03/12/10

Às vezes mais vale estar quieta...


Eu tenho andado silênciosa. Tenho andado silênciosa porque durante as férias me zanguei com uma parte de São Domingos de Benfica, porque, às vezes, a querer fazer bem, mais vale estar quieta, como diz o outro (e como dizia a minha avó). Então, como em tantas outras de manhã de férias, saí de casa à caça de fotografias, de reservas para os próximos meses e fui em direcção ao mercado de São Domingos. Pela Estrada de Benfica, vou parando para clicar e apanhar o momento em vários sitios e finalmente chego à “praça”. Já lá tinha estado uma vez e tinha fotografado sem qualquer problema. Mas desta vez foi diferente. Clico para registar aquela primeira loja, ainda fora do mercado, que “no meu tempo” era uma loja de frangos e que hoje... já não me lembro o que é. Embora a imagem tenha permanecido dentro da minha máquina uns 15 minutos, o meu cerebro apagou-a completamente da memória. Daí entro no mercado, registo o grande cartaz azul com letras pretas onde se lê “aqui ha bacalhau”, acho-o tão português que faço um zoom, para o apanhar a jeito. Uma fotografia de panoramica geral às frutas, legumes e flores e dei a volta ao mercado com 4 fotografias na máquina. Quase à saída vejo aproximar-se uma “simpática” senhora que se dirige a mim nestes termos: “ouça lá, você tirou-me ali uma fotografia na banca do bacalhau”. Perante tal abordagem e acusação faço cara de quem não esta a perceber o que me diz e ela continua “sim, eu estava ali na banca do bacalhau e a senhora fotografou-me, por acaso pediu-me autorização?”. Explico-lhe que não lhe tirei fotografia alguma e para a tranquilizar mostro-lhe a pancarta do bacalhau “zoomada” e as 3 fotografias seguintes. Ele vira-me as costas, sem desculpas, sem boa tarde, sem obrigada e continua. E pronto, tive que lhe dizer que o mínimo que ela devia ter feito era ter dito qualquer coisa, perante uma acusação injusta e não fundamentada e pela falta de educação. Nisto, vão-se aproximando os comerciantes, vem o “sr. dos frangos assados” e a “senhora dos legumes/frutas” (filho e mãe, fico a saber) que me dizem que para tirar fotografias tenho que pedir autorização. Digo que percebo, mas que já tinha vindo antes, que tinha pedido para fotografar e nunca ninguém se mostrou contra. E começo a explicar a razão da minha presença no mercado e das fotografias. E assim que abro a boca para dizer que estou ali graciosamente e com gosto, que existe uma página na internet que pretende divulgar e valorizar o bairro, eles põem a mão à cintura e respondem-me “você deve ser fina”... que não precisam de valorização nenhuma, que estão ali ha 29 anos e já têm toda a valorização de que precisam... eu penso “29 anos foi o tempo que eu vivi neste bairro” e decido acrescentar “a minha mãe durante muitos desses anos fez aqui as suas compras e sempre pensei nos senhores do mercado com simpatia” e a senhora, que na minha recordação de infância tinha um ar tão acolhedor, diz-me assim “pois, FAZIA, é o tempo do verbo” e perante tal arrogância apago ali as minhas 4 miseraveis fotografias e vou à administração lavar a alma. E hoje venho aqui também lavar a alma, para ver se me regressa a inspiração para outros posts que continuem a valorizar São Domingos de Benfica. E sobre este mercado, penso que pouco mais terei a dizer. Não quero contar historias de lugares e pessoas contra a vontade delas.

14 comentários:

João Xavier disse...

J

Há mais de 40 anos eu andava na escola primária e passava perto da "praça" todos os dias. Havia movimento na zona, as mulheres da minha casa iam lá às compras durante a semana, as bancas das peixeiras lotadas, a minha mãe ia lá ao sábado, acartavam-se os sacos. "Ia-se à praça", nos bairros de Lisboa, era lá que as pessoas se abasteciam, ou então ia-se à Ribeira,em busca de peixe acabadinho de chegar e tantos outro alimentos, com menos intermediários. A vida mudou, as famílias são menos alargadas, há muito mais concorrência, o ritmo de vida é muito acelerado, os fregueses são menos. Agora a "fotografia" é triste, as bancas das peixeiras estão vazias, em Carnaxide, no mercado é igual.
Neste "Mercado... de Bem-Fica" apreciamos as suas histórias, eu pessoalmente reconheço-me nelas,estou grato por me ter convidado para escrever as minhas e principalmente anima este blog do qual gostam mais de mil e cem "almas" e muitos mais "fregueses".

Fique Bem !

J. disse...

obrigada xavi, este comentario aqueceu-me o coração que esta dividido em 2, metade jota metade mercado! :) ... e nos também ficamos muito contentes por poder ler as tuas historias "benfiqueiras" :)

T disse...

Estou farta de tirar fotos aqui em Arroios e fui sempre bem recebida. Pena é que os mercadores de São Domingos de Benfica não façam o mesmo. Mas se calhar nem percebem o que perdem. Azar dos Távoras, como diz um amigo meu. São suicidas. Beijinhos Joaninha e não te rales com estas parvoíces.

Miguel Gil disse...

Por acaso não é assim J., em sítios públicos, desde que a foto não foque alguém em particular, quem não quer ser fotografado é que deve e pode manifestar-se contra. Contudo é sempre bom anunciarmo-nos antes de disparar.
Mas a situação não é essa!

Até as pessoas que povoam a nossas memórias mais cândidas, são pessoas. Pessoas que sofrem dos mesmos defeitos e têm as mesmas qualidades que todas as outras.
O amor pelos sítios cria-nos ilusões, boas ilusões, que não as devemos perder, devemos guardá-las bem na nossa memória e continuar a partilhá-las com quem quisermos, com quem continua a amar ou simplesmente a gostar do seu sítio, da sua terra, do seu bairro.
Quem poderia imaginar que o vendedor simpático, o que até nos dava a guloseima quando acompanhávamos a nossa mãe nas compras, pode ser agora uma pessoa arrogante como tantas outras?
O nosso bairro só não é igual a tantos outros porque é o nosso bairro. É o bairro onde crescemos e que nos habituámos a gostar.
J. não vale a pena gastar latim com quem não quer ouvir, nem tão pouco desgastarmo-nos com quem não nos sente a ajudá-los.
Vamos em frente J. !

LUIS FERNANDES disse...

Eu sei do que fala -porque, muitas vezes, sofro da mesma incompreensão-e, por isso, partilho da sua indignação. É evidente, que uma, duas ou três pessoas, não serão representativas de um todo que, na maioria aprecia o nosso trabalho. Mas que aborrece, lá isso é.
Continue o seu bom "trabalho". Não se deixe abater. Não queira fazer parte das imensas "lápides" que por aqui grassam e que, outrora, foram blogues importantes.
Abraço.

analu disse...

Parece impossível, até custa a acreditar. Eu ainda lá vou de vez em quando ás flores e à srªa da fruta e legumes do lado direito. sempre bem recebida, parece impossível. Dá vontade de imprimir o texto e colocar lá. Ai que vontade!!!! Aquele mercado já não é o que era, está a metade, já abre até mais tarde e tudo, mas com pessoas assim lá, num instante fecha.

J. disse...

sim t. é pena... e não tinham nada a perder, ao contrario...

J. disse...

é isso mesmo miguel, clarificaste bem as coisas " nosso bairro só não é igual a tantos outros porque é o nosso bairro" e "as pessoas são pessoas"... e cada vez mais encontro pessoas destas, tenho pena. deu-me para ficar assim silenciosa e meio magoada porque fui cheia de boas intenções e fui "recebida" com duas pedras (ou três)... mas acho que precisava desta lavagem de alma. estive algum tempo a pensar se contaria este episodio ou não, porque este é um espaço para as coisas boas do nosso bairro... mas foi melhor assim, estou pronta para outra historia cheia de boas recordações ;)

J. disse...

é isso luis, como ja têm dito por aqui "uma andorinha não faz a primavera" ... mas ha primaveras mais cinzentas do que outras!

J. disse...

ana,

sempre tive a ideia (errada, penso agora) que as pessoas que tinham bancas no mercado eram mais proximas dos clientes e que colaboravam mais facilmente neste tipo de "iniciativa"... mas afinal o mercado de s. domingos não deve estar assim tão mal... pelos vistos ja são bem reconhecidos e valorizados...

Julio Amorim disse...

Quarenta anos de fascismo demoram a apagar e a gentinha continua a reivindicar o seus "direitinhos" ao mesmo tempo que o sistema lhes enfia o barretinho, década após década. São contos destes que me fazem sentir feliz por estar tão longe de Portugal. Mal-empregado clima.

Carlos Caria disse...

Nunca fui confrontado com a situação, de uma recusa embora sempre me tenha pautado pela delicadeza e cortesia, quando pretendo captar uma imagem, que não fotos pessoais.
Reconheço ser uma situação delicada, e ainda para mais "No nosso bairro", com pessoas que se calhar vemos todos os dias, ou pelo menos com frequência.
Mas.... a sociedade é o que é, e os dias calmos e tranquilos, quando podíamos passear pelo nosso mercado, seguramente serão uma memória, boa para nós e os nossos amigos nos deliciarmos um dia á lareira com os nossos filhos ou netos.
J, um grande beijinho de amizade, e como todas as coisas na vida, foi só um episódio passageiro, pois aqueles que nos marcam ficam eternamente nos nossos corações, que é o mais importante.
BOM NATAL A TODOS.

Cristina Basílio disse...

Boa noite gente de bem.

Foi "engraçado" ler este desabafo da J. Diria que quase me parecia uma espécie de ilme que já se conhece de tantas vezes visto. Conheço as personagens que " se armaram aos cucos". "Nasci" e cresci na rua da praça, conheço como as linhas da minha mão os azulejos que ilustram este post. E não posso impedir que um sorriso algo mordaz assome à superfície. Há muito que vejo morrer o comércio do mercado e não é agora, de portas abertas até mais tarde que o caso muda de fiura. Habtuamo-nos a outras rotinas e a praça já não satisfaz os nossos apetites. As bancas vão sendo progressivamente abandonadas e quem fica nem sempre sabe reconhecer que há janelas de oportunidade que podem ajudar à visibilidade do negócio. As pessoas tornam-se amargas e estranham a disponibilidade, o gostar sem interesse.
Há que saber ultrapassar os maus encontros e procurar outros ângulos para outras histórias.

Ânimo! Ainda há muito por descobrir em São Domingos!

carlos disse...

Não é por acaso que o comércio tradicinal está em vias de extinção. A culpa não está só nas detestáveis grandes superfícies comerciais, mas, também nas mentalidades de alguma gentinha. Em Benfica, onde moro há oito anos, há lojas que nem ouso voltar a entrar, tal a rudeza e má educação do marçano. Infelizmente eles andam por todo o lado... e queixam-se da crise.