"Deste-me uma súbita vontade de comer uma delícia-de-morango, não no 'teu' Califa, mas na ‘minha’ Nilo, também em Benfica. Ambas foram dos mesmos donos, depois desavindos não sei porquê.
O comércio, situado sobretudo nas áreas baixas das freguesias, sofreu a entrada de água e lama nas suas instalações, inundando por completo os espaços abaixo do nível da rua, as caves.
Nos dias que se seguiram à enorme enxurrada, fez um sol maravilhoso. Quem percorria a Estrada de Benfica, no caso em apreço, via os passeios cheios de artigos encharcados e enlameados expostos em improvisados suportes de venda, separados do monte de material irreconhecível, composto por tudo o que as pás, os baldes e as mãos conseguiam tirar do interior dos espaços comerciais. A ocasião era de grande tristeza e de alguma solidariedade para com quem tinha sofrido prejuízos devido ao temporal. Assim, não parecia nada mal que estes artigos, salvos à deterioração completa na intempérie, estivessem à venda por preços manifestamente mais baixos, era negócio de ocasião, do tipo leve dez camisas pelo preço de uma só tem de as lavar. Livros molhados, mas com hipótese de ainda serem lidos, a preços incríveis.
Bom. A restauração, pastelaria, etc., usavam as caves com área produtiva. A Pastelaria Nilo confeccionava os seus bolos na cave.
Ficou-me marcado para sempre como caricato da situação que se estava a viver, e era catraio, que no dia seguinte às inundações, na Nilo havia bolos à venda, distinguidos da seguinte maneira:
Bolos de hoje; Bolos que se salvaram da inundação"
Miguel Gil































Sabem onde é que fazíamos as trocas?
1º - em frente à Igreja de Benfica, no início da Grão Vasco, numa pequena barraca (que também vendia policiais usados, e muito mais ...), junto à antiga praça de táxis (que tinha um telefone dentro de caixa de ferro, pendurada num candeeiro);
2º - em plena Estrada de Benfica, do lado direito de quem vai para lá, na zona da curva antes de se chegar à Gomes Pereira. Era o r/c de uma casa de habitação, cuja entrada estada adaptada a venda de revistas usadas.
Carlos Pessoa Domingos
Fotografia: Vendedora de livros e revistas junto à estação do Rossio, 1967, Sid Kerner.