02/03/08

Vamos à Mata?



Foi, talvez, a pergunta que mais vezes coloquei em criança.



"Candeeiros de Lisboa no Parque Silva Porto" (1944) - Portugal, Eduardo, 1900-1958,
in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa



A Mata era (e ainda é) o Parque Silva Porto, no final da Av. Grão Vasco, onde todas as crianças da minha idade passavam as tardes da sua meninice.

Acompanhada pela "Amiguinha" (a porteira dos meus avós, de quem nunca soube o nome, por apenas a conhecer sob esta forma mais carinhosa. Com ela passei os dias, até aos 3 anos, enquanto a minha mãe e os meus avós não chegavam do emprego), subíamos aquela colina íngreme rodeada de árvores gigantescas, até alcançarmos o seu cume, onde, qual tesouro escondido, se encontrava o parque dos balouços...



"Esplanada do Parque Silva Porto" (1956) - Serôdio, Armando, 1907-1978,
in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa



Há uns bons 20 anos que não entrava na Mata, apesar de, actualmente, até residir muito perto dela.
Ouvira alguém dizer que a Mata já não era a mesma, jazendo agora votada ao abandono.
E parece-me que, inconscientemente, sempre tive um certo receio inexplicável de lá voltar... Como se soubesse, antecipadamente, que, ao ultrapassar aqueles portões com 32 anos, iria quebrar a magia que aquele lugar comportava nas memórias sobre a minha infância.

Esta manhã voltei a entrar na Mata de Benfica...



"Parque Silva Porto na Avenida Grão Vasco" [ant. 1951] - Novais, Horácio, 1910-1988,
in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa



Mas a Mata já não é a mesma!...

As distâncias que, outrora, pareciam incomensuráveis estreitaram-se e, num instante, alcançamos o cume da colina mágica.
Quando começamos a subir, é que constatamos que a colina parece mesmo encontar-se abandonada num limbo isolado, onde os risos e gritos das crianças deixaram de existir.
Durante a infância da minha mãe, a Mata era habitada por uma variedade enorme de animais, que se passeavam por entre os visitantes. No meu tempo já não era assim, mas ainda existiam os cisnes, patos e peixes que habitavam o "Lago do Monstro que jorra Água", à frente do qual ficávamos durante largos minutos a admirá-los e a atirar-lhes migalhas do miolo das sandes dos nossos lanches. Os cisnes desapareceram ou foram substituídos por pombos moribundos e dos patos que ainda ali permanecem quase se diria terem perdido a cor e graça.

Quando entramos no Parque Infantil, então, recebemos a estocada final no que restava da criança que vivia dentro do nosso coração...
O Parque, que antes era imenso e comprido, evaporou-se, como que por artes de um feiticeiro diabólico!
Os dois balouços com os espaldares muito elevados (o que fazia com que as cordas que os fixavam dessem mais balanço) - onde longas filas de crianças se formavam aguardando a vez de o poderem utilizar -, foram substituídos por uma piscina... também ela votada ao abandono e esquecimento.
Todos os outros balouços mais pequenos e os restantes brinquedos que rodeavam o parque e o seu terreno arenoso foram, agora, substituídos por equipamentos do último modelo, com piso sintético especial para as crianças não se magoarem muito nas suas quedas.

Do parque da minha infância, apenas permanece a Casa da Torre (com um colorido mais vistoso), onde a senhora de bata cinzenta fazia a vigilância e cuidava os ferimentos das crianças.
Mas a senhora da bata cinzenta deixou de fazer tricot à porta da Casa da Torre. E no parque, esta manhã de sol imenso, apenas uma criança brincava com a sua mãe.




E durante todo o tempo que ali estivémos, para que eu fotografasse a Mata, não me conseguiam sair do pensamento as "toneladas" de grãos de areia com que os meus sapatos chegavam a casa, depois de ter passado a tarde na Mata com a Amiguinha... e a grande cabeçada que, um dia, dei num dos ferros de um balouço horizontal.

Eram outros os tempos... Podíamos não ter Kgs. de brinquedos, mas a simplicidade de uma ida à Mata era o suficiente para nos deixar muito felizes.


Mais fotografias aqui.




16 comentários:

J. disse...

alexa, que coincidência... ainda hoje pensei na mata de benfica e nas recordações que tenho dos que lá passei... não me lembro deste portão, quando eu ía à mata entrava pelo bairro do calhau e não me lembro de haver porta (ou portão). lembro-me de ir lá imensas vezes e de fazermos gincanas, quando andava na cebe... e entre as várias coisas boas que por lá encontravamos, a mata para nós era um verdadeiro mistério...

também tenho que lá voltar...

obrigada por estas fotografias que fazem pensar em TANTAS coisas TÃO BOAS...

T disse...

Belo trabalho fotogáfico e texto à altura do mesmo:)
Parabéns!

Lena Pombinho disse...

Alexa: Que bonitas fotografias tiraste.
Há muitos anos que não vou à mata, mas quando o meu filho era pequeno fui lá com ele algumas vezes e já senti diferenças, principalmente lá em cima onde as crianças brincavam. Tão diferente de quando eu era miúda.
E a esplanada... como isso está...é uma pena. :( Lembro-me dessa esplanada cheia de gente e era um sítio tão agradável.
Bolas, que tristeza !
Bjs. Lena

Alexa disse...

J. - devemos mesmo ter tido uma transmissão de pensamento (é o que dá este blog em parceria, que tanto gozo nos está a dar a ambas ;)
Essa entrada pelo Bairro do Calhau não conheço.
Mas o que conta são mesmo os momentos que lá vivemos, não é?!


T. - antes de mais, muitíssimo obrigada pelo link do Arquivo Municipal!
Sem ele não conseguiria ter tido imaginação para produzir este excerto de memórias :)
Muito obrigada, também, pelas palavras amigas!


Lena - as memórias que tens da Mata de Benfica devem ser muito semelhantes às da minha mãe (vocês são da mesma geração e, se calhar, até se cruzaram por lá :)
Infelizmente, segundo me contaram, a Mata já esteve bem pior do que está agora! A parte das crianças estava tambem votada ao abandono e parece que foi recuperada há pouco tempo.
Pena, de facto, que não se faça mais por este espaço tão bonito e que tantas lembranças queridas trouxe a tantos de nós!

Bjs

Lena Pombinho disse...

Alexa: Muito provavelmente até nos cruzámos mesmo :)

Não conheço o Bairro do Calhau nem nunca ouvi falar. Como entradas na Mata, só conheço a principal pela Av. Grão Vasco e outra entrada lá em cima junto a uma escola/e casas do Bairro de Sta. Cruz (que ficam perto do Circulo de Leitores).

Bjs.

J. disse...

alexa: e olha que está mesmo a dar-me muito gozo... mas já me restam poucas fotografias (ou quase nenhuma mesmo... se calhar uma) "home made". ainda bem que a t. nos deu a conhecer o arquivo municipal... de qualquer forma tenho que ver se se arranjo um fotografo substituto... se calhar um dia destes tu e ele ainda dão um encontrão ;)

t: a nossa alexa é mesmo uma paparazzi exemplar ;)

lena: o bairro do calhau é o bairro que fica ao pé do palácio fronteira, penso que essas casas ainda existem e acho que o bairro ainda se chama assim... talvez haja a mata de benfica e a mata de s.domingos e se calhar são separadas... nesse caso só conheço a mata de s.domingos... lembro-me da última vez que lá fui, há muito tempo, havia uma espécie de café (se calhar é a esplanada de que falam) que estava completamente ao abandono...

se entreanto as coisas mudarem podiamos lá fazer um lanche do mercado de bem-fica e se não mudarem e não houver esplanada fazemos um pic-nic... ;)

T disse...

Existe o Baorro do Calhau sim. E agora o Parque do Calhau que é muito engraçado . Bom para piqueniques.

Alexa disse...

J. - já consegui esclarecer a dúvida através da internet!
O Bairro do calhau fica perto da Mata de S. Domingos de Benfica, que deveria ser onde tu ias em criança.
No entanto, esta Mata de que aqui falei não é a mesma. Esta fica em Benfica perto do Bairro de Santa Cruz.
Bjs

J. disse...

;)

é essa mesmo... então a mata que eu conheço é a de s.domingos de benfica...

Cecilia disse...

j. - Em miuda costumava ir com a Amiguinha (de que fala a alexa)buscar garrafões de água a uma nascente que existia no início da mata de S. Domingos de Benfica.
Mais tarde cheguei a frequentar a esplanada desse café.
Nunca mais lá voltei...

J. disse...

cecilia, bem vinda e obrigada pelo comentário!

sei tão bem de que fonte falas... costumava ir lá aos fins de semana com a minha vizinha de baixo e com o pai dela... havia fila e tudo, diziam que a água era muito boa e nós lá íamos carregados de garrafões de plastico... lembro-me, mais tarde, de ver que as pessoas continuavam a lá ir buscar água, viamos as pessoas da estrada, na conde almoster (não sei bem se é a conde almoster ou se é a rua que começa depois da conde almoster e que vai até benfica)... a fonte ainda existe?

moravas em s.domingos?

Alexa disse...

Cecília - muito bem vinda ao Mercado (finalmente ;)

J. - não, a Cecília é de Benfica mesmo. Já cá morava antes de eu nascer... e é a minha mãe ;)
Mas também tem muitas recordações sobre ambas as freguesias, que aqui pode partilhar connosco :)

J. disse...

ups, não sabia! que bom ;)

tão bom, tantas recordações...

Cecilia disse...

j. - Parece-me que a fonte já desapareceu há muitos anos.
Íamos sempre a pé...no regresso é que vinhamos de eléctrico. E lembro-me muito bem das filas que se faziam para a água fresquinha.

P.S.- A alexa antecipou-se e já te disse quem eu sou.

Elsa M. disse...

Que saudades tenho da mata de Benfica,frequentei akela escola ao cimo durante 4 anos,vivi boas experiências ao subir e descer todos os dias a mata com os meus colegas.O parque infantil,o lago a esplanada tudo está bem vivo na minha memória e já lá vão muitos anos.Lembro me tantas vezes da professora,dos meus colegas k perdi de vista ao longo dos anos mas k gostaria tanto de rever um dia e matar saudades dakeles tempos.Ainda tenho na memória do xeiro delicioso k akela mata deitava,das folhas k apanhávamos e faziamos colecção,como nos contentávamos com tão pouco e faziamos uma brincadeira de felicidade nakela mata.K pena as crianças de hoje não darem tanto valor ao k para nós hoje adultos crianças de ontem,tinhamos por coisas mais importantes do k as futéis k existem hoje.Não deixemos morrer nem eskecer a mata de benfica.

São disse...

Ainda me lembro desses baloiços "altíssimos", em que se faziam apostas sobre quem conseguia ir mais alto!
Também dei muitas migalhinhas aos cisnes e peixes do lago, enquanto os meus pais descansavam na esplanada!
É triste ver o estado de abandono da Mata...