02/02/13

Os mistérios do Palacio do Beau Séjour


No passado mês de Novembro, a revista Time Out dedicou um numero às "casas assombradas" de Lisboa. Entre os varios relatos, encontrava-se o Palacio do Beau Séjour e a sua cafetaria, fechada ha mais de um ano. Conta-se que por ali, as chavenas passeavam sozinhas pelas mesas e que alguns visitantes tinham sensações estranhas no jardim e em algumas salas do Gabinetes de estudos Olisiponenses. Uns dizem que é um disparate outros gostavam de fazer uma expedição ao lugar à procura de certezas de que existe uma realidade paralela.
Nas muitas vezes tardes que la passei, nunca assiti a nenhum fenomeno estranho. O jardim é uma lufada de ar fresco junto a uma estrada cheia de movimento e, as salas antigas, de tectos altos, são uma inspiração e a memoria edificada de Benfica de outros tempos... mas pelo sim e pelo não, pergunto se desse lado, das pessoas que frequentam ou frequentavam este espaço, ja alguém teve que ir à mesa do lado buscar a sua chavena de café? 

fotografia e texto retirados da revista Time Out Lisboa

14/01/13

Os Cinemas Fonte Nova



Depois de ter lido este artigo no publico sobre o livro "os cinemas de lisboa" de Margarida Acciaiuoli abri uma caixa onde guardo uma data de coisas antigas e descobri alguns bilhetes de cinema, entre eles, um bilhete do cinema Fonte Nova. Em 1989 ir ao cinema custava 330$ (1.65€ hoje parece quase absurdo). Nesta altura os bilhetes tinham cara  indicavam a que sessao iamos, a fila, o numero do lugar e quantos bilhetes ja tinham sido vendidos. Creio que a ultima vez que vim um filme no fonte nova foi Gainsbourg (Vie héroïque). Hoje os lugares já nao sao marcados, penso que por nao se justificar. O numero de pessoas na sala é tao reduzido que qualquer um tem lugar com boa visibilidade. Eramos poucos de facto nessa noite. De todas as salas de cinema em centros comerciais, as do cinema do Fonte Nova sao as minhas preferidas. Pela selecção, pelo cinema familiar, por nao haver pipocas (pelo menos nao tenho memória disso). 

Sabiam que este cinema é o que tem o bilhete mais barato, uma vez por semana, de todos dos cinemas de Lisboa? E sabiam que fazendo compras no Pingo Doce do centro comercial podem ganhar lugares para o cinema, ocasionalmente? (a confirmar em que alturas) 
Fico contente por saber que ainda existe e que faz o que pode para encher as salas, mantendo uma boa selecção.

11/12/12

Doopies & Coffee


fotografia daqui

Ja tinha ouvido falar no Doopies & Coffee e que tinha aberto uma loja em Benfica, mas entretanto arrumei esta informação a um canto e so ontem, quando um amigo me enviou um mail com a informação é que pensei que ainda não tinhamos falado deles aqui no Mercado de Bem-Fica. Parece que a Doopies & Coffee fica numa das partes mais antigas de Benfica, muito perto da igreja e ja tem fama de serem deliciosos e viciantes, com varias cores e sabores, pelo menos, é assim que os descrevem a Daily Secret Lisbon e acrescenta « estes doopies/doughnuts têm mesmo um segredo: são feitos no forno e não são fritos, o que faz toda a diferença. Sónia e Mónica Mascarenhas fabricam doopies non-stop das 8H30 às 20H30!”. E caso não possamos passar na loja, a Doopies faz entregas 

Desse lado, confirmam que é de comer e chorar por mais?

Estrada de Benfica, 685
1500-087 Lisboa * Benfica

09/12/12

Benfica esta a mudar!



Novas lojas vao aparecendo aos poucos e uma nova dinâmica no bairro deixa-nos com um sorriso nos labios. Hoje, de visita a blogues que espreito regularmente, fiquei a conhecer esta nova loja na Avenida Gomes Pereira. Chama-se Living Places & You e é uma mercearia que vende produtos alimentares portugueses e onde se pode beber café e trocar dois dedos de conversa. Fazem provas de produtos, workshops e entregas em casa (de bicicleta).


Ja temos o link aqui ao lado!

21/11/12

sapateiro

A loja do Sr. Abel Castanheira fica na Rua Rafael Duque — entre a Rua República da Bolívia e a Av. do Uruguai. É aqui que costumo trazer os meus sapatos e, com alguma frequência, muitos da minha filha para o Sr. Abel lhes dar um jeitinho. Para alargar a forma do calçado quando é necessário, para coser, engraxar ou remendar.
Para além dos serviços comuns de sapateiro, também já lhe pedi algumas vezes que substituísse molas e botões de metal, em calças e em malas, porque a retrosaria não o faz.



Eu sei, que os sapatos e as botas não duram para sempre, mas ao longo do tempo fui-me apercebendo que, infelizmente, existe calçado que é produzido de um modo a não permitir, nem facilitar o seu conserto.


O Sr. Abel trabalha aqui desde 1974, ano em que abriu a loja, e por curiosidade é a data que consta na máquina de coser quando a comprou para a sua oficina (imagem seguinte).



Em conversa com ele, explicou-me que tem todo o tipo de clientes, e o que lhe pedem mais são capas e remendos. Deixou de fazer muitos serviços, porque há quem diga que sai mais barato comprar um par de sapatos no bazar chinês – bazares que têm alastrado por Benfica enquanto o comércio tradicional mais antigo vai fechando.
Começou a aprender o ofício aos 7 anos, de manhã frequentava a escola e à tarde ia aprender a futura profissão com outro sapateiro que os seus pais conheciam. Foi assim até aos 15 anos, a partir dessa altura passou a exercer a profissão sozinho e finalmente a ganhar para si.



Sapateiro Sr. Abel Castanheira
Rua Rafael Duque 21B
Dias úteis: 9h00 – 14h00 / 16h00 – 19h00
Sábados: 9h00 – 14h00

30/09/12

Drugstore em Benfica

Mais uma mensagem que recebemos com um mistério a desvendar. 
Desta vez do Alexandre Santos-Rato. Alguém se lembra do nome desta drugstore?

Boa noite, Mercado

Nasci e fui criado em Benfica. Um dia destes com amigos de infância surgiu uma dúvida (que rapidamente transformei em teima) sobre o nome do Drugstore da esquina da Est de Benfica com a Grão-Vasco ; com uns a dizerem que se tratava do Drugstore 78,outros 77 e,um até a dizer 79. Pessoalmente não pretendo dizer agora o ano que apontei,por recear vos induzir em erro,visto que preciso da vossa ajuda : Drugstore quê ? 
Um abraço AR

A estatua do cao e da menina, na Praça Teixeira Aragao

O Mercado de Bem-Fica recebeu um mail do leitor Bruno Lemos.
Se conhecerem a "estoria" desta estatua nao hesitem a partilha-la aqui connosco ou na pagina Facebook:


Olá,

Estou a fazer uma pesquisa sobre o passado da estátua do cão e da menina na Praça Teixeira Aragão, perpendicular à Av. Gomes Pereira.

Após visualizar todo o seu blog, com muito gosto pois vivi 24 anos em Benfica, consegui alguns dados. A estátua chama-se "Fidelidade" e data de 1958, obra de Júlio Vaz Júnior. Ora, reza a lenda, na minha infância que aquela estátua tinha sido dedicada por um pai ao cão que tinha salvo a filha de afogamento. Algum dado que possa acrescentar a esta "estória"? :)

22/09/12

Outono em Benfica



hoje começa o outono e, de manha, quando pensei nisso lembrei-me imediatamente de uma musica que aprendi na cebe e que cantavamos na escola... ah! a rentrée nesta escola... tudo era acolhedor, tudo era maravilhoso. os cheiros, os amigos, a professora, o recreio, o pao com manteiga de manha, a saladeira repleta de maças à tarde, as bolotas, os frutos de eucalipto. para uma memoria guardar estas palavras tanto tempo tendo-as reproduzido tao raramente desde os 7 anos é porque sao palavras-memoria, palavras-coraçao... talvez haja pequenos enganos, mas foi assim que cantei, hoje, quando pensei "é outono"

"vem o outono de branco e com sono
que se intromete
por dentro do verão

e, na sombra do suave clarão
rompe uma tempestade
é o outono 
que vem com sono
e espirra rezingão"

se alguém desse lado se lembrar desta musica que levante o braço e quem nao se lembra  que levante o braço na mesma, para sabermos que estao ai.

um outono bonito a todos os que por aqui passam!

22/07/12

os scones do beau séjour

hoje de manha fiz scones e lembrei-me do beau séjour.



eu devia ter uns dezasseis anos e decobri o palacio, os jardins e a cafetaria do beau séjour. a cafetaria do beau séjour, na altura era completamente fora daquilo que estavamos habituados dos cafés e pastelarias portuguesas, tinha um estilo diferente e na lista tinha coisas originais. costumava passar por la depois das aulas onde me encontrava com outros amigos que viviam na zona. ficavamos sentados na esplanada nos dias de sol e la dentro nos dias de inverno. mas la dentro, as mesas eram muito pequeninas e apertadas. a cafetaria manteve sempre o mesmo aspecto, excepto no facto de recentemente ja nao ter a loiça do bordalo pinheiro em exposiçao e para venda. é isso mesmo, nos primordios da abertura da cafetaria, havia um movel no lado esquerdo, entre as duas janelas, recheado de peças do bordalo pinheiro e, la fora, nas mesas da esplanada, os cinzeiros também eram dele. a descoberta dos scones foi uma coisa maravilhosa e desde entao so tinhamos boas razoes para passar as tardes ali. este mês de maio voltei ao beau sejour. pensei que muitas vezes esquecemo-nos dos sitios bonitos que temos ao pé de casa e nao os aproveitamos. para contrariar isso, pus-me a caminho do palacio e parecia que toda a gente tinham ido de férias. os tapetes arejavam ao sol e a cafetaria estava fechada. nao sei se para férias se para sempre. quero muito acreditar que seja a primeira. fiquei parada em frente à porta a pensar "e agora" como se fosse aquele o ultimo café de benfica ou como se fosse aquele o mais bonito espaço para beber café em benfica. fiquei desorientada e pus-me numa sessao de cliques aos tapetes... aquele espaço ao mesmo tempo tao calmo e tao abandonado... e tao cheio de potencial...
vim-me embora a pensar nos dias cinzentos e na mesa junto à primeira janela, quando se entra, à equerda. quantas vezes estive ali sentada a comer scones e a ver a chuva cair la fora...

01/07/12

Uma Cena Infantil no Palácio Marquês da Fronteira e Alorna

Com 4 anos de idade, o Marquês de Fronteira e Alorna empreende uma viagem de Benfica ao Palácio de Mafra para ser apresentado ao futuro rei D.João VI



excerto do artigo de Rogério Fernandes, Notes About Children´s , publicado na revista
Educação e Pesquisa, São Paulo, v 26, nº1 p 87-97, Jan-Jun 2000

(adaptação livre do texto para português de Portugal )


" A narrativa auto-biográfica, do mesmo modo que outros ego-documentos, constitue uma das fontes mais ricas para a reconstrução histórica do passado infantil dos adultos. Perante os silêncios sem história das crianças que somos, é preciso recorrer às memórias vivas das crianças que fomos.
A infância do Marquês de Fronteira e d’Alorna parece ter deixado traços muito vivos na sua memória. Nascido em 1802, ficou órfão quando estava prestes a completar cinco anos. Sendo impossível entregar a sua tutela à avó materna, a Condessa d’Oyenhausen, futura Marquesa de Alorna, pelo facto de se encontrar exilada em Inglaterra, receberia esse encargo um dos seus tios, o Marquês de Belas. Este, recorda o Marquês de Fronteira e de Alorna, graças às influências de que dispunha no Príncipe Regente, o futuro D. João VI, consegue que "eu, seu pupilo primogénito, fosse agraciado com os títulos da casa de meus antepassados, bens da Coroa e direitos banais que a mesma desfrutava, os quais rendiam para cima de 14 000$000 r [éi]s. por ano" (Alorna, 1926, p.6).Para tanto, era necessário que a criança, apesar de ter menos de cinco anos, se dirigisse a Mafra e fosse apresentada a Sua Alteza. Depois dessa formalidade, todos os direitos ficavam reconhecidos e os Fronteira e Alorna podiam continuar a beneficiar sem sobressaltos da sua considerável fortuna.
O que vai ser essa deslocação a Mafra a partir do palácio de Benfica onde o jovem órfão vivia, assim como a própria cerimónia de que seria protagonista, é descrito pelo Marquês com um admirável senso de discreto humor. Em primeiro lugar, a evocação do veículo e da ocupação do seu espaço interno, de que seguramente a parte menos cómoda era a que cabia ao herdeiro primogénito dessa grande casa:
Saí de noite de Benfica, meio a dormir, em uma sege, acompanhado por um íntimo amigo de meu Pai (…) e por Mr. Fabre, meu guarda-roupa, emigrado francês.
A jornada, segundo as minhas reminiscências, não foi das mais cómodas. A sege, uma das mais antigas de meu Pai e talvez de meu Avô, feita naturalmente de propósito para estas viagens, era estreita e não oferecia outra vantagem, além da sua solidez, para resistir aos baldões dos péssimos caminhos (…).
Os meus companheiros ocupavam uma boa parte do veículo, não só porque eram bem fornecidos de carnes, mas porque iam embuçados em grandes capotes; e o resto ia por tal forma cheio com as condeças e sacos com a minha toilette de Corte e com as grandes latas de gulodices que o velho copeiro de meu Pai (…) para ali tinha metido, que pouco espaço ficava para me assentar, indo por isso quase sempre no colo de um deles
.
Se as condições no habitáculo eram já de si mesmas altamente incómodas para a criança, esta situação negativa agravava-se pela velocidade a que se conduzia o veículo. Ela tornava-se tanto mais perigosa quanto eram eivados de perigos os desvios e inclinações da estrada, designadamente na ladeira de Cheleiros, ainda hoje caracterizada por uma encosta muito acentuada. Assim recorda o Marquês de Fronteira e de Alorna, não sem alguma imprecisão, o acidente ocorrido durante a viagem:
Naquela época era moda o viajar a toda a brida e, embora os amos quisessem o contrário, os bolieiros não obedeciam: o cavalo da sela conservava-se sempre a galope, enquanto o das varas ia a trote rasgado. Nestas viagens a Mafra aconteciam muitas vezes desgraças terríveis. Na descida de Cheleiros caiu-me o cavalo das varas, escapando eu por milagre de sair pela sege fora, e ficar talvez morto. Este acontecimento atrasou alguma coisa a jornada e não me lembra o meio de que se serviram para a podermos continuar.
Uma vez em Mafra, é recebido com todo o desvelo pelos empregados da Casa Real, que guardavam excelente memória de seu Pai e lamentavam a sua morte prematura. Mas os direitos psicológicos da criança, por assim dizer, recuperam o seu lugar e logo a partir desse momento fazem-se ouvir sem mais inibições:
Logo que cheguei, entrei a gritar pelas criadas que tinha deixado em Benfica e, apesar dos esforços que empregavam e promessas que me faziam, não podiam socegar-me.
Os adultos iniciam então uma estratégia de sedução da criança, a fim de a persuadirem a aceitar as convenções do lugar:
Levaram-me ao colo para o quarto de outro tio que residia na Corte e era então Ministro dos Negócios Estrangeiros (…) e aí, depois de grandes promessas, presentes de bonitos e muito doce, conseguiram despir-me o fato de viagem, um pouco original (pois era um chapéu cinzento com grande laço azul e encarnado, um baju verde com alamares de oiro, grandes folhos caídos na camisa, calções de veludilho preto com grandes laços brancos caídos, meias cor de carne, e sapatos com laços brancos) e vestiram-me à Corte.
A parte mais trabalhosa do serviço coube naturalmente a Monsieur Fabre, o francês exilado que ganhava a vida como guarda-roupa do pequeno Marquês. Ele próprio o confessa ao escrever:
Foi isto negócio difícil para o meu guarda-roupa, porque, tendo eu o cabelo comprido e anelado, e sendo preciso pôr uma cabeleira empoada e de rabicho, não como a do grande Marquês de Pombal, mas do mesmo género, ainda que em miniatura, eu, a quem ela incomodava, queria a todos os momentos tirá-la, correndo assim o risco de se perder o trabalho que o cabeleireiro tivera em Benfica para arranjar aquela obra.
O infantil rebelava-se, pois, contra o convencionalismo dos adultos, incapazes de medir as distâncias entre os dois universos em presença. Tal rebelião manifestava-se em todas as oportunidades:
A muito custo conseguiram acomodar-me. Vestiram-me uma camisa com grandes punhos e bofes de renda de França, um pescocinho branco apertado por uma fivela de aço, uns calções de veludo preto com fivelas de aço e laços pretos, meias de seda branca, sapatos pretos com grandes saltos encarnados e abotoadura de madrepérola, espadim com copos de aço, e chapéu elástico de plumas brancas.
Assim vestida e armada, a criança com menos de cinco anos entrava no mundo da ficção adulta sem que pudesse, nessa época, descodificá-la. Ele próprio o confessa ao revelar como galgava de um ápice até ao topo a escadaria das hierarquias nobiliárquicas:
Nunca fui ao Paço sem espada, porque nunca fui Moço Fidalgo, tendo gozado, desde a idade de cinco anos, as honras de Grande do Reino.
Havia, no entanto, que consumar a cerimónia de iniciação que no Paço de Mafra se representava. À distância dos anos, o Marquês de Fronteira evoca-a com um sentimento irónico, na sucessão de terrores em que ela se constituiu:
Conduzido por meu tutor e tios, encaminhei-me para a sala de recepção do Príncipe Regente, sendo acompanhado pelos meus dois companheiros de jornada até onde a etiqueta da Corte lhes permitia, mas, apenas os perdi de vista, desatei num berreiro de choro, sem querer seguir por diante, gritando por meu irmão de quem nunca me tinha separado, e por Mr. Fabre, meu guarda roupa. Logo que avistei S. A., tremi de medo, tal foi a impressão que me causou a sua fealdade, mas, conhecendo quase todos os que o cercavam, porque ou eram meus parentes ou amigos de meu Pai, tranquilisei-me.
A cena vai atingir o seu vértice cómico e equívoco, precisamente no acto seguinte, rememorado nestes termos:
Sua Alteza costumava fazer sempre a mesma pergunta às crianças que, na minha posição, lhe eram apresentadas, e era ela: Para que lhe serve a espada que traz à cinta? Meu tio tinha-me ensinado a resposta que eu, à força de me ser repetida, decorei, e, quando S. A., segundo a etiqueta, me fez a pergunta, respondi de pronto: Para defender a V. A.! O Príncipe nem para mim olhou, e estou hoje convencido de que nem ouviu a minha resposta.
Logo que respondi, gritei por Mr. Fabre, e S.A., persuadindo-se de que eu tinha levado comigo um frade, disse para meu tio: Chamem o Frade! Meu tio disse-lhe que era pelo meu guarda-roupa que eu chamava e que não era frade.
Esta atmosfera burlesca envolve a cena capital em que a criança, travestida de adulto e transportada para um mundo adulto mas fictício, recupera os direitos à sua própria infantilidade. "

29/06/12

A música de Carlos Paredes



Durante uma parte dos anos setenta e inícios dos 80, nos meus verdes anos,  Carlos Paredes o guitarrista que "amava demais a música para viver dela" viveu na Estrada de Benfica no nº 403, mesmo em frente ao Largo Conde de Bonfim. 
Era com admiração que o via sair de casa, com o estojo da sua guitarra portuguesa e apanhar um táxi, imaginava eu para  um ensaio ou para um espectáculo, ou para a Liberdade...  Dizia-se que trabalhava num hospital a arquivar radiografias, uma espécie de Fernando Pessoa a trabalhar no escritório do Vasques.
 Por vezes em curtos passeios nocturnos não se coíbia de se aproximar da malta adolescente se lhes via nas mãos uma viola, queria saber que músicas tocávamos e gostávamos. Era uma época em que se ouvia a música tradicional portuguesa chamada de intervenção, a par dos grupos de rock anglo saxónicos, ainda não havia muito a educação para escutar com atenção a música instrumental, no caso de Paredes, com instrumentos próximos de um Fado ainda não re-inventado.
Durante varios anos tive em casa uma cassete, gravada por cima de outra música qualquer e sem caixa, com música de Carlos Paredes, sei agora que era o LP Carlos Paredes, Guitarra Portuguesa  de 1967; tocou muitas vezes no meu rádio gravador "Hitachi", que comprei com um dinheiro que herdei de meu avô materno, Francisco.


15/05/12

Rodando pela estrada de benfica ....a caminho de Sintra

" Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara sempre muito de Sintra...Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma vaga ideia de grandes rochas e nascentes de águas vivas...E terminou por confessar que desde os nove anos não voltara a Sintra. O quê ! o maestro não conhecia Sintra? Então era necessário ficarem lá, fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos Amores, barquejar na Várzea...
-- A mim o que me está a apetecer muito é Seteais; e a manteiga fesca.

-- Sim, muita manteiga -- disse Carlos. --E burros, muitos burros ... Enfim, uma écloga!
 O break rodava na Estrada de Benfica: iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu maço de cigarros à porta dependurado de uma guita: e a menor árvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de colina verde, encantavam Cruges. Há que tempos que ele não via o campo! "

in Os Maias, Eça de Queirós
Biblioteca Visão, vol 1

foto http://jorgesilva.fotosblogue.com/7785/Estrada-de-Benfica-1889/

02/05/12

São Domingos de Benfica na Agenda Cultural de Lisboa


Este destaque sobre São Domingos de Benfica já saiu na Agenda Cultural de Abril. Sobre muitos destes sítios já se falou aqui no Mercado: sobre o Arabesco, o Palácio Beau Séjour, a Casa da Selva ou a Casa do Cavaleiro à Porta.
Mas ainda há muito mais a conhecer: eu, por exemplo, não conhecia a Quinta Nova da Conceição!

28/04/12

25 de Abril na estrada de benfica

Em 25 de Abril de 1974 acordei a ouvir minha tia avó na altura com 71 anos, dizer à minha mãe que as revoluções deixavam tudo na mesma, ela que já tinha vivido a queda da monarquia e todas as convulsões da 1ª Republica . A minha mãe recebera logo de manhã, antes de sair para o trabalho um telefonema de uma sua comadre que acedia a informações directas do cunhado, controlador aéreo do Aeroporto da Portela, que ficasse em casa e se abastecesse de alimentos, não se sabia se seria preciso.
Nesse dia aprendi junto à rádio com meu pai o que queria dizer  a palavra "eufemismo", como é que "Direcção Geral de Segurança" tinha substituído e se referia à "PIDE".  E também aprendi em "Curso Acelerado De Todas As Coisas Que Não Sabia Porque Quase Ninguém Falava" o que significava PIDE.
Sei que nesse dia a minha mãe se foi abastecer num supermercado na rua Padre Francisco Alvares, o meu pai levou-me depois do almoço ao Liceu D.Pedro V para se ver que não havia aulas, depois ele seguiu para a Gulbenkian para ver também que não havia congresso . Mas na Estrada de Benfica haviam cravos e pessoas que se saudavam  com alegria com nunca antes vira. No dia 26 de Abril, vindo do liceu e depois de ter percorrido toda a zona arrelvada no centro da praça de Sete-Rios em direcção à estação do metropolitano e às paragem dos eléctricos percebi uma concentração de pessoas que se apinhavam , junto a uma casa apalaçada, nº 241 da Estrada de Benfica.  Acerquei-me juntando-me à multidão e fiquei a saber que a casa era a escola técnica da PIDE; os militares estavam a capturar pides, e estes chegavam escoltados e muito  acossados pelas pessoas que se amontoavam mas lá entravam a salvo e a custo no edifício. Um pouco mais tarde, no largo onde eu morava em São Domingos de Benfica, a minha vizinha do lado  lançava impropérios ameaçadores da varanda quando percebeu que os militares iam buscar alguém da Legião Portuguesa, o vizinho do prédi em frente e a fúria fê-la descer num ápice do 3º andar à rua.  
Nessa tarde percebi que os militares, não eram bárbaros . Em minha opinião, é por isso que  podemos explicar ainda hoje o 25 de Abril aos nossos filhos e aos nossos netos, e eles querem saber, porque precisamente ainda lhes chegam esses ecos. E podemos lançar e apanhar os cravos !
cartaz

Vieira da Silva / sem data in

25 de Abril 30 Anos 100 Cartazes

Diário de Notícias

17/03/12

Peça de colecção O Benfica Ilustrado


O BENFICA ILUSTRADO era revista muito atractativa para mim quando criança, o meu pai não a comprava mas eu encontrava-a em casa do meu avô. Como revista que era, tinha uma visualidade diferente do jornal, especialmente as capas com fotos a cores em formato grande dos meus ídolos do futebol. A primeira revista saíu em 1 de Outubro de 1957,como suplemento mensal do jornal O BENFICA , o número avulso custava 3 escudos e 50 centavos e saíu ininterruptamente até Setembro de 1966, altura em que foi suspensa porque as despesas eram superiores às receitas. A capa do Número 1 da revista é feita com Maria Helena Farelo campeã de ténis de mesa na equipa de senhoras.

23/02/12

4 anos de Mercado de Bem-Fica

O Mercado de Bem-Fica faz hoje 4 anos. Tem tido menos posts é certo, mas queremos continuar a contar coisas e queremos que todos os que moram ou morarem em S. Domingos de Benfica e Benfica venham também aqui contar.


Uns com menos tempo, outros longe outros com menos vontade de sair à rua, mas continuamos aqui, e eu mesma, apesar de um bocadinho (grande) hibernada continuo a acreditar neste espaço e espero que desse lado também!


Parabéns mercadores e fregueses!

07/02/12

Por aqui também se namora




Ainda não conheço o espaço, mas a sua presença no programa "Enamorados por Lisboa" chamou-me à atenção. Ora vejam:
Quiosque Alfacinha de Gema (Parque do Bensáude)
11 de Fevereiro, 15h : Workshop Feitiços de Amor

Receitas de feitiçaria e encantamento. Organização: Jessi Leal, autora do livro SEGREDOS DE UMA FEITIÇEIRA

12 de Fevereiro, 15h: Workshop 1+1 =3

A fórmula perfeita para uma relação a doisConversas sobre experiências vivenciais nas relações humanas e amorosas. Organização: Cristina Leal, autora do livro "Entre Nós"

18 de Fevereiro, 15h; Serenata Ensemble, Música no Parque

Orquestra de Flautas do Conservatório de Lisboa. Enseble de Música de Câmara do Conservatório de Lisboa

Alfacinha Love Jazz

Coro Glee Jazz do Conservatório de Lisboa. Organização: Conservatório de Lisboa

19 de Fevereiro, 15h: Alfacinha Love Jazz

Combos de Jazz da escola de Jazz do Conservatório de Lisboa. Organização: Conservatório de Lisboa

Mesmo que não seja para estas actividades, o parque vale bem a pena uma visita e namorar (por enquanto) ainda é gratuito!

A fotografia é da página do Facebook do Quiosque Alfacinha de Gema

05/02/12

"A Colmeia"

A Colmeia é uma pastelaria com presença antiga na Estrada de Benfica. Ia lá algumas vezes com meus pais há 40 e tal anos e recordo-me de uma das "noites triunfais" da minha infância quando no Carnaval aproveitei uma distracção de todos para lançar a confusão generalizada com um estalinho estrategicamente lançado do meio da sala, originando o grito assustado de uma flausina que usava o telefone público, o salto do meu pai a fazer com que entornasse na camisa a bica que bebia ao balcão. A Colmeia foi remodelada e reabriu há uns meses e tal como eu, outros clientes actuais e antigos assomaram-se na altura à porta para espreitar as alterações. Gostei do que vi e entrei , chamaram-me a atenção as gavetas em madeira com janela de vidro para guardar biscoitos, chocolates, como nas confeitarias tradicionais, os armários e especialmente os lustres no tecto criando uma luminosidade "quente" como de uma casa de chá. Pedindo autorização para tirar umas fotos, foi oportunidade para conhecer o novo proprietário srº Paulo Mendes, que me esclareceu ser o ano de 1957 o da inauguração da Colmeia. Infelizmente estas remodelações actuais, já não conseguiram encontrar vestígios dessa época inicial mas nota-se a ideia de recrear o ambiente caloroso dos antigos cafés em que apetecia estar, havia uma clientela fiel e uma vivência humanizada ligada ao bairro. Numa segunda visita, desci os degraus para a sala de cave, aproveitada para sala de refeições e não me surpreendi por encontrar nas suas paredes quadros com cópias de fotografias antigas da Estrada de Benfica.

Pastelaria Colmeia
Estrada de Benfica, 319-A
1500-075 Lisboa

13/01/12

20/12/11

A Garrafeira São João


O Natal está mesmo aí à porta e, mais do que em qualquer data do ano, é altura de pretextos para almoços e jantares com a familia, com os amigos e para a troca de presentes. Na minha familia decidiram que no Natal se fazia assim: os rapazes levam as garrafas de vinho, as raparigas tratam dos doces e os anfitriões ocupam-se do jantar. Gosto dessa ideia da partilha de tarefas natalícias. Parece que há um cuidado especial na escolha das bebidas e das sobremesas e na confecção da comida para essa noite.
Há pouco tempo atrás, tivemos um jantar e queriamos ir à loja Gourmet do Fonte Nova, que tem um funcionário super simpatico e profissional, para comprarmos uma boa garrafa de vinho. Estavamos no trânsito a caminho do centro comercial quando paramos na fila, precisamente em frente a uma garrafeira na Rua Professor Reinaldo dos Santos. Estavamos a olhar para ela pela primeira vez e decidimos ir lá espreitar. É certo que é um local diferente da Gourmet do Fonte Nova, é um lugar que se situa entre a loja e o armazém. Já tinhamos uma ideia do que queriamos comprar, mas perante a surpresa de tamanha escolha optamos por experimentar novos vinhos pelos bons conselhos de uma das senhoras da loja. Pensamos que realmente era uma boa ideia haver uma garrafeira em Benfica que, embora esteja bastante escondida, já ali existe há 5 anos. Lá dentro têm todo o tipo de bebidas alcoolicas (excepto cervejas) e foi assim que acabamos por sair de lá com 3 garrafas de vinho e ainda compramos um favaios para termos em casa. Ficamos perplexos com os preços. É que apesar de ser uma loja/armazém de rua têm preços mais baratos do que nos supermercados mais em conta. Pensamos que seria uma boa opção passarmos a comprar ali as bebidas: várias possibilidades de escolha, preços acessiveis e atendimento personalizado e nós a contribuirmos para que o comércio de rua não desapareça.
Por isso, se estão por Benfica ou São Domingos de Benfica, se têm almoços e jantares, se querem oferecer um presente ou comprar boas bebidas para terem em casa, vale a pena dar um salto à Garrafeira São João.


Um bocadinho de historia aqui e a fotografia foi retirada daqui