Foi, talvez, a pergunta que mais vezes coloquei em criança.
"Candeeiros de Lisboa no Parque Silva Porto" (1944) - Portugal, Eduardo, 1900-1958,in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa
A Mata era (e ainda é) o Parque Silva Porto, no final da Av. Grão Vasco, onde todas as crianças da minha idade passavam as tardes da sua meninice.
Acompanhada pela "Amiguinha" (a porteira dos meus avós, de quem nunca soube o nome, por apenas a conhecer sob esta forma mais carinhosa. Com ela passei os dias, até aos 3 anos, enquanto a minha mãe e os meus avós não chegavam do emprego), subíamos aquela colina íngreme rodeada de árvores gigantescas, até alcançarmos o seu cume, onde, qual tesouro escondido, se encontrava o parque dos balouços...
"Esplanada do Parque Silva Porto" (1956) - Serôdio, Armando, 1907-1978,in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa
Há uns bons 20 anos que não entrava na Mata, apesar de, actualmente, até residir muito perto dela.
Ouvira alguém dizer que a Mata já não era a mesma, jazendo agora votada ao abandono.
E parece-me que, inconscientemente, sempre tive um certo receio inexplicável de lá voltar... Como se soubesse, antecipadamente, que, ao ultrapassar aqueles portões com 32 anos, iria quebrar a magia que aquele lugar comportava nas memórias sobre a minha infância.
Esta manhã voltei a entrar na Mata de Benfica...
"Parque Silva Porto na Avenida Grão Vasco" [ant. 1951] - Novais, Horácio, 1910-1988,in Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa
Mas a Mata já não é a mesma!...
As distâncias que, outrora, pareciam incomensuráveis estreitaram-se e, num instante, alcançamos o cume da colina mágica.
Quando começamos a subir, é que constatamos que a colina parece mesmo encontar-se abandonada num limbo isolado, onde os risos e gritos das crianças deixaram de existir.
Durante a infância da minha mãe, a Mata era habitada por uma variedade enorme de animais, que se passeavam por entre os visitantes. No meu tempo já não era assim, mas ainda existiam os cisnes, patos e peixes que habitavam o "Lago do Monstro que jorra Água", à frente do qual ficávamos durante largos minutos a admirá-los e a atirar-lhes migalhas do miolo das sandes dos nossos lanches. Os cisnes desapareceram ou foram substituídos por pombos moribundos e dos patos que ainda ali permanecem quase se diria terem perdido a cor e graça.
Quando entramos no Parque Infantil, então, recebemos a estocada final no que restava da criança que vivia dentro do nosso coração...
O Parque, que antes era imenso e comprido, evaporou-se, como que por artes de um feiticeiro diabólico!
Os dois balouços com os espaldares muito elevados (o que fazia com que as cordas que os fixavam dessem mais balanço) - onde longas filas de crianças se formavam aguardando a vez de o poderem utilizar -, foram substituídos por uma piscina... também ela votada ao abandono e esquecimento.
Todos os outros balouços mais pequenos e os restantes brinquedos que rodeavam o parque e o seu terreno arenoso foram, agora, substituídos por equipamentos do último modelo, com piso sintético especial para as crianças não se magoarem muito nas suas quedas.
Do parque da minha infância, apenas permanece a Casa da Torre (com um colorido mais vistoso), onde a senhora de bata cinzenta fazia a vigilância e cuidava os ferimentos das crianças.
Mas a senhora da bata cinzenta deixou de fazer tricot à porta da Casa da Torre. E no parque, esta manhã de sol imenso, apenas uma criança brincava com a sua mãe.
E durante todo o tempo que ali estivémos, para que eu fotografasse a Mata, não me conseguiam sair do pensamento as "toneladas" de grãos de areia com que os meus sapatos chegavam a casa, depois de ter passado a tarde na Mata com a Amiguinha... e a grande cabeçada que, um dia, dei num dos ferros de um balouço horizontal.
Eram outros os tempos... Podíamos não ter Kgs. de brinquedos, mas a simplicidade de uma ida à Mata era o suficiente para nos deixar muito felizes.
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