gmail.com
, é com grande entusiasmo que os publicamos e que este blog ficará mais rico.

Para terminar um brinde ao mercado, aos seus colaboradores e visitantes com um vinho, que já tínhamos bebido
nesta ocasião, a condizer!


E vamos adivinhar...


Ainda vos lembrais? Onde era? Como se chamava?

Está provado cientificamente. Tentar adivinhar faz bem ao cérebro:)

Um ano

Foi graças a este espaço, que tive o prazer de conhecer a J. Há momentos de sorte na blogosfera e este foi um deles.
Agora que o Mercado faz um ano de existência, também nós comemoramos um ano de conhecimento e relembramos as comezainas do Verão e o prazer que foi conhecermo-nos irl, conjuntamente com outros amigos.
Longa e prazeirenta vida ao Mercado, porque esta é uma casa que privilegia a vida e as suas alegrias.