Sempre gostei de drogarias… talvez por me lembrarem as saídas com a minha mãe aos sábados de manhã, por ser fim-de-semana. Saíamos cedo para ir ao mercado, paravamos primeiro na padaria lá da rua, na altura da
Dona Deolinda e a minha mãe encomendava o pão que ficava guardado até acabarmos as compras. Dali íamos ao
Pastelinho, tomavamos o pequeno almoço e lá íamos Estrada de Benfica fora até ao mercado. A minha mãe tinha um daqueles carrinhos das compras, de tecido de lona, com rodinhas, onde cabia tudo o que compravamos nas manhãs de sábado. Do
Pastelinho fazíamos uma paragem na « Ju » da perfumaria, logo a seguir à « Ju » paravamos nesta drogaria que me fascinava.
A montra tinha sempre imensas coisas para ver e lá dentro nem se fala. Coisas penduradas no tecto caixinhas e caixas cheias de bugigangas, vassouras à porta, panos de todas as cores, feitios e texturas, alguidares, baldes e produtos em embalagens que hoje em dia valem muito, para uns por razões sentimentais, para outros porque como cairam em desuso vendem-se em lojas de renome a preços que a dona desta drogaria não poderia acreditar. Quem lá trabalhava era um casal, ambos fortes e ambos de bigode… os anos foram passando e à porta da drogaria deixaram de pôr as vassouras e as mangueiras, a montra deixou de ter a pasta de dentes couto e toda a panóplia de perfumes, desodorizantes e desinfectantes. As prateleiras de vidro encheram-se de pó e passou a haver um "bibelot" em cada prateleira… e assim ficou a drogaria durante muitos anos. Quando passavamos lá em frente estava sempre escuro… e um dia, as portas fecharam… e a montra encheu-se de papel castanho… da história desta drogaria apenas sobraram os autocolantes na vitrine e as nossas recordações…

Dois meses depois volto ao mesmo lugar… há mais luz… as portas mudaram de cor e cheguei a ver a porta entreaberta… ainda há caixas e caixinhas, parece que o ramo é o mesmo, mas não sei se os « donos » são os de sempre… mas gosto deles sem saber quem são porque querem manter vivo o comércio tradicional...