20/12/11

A Garrafeira São João


O Natal está mesmo aí à porta e, mais do que em qualquer data do ano, é altura de pretextos para almoços e jantares com a familia, com os amigos e para a troca de presentes. Na minha familia decidiram que no Natal se fazia assim: os rapazes levam as garrafas de vinho, as raparigas tratam dos doces e os anfitriões ocupam-se do jantar. Gosto dessa ideia da partilha de tarefas natalícias. Parece que há um cuidado especial na escolha das bebidas e das sobremesas e na confecção da comida para essa noite.
Há pouco tempo atrás, tivemos um jantar e queriamos ir à loja Gourmet do Fonte Nova, que tem um funcionário super simpatico e profissional, para comprarmos uma boa garrafa de vinho. Estavamos no trânsito a caminho do centro comercial quando paramos na fila, precisamente em frente a uma garrafeira na Rua Professor Reinaldo dos Santos. Estavamos a olhar para ela pela primeira vez e decidimos ir lá espreitar. É certo que é um local diferente da Gourmet do Fonte Nova, é um lugar que se situa entre a loja e o armazém. Já tinhamos uma ideia do que queriamos comprar, mas perante a surpresa de tamanha escolha optamos por experimentar novos vinhos pelos bons conselhos de uma das senhoras da loja. Pensamos que realmente era uma boa ideia haver uma garrafeira em Benfica que, embora esteja bastante escondida, já ali existe há 5 anos. Lá dentro têm todo o tipo de bebidas alcoolicas (excepto cervejas) e foi assim que acabamos por sair de lá com 3 garrafas de vinho e ainda compramos um favaios para termos em casa. Ficamos perplexos com os preços. É que apesar de ser uma loja/armazém de rua têm preços mais baratos do que nos supermercados mais em conta. Pensamos que seria uma boa opção passarmos a comprar ali as bebidas: várias possibilidades de escolha, preços acessiveis e atendimento personalizado e nós a contribuirmos para que o comércio de rua não desapareça.
Por isso, se estão por Benfica ou São Domingos de Benfica, se têm almoços e jantares, se querem oferecer um presente ou comprar boas bebidas para terem em casa, vale a pena dar um salto à Garrafeira São João.


Um bocadinho de historia aqui e a fotografia foi retirada daqui

14/12/11

A Rua do Montepio Geral e os anos 80


Ontem em conversa com uma amiga lá da rua a propósito da relação entre uma caneta bic e uma cassete vieram-me à ideia uma catrefada de recordações. Ora, não sei vocês, mas para mim, aquela imagem de rebobinar as cassetes com as canetas bic é tremenda. Tardes inteiras a querer ouvir as mesmas músicas e o rebobinador a não funcionar e nós ali de caneta enfiada a andar para trás com a fita... santa paciência! E como lembrou ela, muito bem, a desencravar a fita que por vezes se enrolava na cabeça do leitor e ficava em acordeão e lá se ía a música. Lembro-me disto na Rua Montepio Geral, em tardes tórridas do mês de agosto. Nessa época em que as férias demoravam 3 meses, em que nos deliciavamos com os gelados de água e corantes da Olá no Pastelinho, em que o “dedo” custava doze e quinhentos. Era o tempo em que lá na rua todos os miúdos tinham alcunhas, era o kikas, o galinhas, o gordo, o caixa d’óculos, o puto estupido e tantas outras que já não me lembro.





No calor e no silêncio desses dias, ouviam-se músicas aos berros das janelas escancaradas, cheirava a sardinhas, os miúdos íam bater à porta a pedir uma moedinha para o santo antonio e la iamos outra vez para o pastelinho comer gelados ou para a mercearia do senhor ferreira comprar os doces da berra. Andavamos de bicicleta até os nossos pais virem gritar por nós à janela, jogavamos ao lencinho à noite, ou íamos para casa uns dos outros. À tarde ora passavamos o tempo a ligar para o Agora Escolha para ver as nossas séries preferidas ora ligavamos para casa das pessoas a dizer coisas do genero: estou, é de casa do sr. leão? É para dizer que vamos entregar a jaula”. Havia a mercearia da Dona Helena, a mercearia da Dona Nia e do Sr. Augusto, o talho do Pedro, a padaria da Dona Deolinda que depois passou a ser da Dona Inês, a loja dos estores, os carrinhos da ligier, o estofador, as duas oficinas. Havia o Lord que era o pastor alemão do dono de uma das oficinas e que se atirava para cima de mim e da minha vizinha do 2° andar quando a cadela dela, a Nani, estava com o cio. Nós inventavamos as mais variadíssimas coisas para ele não vir atrás de nós e assim nasceu a lenga lenga “São Romão, São Romão entre mim e o cão” que dita duas vezes de seguida era suposto exercer um feitiço sobre o Lord e ele deveria dar meia volta e não nos chatear. Que boas recordações estas da Rua Montepio Geral e que orgulho em ter vivido na década de 80. Hoje em dia, quando regresso a casa, ainda me cruzo com alguns vizinhos que na altura eram os meus amigos da rua e cruzo-me com os amigos do meu irmão que ainda pertencem a esses tempos das alcunhas. Aqueles que eram “os putos lá da rua” cresceram e muitos continuam a viver ou a ir lá regularmente. Este ano, disseram-me que muitos dos que casaram e foram viver para outros lugares acabaram por regressar à Montepio Geral, como se houvesse ali um sentimento de aconchego...

A Casa de Saúde de Benfica

Já aqui mostrámos anúncios a esta casa de saúde. Este postal data dos anos vinte.
Clicar para ampliar.

11/12/11

Vale a pena morar num bairro assim

Crescer num bairro com alma é uma herança que transportamos vida e fora e que dá origem a iniciativas como este blog. Um bairro com alma é uma toca de Alice onde não cessamos de descobrir caminhos, histórias e personagens que alimentam a imaginação. Claro que há uns quantos aspectos que causam alguma irritação, mas essa existe na exacta medida do afecto que nutrimos pela rua cujo nome escrevemos com zelo na caderneta da escola ou no boletim de vacinas.
Em S. Domingos há vários locais mágicos que valem um passeio mais atento e muitas das vezes constituem o tal lavar da alma que os afazeres do dia-a-dia negam com o imperativo do "agora não". Deixe-me levá-lo pela "mão" e registe algumas moradas onde, tenho a certeza, quererá voltar.
Conhece o parque Bensaúde ou o Palácio Beau Séjour? O palácio Fronteira e os seus jardins setecentistas, a mata de Monsanto e os seus trilhos de bicicleta? Já subiu ao alto da Serafina e contemplou o rio, a ponte e metade da cidade adormecida lá em baixo? Já percorreu o Jardim Zoológico de lés a lés e descobriu os locais mais recônditos e inspiradores do nosso imaginário infantil?
Já provou os bábás do Califa, os pastéis de Chaves do Arabesco ou os Scones com passas do Sr João, ao lado da CEBE e do Fernão Mendes Pinto? Já se deliciou com o apetitoso frango do churrasco da Delícia de Benfica,logo ao lado? Já levou para casa as tartes de maçã, nata ou pêssego da padaria da D. Cilinha na Travessa de S. Domingos? Já comprou queijos, fruta ou vegetais, pão alentejano, no Sr. Ferreira, junto à cabine telefónica do outro lado da estrada? Já sentiu o sabor do açúcar baunilhado e a canela a derreter-se na boca à primeira dentada de um pastelinho de nata na confeitaria do mesmo nome? Siga o cheiro a café e peça para embrulhar as farripas de laranja envolvidas em chocolate da casa dos cafés, os bolos sortidos para o chá, as amêndoas de geleia de fruta na altura da Páscoa ou as broas castelares em Dezembro.
Rendeu-se? Os itinerários são muitos e não se esgotam aqui. Saia sempre com tempo, liberte os sentidos e deixe-se perder. Acredite, vale a pena morar num bairro assim.

06/12/11

O estádio

Passar Página, nova livraria em Benfica


Quando regressei de férias a Lisboa, no mês de Junho, fiz uma óptima descoberta. Benfica tem mais uma livraria e uma livraria original. Era dia de eleições, o meu irmão ía votar à Escola Delfim Santos e, como não me apetecia estar nas filas de voto e aquela nova porta me chamou a atenção, fui lá espreitar. Foi desta maneira que descobri a Passar Página. Na altura, lembro-me de ter pensado que a livraria tinha poucos livros, mas ainda não sabia que tinha aberto apenas no mês de Maio. Como havia pouca gente para votar fiquei por ali pouco tempo.


Fui novamente de férias no mês de Novembro e o acaso quis que voltasse a entrar neste espaço, numa manhã de greve que me escapou. Dei com o nariz no metro do Alto dos Moinhos, quando pensava ir dar uma volta à feira da ladra. Não me tendo apetecido esperar que as portas do metro abrissem, voltei para trás. Pensei em ir beber um café ao Colombia e nesse instante, o meu olhar escapa-se para a direita e então lembro-me da tal livraria. Por curiosidade volto a entrar. Sento-me ao fundo, na parte da cafetaria, peço um café e um pastel de nata e fico a observar. O café está cheio e a livraria movimentada. Desde a última vez que lá tinha passado cresceu. Está cheia, é uma livraria generalista, com novidades, romance e livros infantis mas também com algum ensaio. Há boas escolhas. Depois do café perco-me nos livros infantis. E vou circulando por entre as mesas. Vejo que há jornais à disposição para quem quiser ler enquanto bebe um café, há uma esplanada, há mantas que se podem levar para a esplanada em dias de sol frios, mas há sobretudo bons livros e também boa mesa... e afinal de contas é uma livraria nova, uma livraria de bairro, em Benfica... sorrio ao ver os clientes que olham para as mesas e para as prateleiras, que folheiam à procura de um livro (ultimamente vejo as livrarias desertas). O atendimento é profissional e muito simpático. Penso que não me apetece mais comprar livros na Fnac, penso que enquanto os 5% de desconto não me fizerem grande diferença comprarei na livraria do meu bairro que tem bom atendimento, que traz pessoas para a rua... e tenho esperança que outras pessoas pensem também assim e que desta forma estas livrarias possam continuar a existir!

Vale a pena ir espreitar a Passar Página,
Rua Maestro Frederico de Freitas, 5 A e B
(mesmo em frente à escola Delfim Santos)


As fotografias para ilustrar este post foram retiradas da página do Facebook da livraria Passar Página