27/07/10

A carica
















Em 1966, os passeios no Largo Conde de Bonfim não eram invadidos pelos automóveis, as crianças iam sozinhas para a rua e podiam jogar à bola, aproveitámos os candeeiros para delimitar balizas e treinarmos cruzamentos e defesas. Em Agosto desse ano, estava "fresco" o Mundial de Inglaterra, o do Eusébio mas também o do Yashin, o guarda redes da Rússia que equipava sempre de negro, e que por pelas suas defesas acrobáticas, era conhecido pelo " Aranha Negra " . Fui-me entusiasmando com as defesa que estava a fazer a cada cruzamento e remate dos meus amigos e pouco a pouco fui incarnando o personagem do aranha negra e como se de um relato de futebol se tratasse fui começando a dizer "Grande defesa de Yashin ..!!! ", e com maior ênfase " "Guarda Redes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas!!! " era uma frase comprida, substancial estava a gostar de a dizer, repeti mais uma ou duas vezes até perceber o embaraço e o aviso de dois de nós mais crescidinhos e seguramente mais politizados "Chiu !!! Não se pode dizer isso!" perante a minha estupefacção.
Depois deste episódio creio que fiquei melhor preparado para perceber porque é que sempre que os crescidos mandavam vir, na esplanada do sr º Manuel, uma água com gás do Vimeiro e Pedras Salgadas, e a carica vermelha com as letras VMPS impressas na face ficava em cima da mesa, se dizia Vamos Mandar Prender Salazar, da forma compenetrada ,que só a consciência do proibido e o prazer da transgressão permite. Hoje se arranjasse uma dessas caricas emoldurava-a! 



Texto de João Xavier
Foto do AML, Bastos, Artur Inácio, 1961

8 comentários:

J. disse...

João, queremos textos destes mais vezes ;)

o Sr. Manuel é o do Café Bonfim? ;)

Carlos Caria disse...

Nós para evitar a palavra CCPP, que os jogadores tinham na camisola, diziamos que era um futebolista da Casa Costódio Cardoso Pereira, belas formas de nesses tempos contornar o óbvio.
Quanto às caricas, aimda existem por aí e creio que vi hoje uma na feira da ladra, se não estou em erro.
Vou estar atento e se conseguir foto e envio.
As caricas sempre me fazem lembrar os cromos da bola que envoltas em papel transparente dos maços de tabaco, davam excelentes desportistas para um jogo de futebol, ou para ciclistas com os quais se fazia uma Volta a Portugal, nas areias da praia.

T disse...

Carlos:)

xávi disse...

Sim J , terei todo o gosto em escrever mais destas histórias e o Srº Manuel é o da Leitaria Bonfim.
Caro Carlos, sem dúvida que as caricas eram um material altamente reutilizável pelos putos exactamente para o futebol numa espécie de percursor do "Subuteo" ou para a Volta em Portugal em Bicicleta em caricas.
Obrigado T, pelas dicas.

T disse...

De nada, foi um prazer transcrever o seu texto e ilustrar com uma foto:)

J. disse...

e para nos sera um prazer ler as suas historias ;)

como ja tinha dito a t. podemos adiciona-lo como colaborador ao blog, para isso basta enviar-nos o seu mail :) e assim escreve sempre que lhe apetecer ;)

Marta G. disse...

Que texto tão giro! Com memórias como estas - e embora os tempos sejam totalmente diferentes - fico contente por ter escolhido Benfica para o meu filho crescer. Talvez um dia também seja colaborador do Mercado!

M.Carmo Correia disse...

Eu sou sou um pouquinho mais velha que o autor deste texto, pois quando o Eusébio veio para o Benfica, ìa todos os dias dormir ao "Lar" (não me lembro com o se chamava) ele e os outros que ficava ao cimo das Pedralvas. De manhã passavam de novo a pé a caminha do Estádio e todos os dias eu me metia com eles e eles comigo. Mais tarde depois de casar o Eusébio e o Coluna foram viver para os prédios que construírem na então Quinta das Flores, e sempre que íam à varanda lá estava eu a ver os meus ídolos. Bons tempos. Saudades!