21/09/10

" O Parque "


Domingo, 23 de Setembro de 2017
Não há duas sem três e voltei a este "post" , por razões muito especiais; um grupo de velhos amigos re-encontraram-se cerca de trinta e cinco anos depois , amigos de infância , amigos de adolescência. Confirmámos aquilo que já sabíamos ou seja a sobrevivência das amizades mas o que descobrimos de forma muito profunda foi a consciência da importância desempenhada por cada um na formação das pessoas que somos hoje. Nos idos dos anos 60 a finais de 80 do século passado, as crianças e os jovens passavam muito tempo na rua;  a par das nossas famílias, da escola, eventualmente da igreja, a " malta " foi um  poderoso meio de socialização, o lugar das maiores traquinices, onde pisávamos o risco, mas também nos confrontávamos com os nossos limites, por nivelar  no "corpo a corpo" as ficções e a realidade das outras instâncias. Nós éramos convidados das casas um dos outros , os nossos pais conheciam os nossos amigos, as casas dispunham-se à volta do largo, os prédios com janelas e varandas permitiam comunicar , ver e ser vistos, conhecer . Fomos protagonistas da história que podem ler abaixo e temos um orgulho enorme de o ter sido, pela minha parte, não quero nada menos do que isso!
..em 1975, vivíamos um processo intenso de participação dos cidadãos em todas as esferas da vida. Os moradores mais antigos do Largo Conde de Bonfim, consideraram que o velho jardim central ao largo, já não cumpria a sua função de espaço de lazer e certamente em comissão popular, aproveitando a dinâmica de um vizinho empresário da construção civil, resolvem dotá-lo ou transforma-lo num parque infantil com uma multiplicidade de novos atractivos, a saber, um campo de jogos com balizas e tabelas de basquetebol, uma pista para atletismo ou bicicletas, um corredor para exercício físico de inspiração militar (subida de cordas, barreiras, equilíbrios…), zona de baloiços, uma biblioteca, pontuado aqui e ali por novos espaços verdes, bancos e mesas, e até um WC. O processo de planeamento do novo parque foi concorrido, muito vivido pelos moradores, em reuniões nocturnas na loja e arrecadação de materiais do vizinho empresário, e onde a malta adolescente também se fez ouvir, representada por um de nós, mais velho, que tinha ido à guerra colonial e voltara. A malta queria colaborar, o largo também nos pertencia, era nos bancos de jardim que nos encontrávamos na nossa adolescência nocturna, estávamos como peixes na água, mas não tínhamos desafogo económico, de modo geral não recebíamos mesadas dos pais, quando um de nós recebia uma nota partilhávamos com os outros e íamos ficando por ali. Toda a gente colaborou para a construção do parque infantil, disponibilizando tempo de fim de semana; o sapateiro deu da sua loja, a electricidade para os trabalhos --- mesmo acabando por ficar com o quadro eléctrico derretido--- os moradores, a mão de obra, o empresário de construção civil o seu saber - fazer especializado e materiais e certamente muitos outros contribuíram mas não me apercebi na altura… Alguns equipamentos lúdicos foram improvisados com materiais de construção, reutilizaram-se as pedras dos bancos que já lá estavam e dispostos em novos lugares e para novos usos, plantaram-se novas árvores. Isto em consonância com a Câmara Municipal já que o novo parque seria vigiado por funcionárias municipais assim como ficaria encarregue da manutenção dos espaços verdes. A nós, adolescentes, caberia a animação desportiva e cultural do parque e foi organizado um calendário de actividades, com horários estipulados, para todas as crianças que aparecessem e delas quisessem usufruir; cada um dos adolescentes monitorizava a actividade da sua preferência, treinos de voleibol, de futebol, corridas de atletismo ( Carlos Lopes era já popular e orgulho de todos nós só batido pelo Lasso Viren em Montreal) , actividades de leitura e alfabetização ( tínhamos um bairro da lata ao lado)… E lá estivemos orgulhosos, nas nossas animações, quando se realizou, a um domingo, uma jornada de trabalho nacional!....

Agradeço ao Srº Adão, sapateiro do largo, a forma tão prestável como em Abril de 2011 cedeu a foto que tinha emoldurada na sua loja e embora já reformado volta ainda hoje ao parque onde o encontrámos neste dia de Setembro sentado num banco pronto a desfiar memórias e tecer as suas considerações e sempre "vivaço" no relacionamento.
Dedico este texto à memória dos antigos moradores.
Aos actuais moradores do largo.
E como não pode deixar de ser, à  "malta" do Largo Conde de Bonfim .

3 comentários:

J. disse...

xavi,

percebi agora que nunca tinha pensado na historia deste parque, nunca tinha pensado em como ele tinha nascido, mas foi com um arrepio que fiquei a saber que o parque onde brinquei muitos domingos nasceu assim, da bondade e da genorisidade dos moradores. como eu deve haver centenas de pessoas que aqui passaram algum tempo que não o sabem. deste parque/jardim, que me pergunto hoje se tera um nome oficial, lembro-me de ser fechado por uma cerca verde, lembro-me de na parte de cima do jardim haver um bloco de cimento onde se encontravam as casas de banho, lembro-me do chafariz logo à entrada, de um escorrega de estrutura vermelha e do latão onde se escorregava ser “espelhado”, no verão aquecia e queimava-nos as pernas e o rabo. lembro-me que do outro lado, em frente ao café bonfim um pouco mais acima, havia 3 “ferros” (chamavamos-lhes assim) para dar cambalhotas, um mais pequeno, outro intermédio e outro mais alto e lembro-me que o chão era coberto de areia.

mais um belissimo texto! hoje o parque ainda la esta e ficam também as nossas memorias a imortalizarem este espaço.

... e se ainda não se desfizeram dele é certamente porque continua a trazer maravilhosos domingos ou tardes a crianças, pais e desportistas. :)

Ka disse...

Também eu passei horas, dias, semanas naquele parque e não fazia ideia que tinha nascido assim.
Todos os dias passava por ali e até a zona envolvente era conhecida como "O parque". Combinava-se na "paragem do parque".

Hoje em dia parece que sofreu uma reestruturação qualquer, mas desde que seja utilizado e não desapareça, para mim está óptimo.

Cristina Basílio disse...

O Parque fica um pouco mais acima da minha casa de infância e juventude. Ainda assim, lembro-me do que escreveu o Xavi e o J. Brinquei, namorei, li, conversei nos bancos de sempre. Já mãe ali levei muitas vezes a minha papoila para brincar no escorrega e nos divertimentos que acompanharam o seu crescimento. Obrigada pela fantástica memória, que nos devolve um passado humano e que deve inspirar-nos para um presente/ futuro mais sensível. Juntos podemos sempre mais. :)