
Compro todos os meses a revista Pais e Filhos e, o mês passado, fui surpreendida com este relato da Sarah Adamopoulos na crónica Velha Infância.
O Califa
"Éramos três, os filhos-crianças da nossa mãe, que o nosso pai músico, de novo rumado à sua Paris natal, passou a ver esporadicamente depois do fim do casamento. Morávamos numa encruzilhada de caminhos entre a mata e a Estrada de Benfica, zona de prédios então recentes e de trilhos de eléctricos ainda quentes - não muito longe do Bairro Grandella, ou do Palácio Fronteira, a casa encantada da floresta do outro lado da linha. A Benfica de António Lobo Antunes não ficava longe, era só virar à esquerda junto ao Califa, a melhor pastelaria do mundo, onde levantávamos os bolos que a nossa mãe nos oferecia como pagamento pelos nossos serviços domésticos. No Califa ficava o paraíso, que nós levávamos para casa dentro de uma caixa de cartolina fininha, onde o Senhor Lopes depositava a orelha de abade da mãe, o angolano do meu irmão, a pirâmide da minha irmã e um dos vários bolos de que eu gostava. Lá em cima, naquilo a que chamávamos o monte, a dez minutos a pé pelo chemin des écoliers que nós fazíamos duas vezes ao dia, enfrentando aquilo como pequenos e bravos combatentes (porque havia, dizia-se, homens tarados sexuais, que eram capazes de engravidar até mesmo crianças, lançando-lhes espermatozóides para os olhos), ficava a escola do Magistério Primário. Nessa escola, em 1972/73 ainda só de raparigas, andei um ano de bata branca e fui aluna da professora Elisa, uma fada que me ensinou a amar a língua portuguesa e os poetas."
(a imagem é do próprio site do Califa)



