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30/07/10

Memórias do Califa


Compro todos os meses a revista Pais e Filhos e, o mês passado, fui surpreendida com este relato da Sarah Adamopoulos na crónica Velha Infância.

O Califa

"Éramos três, os filhos-crianças da nossa mãe, que o nosso pai músico, de novo rumado à sua Paris natal, passou a ver esporadicamente depois do fim do casamento. Morávamos numa encruzilhada de caminhos entre a mata e a Estrada de Benfica, zona de prédios então recentes e de trilhos de eléctricos ainda quentes - não muito longe do Bairro Grandella, ou do Palácio Fronteira, a casa encantada da floresta do outro lado da linha. A Benfica de António Lobo Antunes não ficava longe, era só virar à esquerda junto ao Califa, a melhor pastelaria do mundo, onde levantávamos os bolos que a nossa mãe nos oferecia como pagamento pelos nossos serviços domésticos. No Califa ficava o paraíso, que nós levávamos para casa dentro de uma caixa de cartolina fininha, onde o Senhor Lopes depositava a orelha de abade da mãe, o angolano do meu irmão, a pirâmide da minha irmã e um dos vários bolos de que eu gostava. Lá em cima, naquilo a que chamávamos o monte, a dez minutos a pé pelo chemin des écoliers que nós fazíamos duas vezes ao dia, enfrentando aquilo como pequenos e bravos combatentes (porque havia, dizia-se, homens tarados sexuais, que eram capazes de engravidar até mesmo crianças, lançando-lhes espermatozóides para os olhos), ficava a escola do Magistério Primário. Nessa escola, em 1972/73 ainda só de raparigas, andei um ano de bata branca e fui aluna da professora Elisa, uma fada que me ensinou a amar a língua portuguesa e os poetas."

(a imagem é do próprio site do Califa)

04/06/10

Califa, uma doce tradição

Acordamos de manhã… estava sol e eu tive uma vontade subita de ir comer bolos ao Califa. Ja la tinhamos passado na véspera, quando iamos para o cinema e uma manhã na “nova” esplanada pareceu-me um optimo programa.

Então acordei-os a todos, aliciando-os com os croquetes e dizendo queria comer uma delicia de morango. Califa, here we go. Um lugar na esplanada, estava sol e um ventinho agradavel. Havia dois pombos a comer as deliciosas migalhas (porque bolos deliciosos têm migalhas deliciosas) que foram o menos agradavel da manhã. Lançamos o pedido: 4 croquetes, uma delicia de morango, um folhado misto, varios “restaurantes” com manteiga, varios cafés, e clic clic algumas fotografias para registar esta doce manhã...


Não reconheci o empregado... mas reconheci a pastelaria ... se estivesse ali o meu pai dizia logo “isto é uma categoria”.

Parece que até têm publicidade na televisão..."Califa, uma doce tradição"

26/01/10

O Califa é ali em baixo


Descobri que Benfica era mais do que o nome do clube pelo qual o meu pai torcia quando tinha para aí uns 7 ou 8 anos. Nessa altura fazia inúmeras vezes a viagem entre a casa dos meus pais, a minha casa, e a dos meus avós, que moravam em Queluz, num Fiat 124, daqueles quadrados como os desenhos da escola, branco ...frigorífico, lindo. A segunda circular terminava ali para os lados do Fonte Nova e nós saíamos sempre antes, em direcção ao Colégio Militar, Pontinha, Vendas Novas e Amadora, até ao destino. Mais tarde o percurso alterou-se e nós seguíamos em frente, passávamos pelo estádio, pelo viaduto do centro comercial e depois havia uma descida que passava por debaixo da linha do comboio, subia, curva e contra curvas até uns semáforos. Lembro-me destes semáforos porque de vez em quando havia fila e no pára arranca o carro ia abaixo, devido à inclinação.

Num desses almoços de domingo, em casa dos meus avós, o meu avô anunciou que ia voltar a correr, agora não em pista mas em estrada, que tinha uma prova daí a não sei quantos dias ali para os lados do Califa. Surpresa, o meu avô corria? Para além das corridinhas na praia, no
verão, nunca o tinha visto sequer mostrar interesse pela coisa. Parece que afinal, quando era mais novo, tinha sido atleta de velocidade do Atlético, com propostas para outros clubes de mais prestigio, mas que o amor à camisola o obrigaram a declinar. Havia fotos e tudo a comprovar o feito, em que parecia voar, os pés sem tocar no chão, muito magro, com cabelo e sem bigode e algumas medalhas. E o Califa o que era? Um café ali em Benfica. Benfica? Mas isso não é um clube? Eu cá sou do Belenenses... Na viagem de regresso a casa o meu pai explicou-me o que era Benfica, estás a ver estes prédios aqui, e apontava com a mão direita para o lado do Fonte Nova e para o outro, o Califa é ali em baixo. Espreitei mas não vi, estiquei o pescoço e nada. Era inverno e apesar de ser cedo já estava escuro. Lembro-me dos prédios e das janelas com luz, em que se podia ver o interior das casas ou parte delas, um cortinado aberto, uma nesga da cozinha, um móvel da sala. Durante muito tempo para mim Benfica passou a ser também isto, uma estrada, prédios para os quais se podia espreitar, um café que não podia ver.

Só entrei na pastelaria Califa, e não café como me tinham ensinado, muitos anos mais tarde, já o meu avô tinha na sala uma vitrina cheia de novas medalhas, taças, salvas e pequenos troféus em loiça, já a segunda circular estava completa e ligava à estrada de Sintra. Não me demorei muito e depois disso só mais umas duas ou três vezes. Entretanto casei-me em Benfica e só não moro lá por um acaso. O meu avô foi correr para outras estradas e a pastelaria entrou em obras, e reabriu. Ainda há dias em que não a posso ver, problema meu com certeza.

Post gentilmente oferecido pelo
Nuno Cruz ao Mercado de Bem-Fica aqui e aqui

19/11/08

são domingos de cafés (2)

... esta fotografia é para a ritar que com este post a anunciar a reabertura do califa me fez lembrar os deliciosos bolos e os magnificos tempos do grupo das escadas…


… era o fim do 9° ano, íamos para o liceu e sentíamo-nos cada vez mais crescidos. muitos de nos fomos para a mesma escola outros para escolas diferentes mas tínhamos sempre um ponto de encontro: as escadas do CIVEC.




era lá que nos encontravamos todos os dias e que punhamos a conversa em dia. era lá que fazíamos projectos para as férias, para as saídas nocturnas, era lá que passávamos os domingos ociosos antes de irmos comer caracóis ao 409 ou lanchar ao califa (olhando agora para esta fotografia parece-me uma escolha estranha para passar os dias)… mas o califa era mais de inverno, porque as escadas eram no exterior e estavam molhadas e a temperatura não ajudava. chegar ao califa à hora do lanche nos domingo de inverno é como estar em cima da ponte 25 de abril a um sábado de julho às 11h da manhã, ou como estar na rua da prata ou do ouro em qualquer dia da semana, numa tarde de chuva… enfim… aqueles bolos e salgados mereciam a espera e nos esperávamos pacientemente que alguém decidisse levantar-se da mesa para disfrutarmos daquele momento "gastronomico". às vezes desistíamos das mesas e se éramos apenas 4 nesse dia sentávamos nos bancos à volta do balcão e escolhíamos uma esquina para podermos ver-nos e conversar melhor. eu lembro-me sobretudo das tartes de morangos com chatilly, mas há quem se lembre de outras coisas… os empregados não primavam pela simpatia, havia mesmo um senhor que dizia asneiras depois de receber o pedido e ficou conhecido pelo “foda-se”… lembro-me de um senhor gordinho e simpático que enquanto esperava que escolhessemos em frente à “montra” não parava de fazer barulho com a pinça do bolos. estas idas frequentes ao califa duraram anos, até entrarmos todos para a universidade e começarmos a ter vidas diferentes... e foi assim que hoje, com esta recordação, fiquei ainda mais quentinha… e é inverno… e esta a nevar… e eu sonho com uma tarte de morangos com chantilly do califa que põe a pastelaria francesa num chinelo (…pelo menos hoje…)

ps: e não é que parece que apanhei o pasteleiro no primeiro andar?