
Era perigoso passear em Benfica...
O Mundo, 4 de Maio de 1909










Acho que seria o lugar ideal para se fazer uma biblioteca e não sei se não terão posto essa hipótese…. Das bibliotecas municipais, a que fica mais proxima de São Domingos é a Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras… com uma casa para os livros tão bonita mesmo ali…


O Benfica é a sua mais velha paixão. Outras perderam-se, a maior parte esquecidas, mas a do Benfica persiste e arderá com ele, porque muito cedo lhe imprimiram o vermelho nas veias: o do clube e não só. “O Benfica foi, na ditadura, uma das poucas alegrias colectivas e o único vermelho tolerado, embora sob a atenuante de “encarnado”, escreveu César Príncipe.Esta era a horta do « meu » porteiro… lembro-me que tinha galinhas e alguns legumes, parece-me… hoje é um matagal, não sei a quem pertence o espaço, mas é possivel que acabe como o que está ao lado, uma espécie de armazém de carros ora novos ora desfeitos. Mas voltando ao porteiro, lembro-me de o ver muitas vezes aqui… outras vezes tornava-se invisível, pois entrava naquela casinha, que conseguimos ver à esquerda e ali ficava uma grande parte do tempo a arranjar malas e sapatos. Era a sua profissão, sapateiro. Só regressava a casa ao som da voz da sua esposa, a Dona Maria José, que ía à varanda e gritava « Mendes ! Mendes ! Ō Mendes » e lá vinha ele. Ouviamo-lo subir as escadas, às vezes ía parando em cada porta do prédio para entregar os sapatos que os vizinhos pediam para concertar, outras vezes ouviamos apenas o barulho da porta a fechar (vivier num prédio é assim, conhecemos o som de todas as portas)
Estas hortas (ou quintas) eram, para mim, misteriosas… a que hoje serve de depósito de carros, em tempos tinha um poço e lembro-me de vê-lo ainda. Lembro-me de umas pedras sobrepostas, como se fossem vestígios de casas que ali existiram em tempos… reza a história que naquele terreno morreu queimada, não sei se uma familia, se uma criança e desde então nunca mais aquele espaço foi ocupado…
Mas para a verdadeira história ficamos à espera da entrevista do Rui ao senhor da hora !
E hoje estive lá a ler paredes riscadas e a tirar fotos. Encontrei o Artur, o último sobrevivente e o puto Xaxa, que vai ser pai. Lembrámos algumas das histórias. Rimos.
E quando pensei que aquela rua não passava agora de um cemitério de memórias, afinal e no puro acaso, pode funcionar como um ponto de encontro improvável.
Hei-de lá voltar, a ver quem encontro dessa vez.
Fim
Texto e fotografias de Rui Kalda

Foi na JC que aprendi a andar de bicicleta, foi a descer a calçada do 6 que tive a minha primeira explosão de alegria quando o meu pai me comprou uma bicicleta por 50 escudos. Foi na JC que se comemmorava o Sto António saltando fogueiras, que apanhei a minha primeira bebedeira com Pisang Ambon e onde a minha mãe teve que me ir buscar porque andava a envagelizar as pessoas da rua com uma biblia, onde comecei a namorar, onde....bem. Nem tudo o que se faz na João Couto é para contar, não é?
*O alho jogava-se com uma “mãe” encostada à parede com as mãos no ventre em concha aparando a cabeça de um elemento agachado como nas formações do rugby, só que em fila com 3-4 elementos de pescoços engachados nas virilhas do da frente e que formavam uma espécie de coluna vertebral humana. Quando a formação estava feita, cada elemento da outra equipa gritava: “Alho um!” e saltava para cima desta coluna, depois “Alho dois!” e assim por diante, com a regra de não poder tocar com os pés nas pernas dos enfileirados. A “mãe” encarregava-se de vigiar. Quando todos os alhos estavam montados em cima da coluna, esta mexia-se de forma a derrubar os alhos.
*O cagalhão era jogado em terreno aberto com pedras da calçada. O objectivo era atingir a pedra do outro. Podia-se jogar mais 2 vezes e na última vez bater com a pedra na pedra do outro para criar o máximo de distância. O perdedor tinha que percorrer a distância entre as duas pedras com o outro montado às cavalitas.
Vizinhos do Eusébio (que morava na praceta rival com quem jogávamos futebol aos domingos de manhã), do Daniel Sampaio, cá morava o Toni do Benfica, a Mónica Marques que agora lançou “Transa Atlântica” o Miguel Viterbo que fundou as Produções Fictícias com o Nuno Artur Silva e o professor Calisto de Melo hoje insigne advogado e que na altura se dedicava à causa do desporto amador. Com apoio da junta, criou um parque infantil que ainda resiste à porta do 4, e um campo de futebol/basquete que os futeboleiros tomaram por um só.
Foi lá fundado o oficioso Grupo Desportivo de Benfica: eu, o Zegas, Jopu, , Bolinhas, Ci, Puto Estúpido, Gargaté, Jorginho, João Filipe, Nuno Anselmo, Vasquinho, Pitó, Joãozinho, Xaxa, Miguel Teixeira, contra a praceta do Tozé. E ganhávamos sempre.
Texto e fotografias de Rui Kalda