21/09/10

" O Parque "


Domingo, 10 de Abril de 2011
Voltei a este "post" editado em 21 de Setembro do ano passado, porque me foi cedida por um dos meus " vizinhos "uma fotografia do tempo dos acontecimentos que volto a relatar...
....em 1975, vivíamos um processo intenso de participação dos cidadãos em todas as esferas da vida. Os moradores mais antigos do Largo Conde de Bonfim, consideraram que o velho jardim central ao largo, já não cumpria a sua função de espaço de lazer e certamente em comissão popular, aproveitando a dinâmica de um vizinho empresário da construção civil, resolvem dotá-lo ou transforma-lo num parque infantil com uma multiplicidade de novos atractivos, a saber, um campo de jogos com balizas e tabelas de basquetebol, uma pista para atletismo ou bicicletas, um corredor para exercício físico de inspiração militar (subida de cordas, barreiras, equilíbrios…), zona de baloiços, uma biblioteca, pontuado aqui e ali por novos espaços verdes, bancos e mesas, e até um WC. O processo de planeamento do novo parque foi concorrido, muito vivido pelos moradores, em reuniões nocturnas na loja e arrecadação de materiais do vizinho empresário, e onde a malta adolescente também se fez ouvir, representada por um de nós, mais velho, que tinha ido à guerra colonial e voltara. A malta queria colaborar, o largo também nos pertencia, era nos bancos de jardim que nos encontrávamos na nossa adolescência nocturna, estávamos como peixes na água, mas não tínhamos desafogo económico, de modo geral não recebíamos mesadas dos pais, quando um de nós recebia uma nota partilhávamos com os outros e íamos ficando por ali. Toda a gente colaborou para a construção do parque infantil, disponibilizando tempo de fim de semana; o sapateiro deu da sua loja, a electricidade para os trabalhos --- mesmo acabando por ficar com o quadro electrico derretido--- os moradores, a mão de obra, o empresário de construção civil o seu saber - fazer especializado e materiais e certamente muitos outros contribuíram mas não me apercebi na altura… Alguns equipamentos lúdicos foram improvisados com materiais de construção, reutilizaram-se as pedras dos bancos que já lá estavam e dispostos em novos lugares e para novos usos, plantaram-se novas arvores. Isto em consonância com a Câmara Municipal já que o novo parque seria vigiado por funcionárias municipais assim como ficaria encarregue da manutenção dos espaços verdes. A nós, adolescentes, caberia a animação desportiva e cultural do parque e foi organizado um calendário de actividades, com horários estipulados, para todas as crianças que aparecessem e delas quisessem usufruir; cada um dos adolescentes monitorizava a actividade da sua preferência, treinos de voleibol, de futebol, corridas de atletismo ( Carlos Lopes era já popular e orgulho de todos nós só batido pelo Lasso Viren em Montreal) , actividades de leitura e alfabetização ( tínhamos um bairro da lata ao lado)… E lá estivemos orgulhosos, nas nossas animações, quando se realizou, a um domingo, uma jornada de trabalho nacional!....

.... Recentemente o campo de jogos foi remodelado com novo piso e novas tabelas de basquetebol e continua trinta e cinco anos depois, a servir o gosto pelo exercício físico e pela prática do desporto na generalidade da população portuguesa, muitas mulheres, várias gerações, num estilo de vida muito mais saudável que conquistámos!



Agradeço ao Srº Adão, sapateiro do largo, a forma tão prestàvel como nos cedeu a foto que ainda hoje mantêm emoldurada na sua loja.

Dedico este texto à memória dos antigos moradores.

Aos actuais moradores do largo.

3 comentários:

J. disse...

xavi,

percebi agora que nunca tinha pensado na historia deste parque, nunca tinha pensado em como ele tinha nascido, mas foi com um arrepio que fiquei a saber que o parque onde brinquei muitos domingos nasceu assim, da bondade e da genorisidade dos moradores. como eu deve haver centenas de pessoas que aqui passaram algum tempo que não o sabem. deste parque/jardim, que me pergunto hoje se tera um nome oficial, lembro-me de ser fechado por uma cerca verde, lembro-me de na parte de cima do jardim haver um bloco de cimento onde se encontravam as casas de banho, lembro-me do chafariz logo à entrada, de um escorrega de estrutura vermelha e do latão onde se escorregava ser “espelhado”, no verão aquecia e queimava-nos as pernas e o rabo. lembro-me que do outro lado, em frente ao café bonfim um pouco mais acima, havia 3 “ferros” (chamavamos-lhes assim) para dar cambalhotas, um mais pequeno, outro intermédio e outro mais alto e lembro-me que o chão era coberto de areia.

mais um belissimo texto! hoje o parque ainda la esta e ficam também as nossas memorias a imortalizarem este espaço.

... e se ainda não se desfizeram dele é certamente porque continua a trazer maravilhosos domingos ou tardes a crianças, pais e desportistas. :)

Ka disse...

Também eu passei horas, dias, semanas naquele parque e não fazia ideia que tinha nascido assim.
Todos os dias passava por ali e até a zona envolvente era conhecida como "O parque". Combinava-se na "paragem do parque".

Hoje em dia parece que sofreu uma reestruturação qualquer, mas desde que seja utilizado e não desapareça, para mim está óptimo.

Cristina Basílio disse...

O Parque fica um pouco mais acima da minha casa de infância e juventude. Ainda assim, lembro-me do que escreveu o Xavi e o J. Brinquei, namorei, li, conversei nos bancos de sempre. Já mãe ali levei muitas vezes a minha papoila para brincar no escorrega e nos divertimentos que acompanharam o seu crescimento. Obrigada pela fantástica memória, que nos devolve um passado humano e que deve inspirar-nos para um presente/ futuro mais sensível. Juntos podemos sempre mais. :)