25/01/11

Hyper China


Foi um domingo de manhã, fui beber um café à Balalaika e depois dei um passeio por ali. Estava bom tempo e apetecia caminhar e observar no bairro. A minha esteticista tinha-me falado nuns vernizes de boa qualidade e baratos que vendiam na nova loja de chineses e sugeriu-me que eu fosse la espreitar. Segui o conselho e quando voltava do café da manhã em vez de tomar o caminho da Estrada de Benfica, fui pelas ruas de tras até chegar à Conde Almoster.
Era impossivel não encontrar a loja. O aspecto exterior saia fora do look habitual das lojas de chineses, com os candeeiros a decorar as portas, era "ocidentalizado". Entrei dei uma volta, passeei pelos corredores, vi os vernizes e vim de la com uns ganchos. A rapariga que estava à caixa era jovem e era também a dona da loja. Paguei os ganchos e expliquei-lhe o habitual, que fazia parte de um blog que escreve textos sobre o bairro e que achava interessante escrever sobre a loja dela. Perguntei-lhe se se importava que falassemos um bocadinho e ela disse-me que podia ser.
Entao pusemo-nos à conversa, ela disse-me que tinha 24 anos que ja estava em portugal ha 10 anos. Normalmente os chineses vêm ter com familia ou pessoas conhecidas que ja têm nos sitios para onde vão trabalhar. Começou por trabalhar em restaurantes chineses de familiares, depois em lojas de chineses, mas que a vida é muito complicada. Ganha-se pouco, as despesas são muitas, as ajudas e facilidades em coisas simples como bancos, medicos, etc. são poucas e é dificil ter uma vida de familia. Quando se trata de um casal, cada membro trabalha numa loja ou restaurante de chineses e cada um dorme em casa dos seus patrões porque não têm meios de financeiros para terem a sua propria casa. Encontram-se apenas uma vez por semana, nos dias em que têm folga. Quando chegam a casa continuam a trabalhar, tratam da roupa, do jantar, da loiça, arrumam a casa, dormem e no dia seguinte é tempo de voltar ao trabalho outra vez.


Esta loja surgiu pela vontade de terem uma vida propria, de ter intimidade, viver com o marido, mas de alguma forma acabam por se encontrar na mesma situação, embora tenha outra posição, pois a empregada que trabalha para ela, também chinesa, mora em sua casa. Depois de alguma experiência em Portugal pensou em abrir e gerir a sua propria loja. Para isso, começaram por fazer uma espécie de estudo de mercado mas pelos seus proprios meios. Normalmente vão de bairro em bairro, vêem o movimento, vêem o tipo de lojas de chineses que ja existem, onde estão localizadas, que produtos vendem, e optam por determinado sitio. Depois vem o processo burocratico. Não pedem emprestimos ao banco porque são sempre recusados, é a familia que lhes empresta a totalidade do dinheiro para o investimento e eles vão-lhes pagando de acordo com as suas possibilidades, é por isso que trabalham todos os dias, porque têm que reembolsar uma grande quantia e estar parado é um luxo. Para além de terem que reembolsar este emprestimo, sustentam os pais e os sogros, na China, e pagam as despesas mensais normais, em Portugal. Perguntei-lhe se tinham prazos limitados para reembolsar os emprestimos às familias e ela respondeu-me que na China quando se fazem estes negocios de familia não é como em Portugal em que se fazem papeis, assinam-se contratos etc. Para eles, é normal a familia emprestar dinheiro e eles terão a loja aberta o tempo necessario até terminarem de reembolsa-los. No caso dela, a familia emprestou-lhe o valor necessario ao investimento, mas achou que a loja não estava muito bem localizada.
Nas lojas de chineses, ao contrario do que muitas pessoas pensam, não vendem apenas artigos que vêm da China, muitos produtos vêm de Espanha, de Italia e algumas coisas de Portugal. A mercadoria não vem directamente destes paises, vem sim de grandes armazéns onde muitos comerciantes de abastecem.
A vida social da comunidade chinesa é praticamente inexistente, vão criando amizades com clientes habituais, mas pouco profundas porque para eles o tempo não é para gastar com amigos ou a passar dias agradaveis, o tempo é para trabalhar, para pagar dividas e so depois disso é que começam os dias de prazer.

A loja começou a ficar movimentada, agradeci e antes de sair perguntei como se chamava. como a fonetica me era pouco familiar pedi-lhe que me escrevesse o nome num papel ao que ela respondeu que preferia não fazê-lo por não ter a certeza de como se escrevia...

Hyper China
Rua Conde Almoster
S. Domingos de Benfica

4 comentários:

polittikus disse...

Ainda sou do tempo, em que se compravam automóveis nesta loja... Outros tempos.

Guidinha Pinto disse...

Já entrei nesta loja e acho-a atraente, espaçosa, simpática, comparada com outras do mesmo tipo. E existem bastantes na nossa freguesia. Trabalhar para poder pagar as dívidas é um início de vida saudável para uma grande maioria de jovens que pretende sobreviver de cabeça erguida nesta selva-humana em que se tornou a sociedade contemporânea. Haver jovens cujas famílias, por tradição ou não, possam ajudar financeiramente emprestando dinheiro, em vez de recorrerem à banca, é muito bom.
Gostei desta sua «estória de vida».
Fique bem.

Jair Tavares disse...

Quando abriu esta loja do chinês?

Jair Tavares disse...

Quando abriu esta loja?