30/06/10

E se um dia alguém lhe oferecer flores...



Esta é uma história que está muito, muito atrasada, mas às vezes sou atropelada pelas tarefas quotidianas e não há nada a fazer.
Passou-se no dia da mãe. O Domingo estava calmo, com menos barulho de autocarros e movimentações na Estrada de Benfica. (Plácidos Domingos em São Domingos de Benfica).
Felizmente a florista aqui da rua estava aberta e desci para comprar as costumeiras rosas. Enquanto esperava, com o bebé no sling, que os devidos arranjos se fizessem entrou uma jovem mulher. Era rechonchuda, cabelo curto (mesmo curto) com madeixas louras pronunciadas, t-shirt branca e um avental preto. Achei que era uma cabeleireira, tinha ar disso. Entrou rápida, espavorida, olhou para todo o lado...
- Onde é que estão...? Ah, já encontrei!
(dirige-se às jarras com flores)
- Olhe, queria três destas rosas vermelhas. São lindas não são, o que é que acha? (espera, duvida)... Não, assim se calhar é muito vermelho, ponha uma mais clarinha.
A florista diz:
- Sim, assim fica melhor. Quer um arranjo?
- Sim, um arranjo bem bonito. Pago o que for preciso! E pode por um cartão? Desses a dizer "amo-te", 'tá bem?
A florista acena que sim com a cabeça. Permanecíamos em silêncio.
- E já agora, pode entregar ali na Colmeia? Em meu nome, 'tá bem? Célia, não se esqueça. Um arranjo vistoso, mesmo que seja preciso pagar mais. Já que ninguém me oferece, ofereço eu!!
- E agora tenho de ir. Ninguém me pode ver sair daqui.
Assomou-se à porta, olhou para todos os lados e saiu, subindo a rua, no sentido contrário à Colmeia. Ficámos a sorrir, espantadas com tanto à vontade e divertimento!

São Domingos de Benfica Ontem e Hoje (6)

Falava eu aqui no outro dia no Mimo de Benfica, o café do Sr. João, onde tudo tem uma apresentação limpissima e arrumadissima e onde são todos muito bem educados. Apetece-me voltar a falar neste café porque quando regresso a Lisboa não deixo de passar por la para beber uma italiana enquanto espero pelo autocarro. Este mês de Maio não foi excepção... é engraçado pensar que passaram 5 anos que ja não vivo em Lisboa e quando entro la dentro, apesar de apenas trocarmos um "bom dia", sei que conhecem o meu pedido, mas perguntam sempre por educação e nunca se esquecem de trazer o copo de agua que não pedi mas que queria pedir... dizia eu que em tempos aqui tinha existido uma mercearia e que não me lembrava do nome do senhor e da sua esposa. Pois também me cruzei com ele no mês de Maio e como relembrava aqui um dos nossos leitores, era a mercearia do Senhor Baltazar


Agora olho para a fotografia a preto e branco, vejo os carris do electrico e penso se nesta altura, naqueles toldos ja existiria a dita mercearia ou se existiria ali outra coisa. Em todo o caso, mesmo a preto e branco, parece uma tarde de Verão de Sabado e de Agosto, lembro-me de la irmos comprar guloseimas enquanto disfrutavamos vagarosamente dos três meses de férias...

24/06/10

Teatro nos jardins do Palácio do Beau Séjour

‘O Burguês Fidalgo’ é uma divertida comédia de Molière, que estará em cena, de Terça-feira a Domingo às 20:00, a partir do dia 24 de Junho nos românticos jardins do Palácio do Beau Séjour, em plena Estrada de Benfica.



João Didelet é o protagonista desta peça – que estreou pela primeira vez no dia 23 de Novembro de 1670, em Paris – e que, com extraordinário humor, nos conta a história de um burguês, o Sr. Jordão, que não poupa esforços nem dinheiro para se tornar membro da nobreza; desenvolvendo dois vectores: os anseios da burguesia em se tornar parte da nobreza e a falta de conhecimento e cultura intrínsecos a esses aspirantes.

fotografia de José Chaves


O público será recebido pelos actores e músicos que o convidarão a sentar-se a uma ampla mesa de banquete, com o Palácio do século XIX como fundo de onde poderão ser cúmplices da acção e acompanhar o pôr-do-sol.

A excelência do texto e do elenco e a beleza dos jardins do Palácio do Beau Séjour são motivos mais do que suficientes para não perder esta co-produção do Grupo Cassefaz com a Câmara Municipal de Lisboa e o Ministério da Cultura, para toda a família.

A adaptação do texto de é de Claudio Hochman e Fernanda Paulo com tradução de Guedes de Oliveira. A encenação e o espaço cénico são também da responsabilidade de Cláudio Hochman que dirige o elenco composto por: Alexandre Ferreira, Catarina Guerreiro, Fernanda Paulo, Joana Duarte Silva, João Didelet, Marina Albuquerque, Miguel Sopas, Paulo Duarte Ribeiro e Sílvia Filipe. A música original de Daniel Schvetz é tocada ao vivo por Ana Mendes, Pedro Silva e Rui França. Os figurinos são da Paloma del Pozo – Ojalá Diseños Madrid.

A estreia desta peça marca o arranque do programa “Porta-Voz Cultural” que visa estimular o desenvolvimento do teatro em Portugal, a formação de um público mais participativo e uma maior e melhor divulgação dos espectáculos, através de um acompanhamento dos públicos no sentido de facilitar a cada espectador interessado, a organização da sua (e a do seu grupo de amigos) agenda cultural.

Como ser um “Porta-Voz Cultural”?
Basta enviar um e-mail para info@cassefaz.com com a frase “Quero ser um porta-voz cultural” e passará a aceder gratuitamente a espectáculos de teatro em 2010, 2011 e 2012.


A entrada é gratuita (sob reserva e condicionada à lotação do espaço) pelo que recomendamos que faça já a sua reserva através do e-mail: info@cassefaz.com ou do tel. 213 420 136.



Ementa 1


ENTRADAS

Salada de salmão
Ou
Tomate com Mozarela e pesto
Ou
Ovos mexidos com farinheira

PRATOS

Salada fresca de bacalhau com grão
Ou
Bacalhau com natas
Ou
Lombo de Porco com ameixas
Ou
Couscous de frango marinado em especiarias


SOBREMESAS

Mousse de Manga
Ou
Mousse de Chocolate
Ou
Frutas variadas

BEBIDAS
1 refrigerante
ou
1 àgua
ou
1 Taça de vinho

Café

Preço por pessoa: 15 €


Ementa 2

PRATOS

Salada fresca de bacalhau com grão
Ou
Lombo de Porco com ameixas
Ou
Couscous de frango marinado em especiarias


SOBREMESAS

Mousse de Manga
Ou
Mousse de Chocolate
Ou
Frutas variadas


BEBIDA
1 refrigerante
ou
1 àgua
ou
1 Taça de vinho

Nesta ementa não está incluido café

Preço por pessoa: 10 €

Ementa Infantil
1 bebida+ esparguete à bolonhesa+ gelatina= 6,5€*
Nota: acresce 1€ se quiser sopa



Palácio do Beau Séjour
Estrada de Benfica, 368
Estação Metro: Alto dos Moinhos, Linha Azul
Autocarros: 16, 54, 68, 746, 758
Serviço de jantar disponível após a representação se marcado com 24 horas de antecedência e conforme lista de disponibilidade.

Para mais informações contactar:
Raquel Prata de Oliveira
raquelpratadeoliveira@hotmail.com
raquelpratadeoliveira@gmail.com
961 702 921
http://www.cassefaz.com/

Fotografias e texto da Cassefaz

Noticia enviada por João Valente, a quem muito agradecemos!

23/06/10

O laçarote na cabeça

















Nunca sabemos, ao certo, qual a primeira recordação consciente da nossa infância.
Sei que nasci e vivi em Belém, onde o meu pai tinha uma Pharmácia (com Ph). Também me contaram que a Amália Rodrigues e a irmã, Celeste, iam lá bastantes vezes - havia um empregado bonitinho...
Mas a minha primeira recordação é do tempo em que os meus pais decidiram ir viver comigo e com o meu irmão, um ano mais velho, para a Avenida Gomes Pereira, em Bem-Fica. Parecia-me enorme, nessa época, nos finais dos anos 40.
Hoje em dia, já ninguém reconhece a mesma Avenida como era mas, por estranho que pareça ou por coincidência - há quem diga que "não há coincidências" - a vivenda, em cujo rés-do-chão fomos viver, até há pouco tempo era a única casinha baixinha que se encontrava de pé ( ainda não havia sofrido a sofreguidão dos edifícios de andares que acabaram com a magia da bela Avenida) e ficava situada do lado direito, mais ou menos a meio,  de quem sobe.
A razão dessa vida nova foi o facto de o meu pai ter sido convidado para Farmacêutico dos Laboratórios Atral, que ainda existem, hoje em dia, mas não ali, que fora o início. Também recordo que a primeira sede do Clube Benfica era nessa Avenida, mas do lado oposto à nossa casa, assim como a célebre Fábrica Simões - de malhas, se não estou em erro.
Era uma Avenida imponente com árvores frondosas, quase toda ladeada de vivendas com grandes jardins, eu diria antes grandes quintais, porque a maior área ficava na parte de trás das ditas vivendas ou chalêts.
O meu irmão, que tinha 4 anos, passou a frequentar o Colégio da D. Isabel Aboim, que ficava situado, igualmente numa vivenda imponente, mais acima, do lado oposto à nossa casa e já perto da Estação de Caminho de Ferro.
E interessante verificar que temos quase sempre uma memória especialmente afectiva em relação a quem nos ensinou as primeiras letras.
Pois a D. Isabel, a ideia que tenho dela, é a de uma senhora alta, de carrapito, com um camafeu bem colocado a fechar a golinha alta do seu vestido bem abotoado até ao pescoço. Impunha respeito só pelo aspecto austero! Mas tinha uma pequena fraqueza que eu, já muito observadora, acabei por descobrir.
Tenho de fazer um àparte para fazer: com três anos, fui também frequentar esse colégio, onde o meu irmão já andava porque, nem sei como, aprendera a ler, ao presenciar o meu irmão a estudar e a fazer os trabalhos de casa. A minha mãe contava que eu costumava corrigí-lo, por vezes, e havia sido eu, com apenas três aninhos, que insistira em ir para o colégio - tão pequenina como sempre fui!
Nessa época não havia Jardins de Infância e ia-se, geralmente, iniciar a Escola Primária aos cinco/seis anos.
Querem saber qual era o fraquinho da D. Isabel? O marido que, segundo constava, era 12 anos mais novo! Um grande Amor!
Só me lembro de ver o meu irmão como aluno, pois só via meninas. Eu continuei lá até à quarta classe e o meu irmão foi para o Colégio S. João de Deus, na Avenida Alvares Cabral, em Lisboa. O meu pai levava-o de carro.
Como era a vida num colégio de meninas nos finais dos anos 40 e início dos 50? Para além de cadernos e cadernos de caligrafia de duas linhas, cheios de palavras e frases. para se ter um letra bonita, havia as longas aulas sonolentas devido à lenga-lenga da Tabuada: 2x1=2, 2x2=4... e assim por diante - de somar, de diminuir, de multiplicar, de dividir... Era um nunca mais acabar de canções de embalar. Mas o engraçado era que até gostávamos de nos sentirmos, como se estivéssemos a navegar num barquinho a remos, pois as cabecinhas e os corpinhos das meninas também faziam uma espécie de bailado acompanhando a cadência dessas "mornas"!
Eu tive mais sorte do que outras coleguinhas, pois comecei a aprender a tocar piano, lá no colégio, com a D. Cândida que era amiga da D. Isabel e, com quatro anos, fiz a surpresa aos meus pais de tocar uma pequena peça inteira.
Da parte da tarde as meninas, quando estava bom tempo, levavam cadeirinhas para o jardim do colégio... e foi assim que aprendi a bordar.
Com quatro aninhos já sabia ler, escrever, contar, tocar piano e bordar! Uma verdadeira prenda!
Não havia lojas na Avenida Gomes Pereira. Lembro-me de que havia uma espécie de mercearia tradicional  já na esquina para a Estrada de Bem-Fica e a coisa melhor que me podiam dar eram os célebres gatinhos de chocolate embrulhados em papel de prata. E até me lembro de um episódio insólito devido à minha já adição ao chocolate, na altura só na forma de gatinhos.
A minha mãe tinha-me levado ao dentista - num primeiro andar de um pequeno prédio de dois andares com uma escada tenebrosa de madeira, na estrada de Bem-Fica, para ele me tirar um dente de leite que estava quase a cair. Mas quem disse que eu deixava tirar o dentinho? Nem pensar! O Dentista ouviu palavrões, que a minha mãe nem sonhava que eu alguma vez os conhecesse e muito menos os dissesse. Lembro-me bem de lhe dizer: "Sua besta!" em altos gritos. Imaginem uma menina tão bem-educada e sossegadinha a dizer coisas destas a um adulto!!!
Mas quem ganhou fui eu! O dente é que não ficou lá! Voltou comigo, novamente, e ainda recebi um prémio, pois a minha mãe lá me comprou mais um gatinho desses e, para meu espanto, ao trincá-lo, solta-se o dente. QUE ALIVIO para todos e, especialmente, para mim, está claro!
E fico por aqui, com a sensação de ter voltado a ter quatro anos e um grande laçarote na cabeça.


Milinha e a sua estória de menina na Avenida Gomes Pereira, em Bem-Fica


Um belíssimo  e terno depoimento sobre Bem Fica da autoria de Emília Donas-Bôto. 
Aguardamos por mais memórias tão bonitas.

Paraíso II - Não lhe olhem à figura.


Sentada na mesa de conferências, o seu frágil aspecto e a sua postura simples, iluminada pelos projectores e ladeada por homens de porte médio/alto, diminuíam-lhe ainda mais a figura, colocando-a numa situação de quase não presença, ou na figura honorífica da cerimónia.
Refiro-me a Manuela Azevedo, primeira mulher, em Portugal, a ter carteira profissional de jornalista, mentora e coordenadora da colectânea, em apresentação, “Cartas de Manuel Teixeira Gomes a João de Barros”. Figura de estatura miúda, pequena e magra, de cabelo ralo, grisalho e ligeiramente despenteado, olhos pequenos mas vivos, movendo-se com a dificuldade própria dos seus 98 anos.
- Coitada da senhora com esta idade, vai certamente apresentar agradecimentos e termina a sessão.
Começa a falar e preenchendo a sala com a sua voz nítida e teatral, logo cativa toda a assistência, faz ecoar nos nossos pressupostos cada palavra do seu claro discurso. De improviso, sem papéis ou notas de apoio, socorrendo-se da sua espantosa capacidade, cita de memória factos, datas, nomes, conta histórias, cambia o discurso entre o académico e o bem-humorado, interrompendo-o diversas vezes com apropriados parêntesis, findos os quais volta, sem dificuldade, ao ponto exacto onde tinha ficado. Um encanto, uma delícia de mulher. Não lhe olhem à figura.

Eis quando senão, num parêntesis, faz referência à revista Vida Mundial (onde chefiou a redacção), e faz-se flash na minha cabeça e perco-me no abrir da janela que, transpondo-a, coloca-me de volta à Pastelaria Paraíso.
Deliciosamente estou sentado na mesa do costume, com meu irmão João, comprador assíduo da Vida Mundial, e retomo as nossas conversas opinativas sobre os assuntos lá publicados: Guerra do Vietname, o congresso de Aveiro do Centro Democrático Eleitoral (CDE), a vigília da Igreja do Rato, a ala liberal da União Nacional, os discursos na Assembleia Nacional, a criação da CEE, os números da OCDE, o Watergate, 

A grande sala da Pastelaria Paraíso está igual ao que sempre foi.
Mosaico a imitar pedra no chão, duas filas paralelas e centrais de mesas com quatro cadeiras, dispostas de forma enviesada, ladeadas por outras duas filas de mesas com duas cadeiras, encostadas ao longo das paredes, estas forradas com lambril de pedra, encimado por uma banda de espelho (mais ou menos com cinquenta centímetros), que as percorria totalmente, só interrompida pelos vãos geminados das portas de acesso aos sanitários e pela separação da área do balcão feita pelas vitrinas dos doces.
Na parede mais longa, a nascente, lá está o alto-relevo que a Lena tanto recorda.

A Paraíso foi o meu sítio de estudo.
- Sr. Prezado, era um carioca, se faz favor (hoje o Sr. Júlio deve estar de folga).
Trago a fisga no bolso de trás e na pasta o caderno dos deveres, diga lá, Mestre-escola, se for capaz, qual dos dois é o melhor saber”.
- E se fossemos jogar ‘matrecos’.
Palavras mágicas que transformam conversas e estudo num intervalo gostoso, e num ápice lá estamos nós na cave suja e mal iluminada da Cervejaria Max (na Grão Vasco), perante aqueles belos campos verdes repletos de bonecos, todos com a mesma cara patusca e esfolada, equipados com ‘fatos’ do Benfica e do Sporting, rigorosamente alinhados de pés juntos: três avançados, cinco médios, dois defesas e um guarda-redes. Não lhes olhem à figura, pois estão prontos para mais um momento de forte libertação de adrenalina. Bola em jogo, roda o punho, passa, atrasa, finta, remata e:
- GOOOOOOOLO!
E todos de pé fazem ecoar pela sala as palmas, agradecendo o belo e delicioso momento que Manuel Azevedo nos permitiu viver.
Igualmente bato palmas a Alejandro Campos Ramirez - "Finisterre"
Texto de Miguel Gil

21/06/10

A carroça do pitrolino


A carroça do “pitrolino”
(para a Helena Águas, que não se lembra da loja do pitrolino)

Leninha: eu cá vivi mais de 10 anos no 27 A da Estrada da A-da-Maia, em frente ao café do Sr. Quaresma, que tinha a pista de automóveis eléctricos.
(Ainda hoje aí temos um duplex T9 à venda, mais uma loja).
Quanto ao "pitrolino", que era um edifício azul feio, e terminava em quilha de barco, no início do lado direito da JFL de quem vem da Estrada de Benfica. Era uma loja muito antiga, drogaria e carvoaria, anterior ao Bairro, que vendia carvão e sabões. Sobre a loja havia um pátio descoberto e  gradeado, que dava para as duas ruas: a futura JFL e a Estrada da A-da-Maia.
O "pitrolino" era dinâmico e tinha uma carroça de alumínio (modernaça) que percorria os dois bairros, vendendo sabão azul (macaco) e amarelo (amêndoa) em barras. O primeiro era para a roupa,  e segundo era para o chão, geralmente em madeira.  As nossas mães e empregadas compravam uma determinada medida, e o homem cortava as barras com uma faca depois de medir as quantidades com uma fita ou paus. Além dos sabões, vendia outros detergentes e petróleo, benzovaque (para as nódoas da roupa), álcool para assar chouriços, cera ao peso em papel vegetal e caixas de fósforos muito  grandes, com um tipo careca sentado num maple, de costas, e a fumar (custavam 8 tostões, que era um balúrdio).
O prédio velho e pouco alto foi deitado abaixo e construído o que agora lá está, e sendo o anterior em quilha (com um candeeiro miserável pendurado na junção das paredes) e dando para as duas ruas, este agora de 1963 ou 1964 contorna o o arrredondamento    entre as duas ruas, tendo no r/c a loja do Amorim e na zona da Estrada da A-da-Maia uma tasca que vendia ginjinha.  A primeira loja na zona da JFL foi a dos vidros - mas depois trocaram, e ficaram como hoje estão . O Sr. Amorim, no tempo do pitrolino, era um jovem simpático que trabalhava para o Sr. Madureira, numa mercearia situada na enfiada da Igreja de Benfica onde agora estão aquelas sobrelojas (o Sr. Madureira, era também dono do café Paraíso, situado de fronte da dita, muito frequentado por Eusébio e outros jogadores do Benfica da altura, como o teu pai, o Cávem e etc.).
Questão final: a carroça do pitrolino era puxada por uma égua branca esbelta e grande: como se chamava o animal?

Fotografia da AML

Festeja-se em Benfica...

Os Santos Populares e a vitoria de Portugal...


Fotografias de Ana Sa

Feliz



Uma moradora de Benfica, em 1982. Já aqui falámos dela, Lina Demoel. Aqui estava feliz.
Clicar na imagem para ampliar.

Qual escuro?














Fui morar para Benfica em 1958, vindo da Rua António Patrício, em Alvalade, onde nascera.
O meu pai e a minha mãe trabalhavam,  e quando não vínhamos para Benfica de carro, com o meu pai, vínhamos no 46 – que era um autocarro de dois andares inglês, de marca AEG, com caixa de velocidades semi-automática colocada numa caixinha junto ao volante. Os motores faziam um chinfrim do caraças, os escapes lançavam uma fumarada negra e malcheirosa que subia a um terceiro andar e as montras abanavam todas.
A minha viagem preferida era de pé em frente à porta de ar comprimido, junto à janelinha que dava para a cabina do motorista, de onde vinha o caminho todo a observá-lo com atenção – a torcer o pesado volante, a criticar os carros que não andavam, enquanto que com um estranho jogo de pés, ia acelerando ou travando, chiando pela cidade fora.
Naqueles primeiros anos, o 46 ia das PORTAS DE BENFICA aos RESTAURADORES – deixava-se ficar a descansar à porta do Palladium, com o motor desligado e o motorista cá fora a fumar um cigarro na conversa com o pica-bilhetes. Sim, porque os autocarros da Carris tinham dois colaboradores em cada carro – um que conduzia a máquina e um outro que vendia os bilhetes, cujo preço variava consoante as distâncias das viagens – apelidadas de zonas. Ambos usavam gravata e um chapéu de pala, tal como os polícias, os fiscais da CML, os varredores, os taxistas e os ardinas. Os da Carris (embora nem todos), no Verão, usavam uns casacos mais leves, de cor beije.
Em Benfica, quem ia para o Bairro de Santa Cruz, ou saía do 46 na paragem da Igreja (para irem para o Bairro de “cima”), ou junto aos antigos Correios (quem ia para o Bairro de “baixo”). No meu caso, saíamos nesta última e seguíamos pela Estrada da A-da-Maia, onde havia prédios de um lado e outro e que acabava na loja manhosa do “pitrolino, e depois entrávamos num descampado com um carreiro a meio: era a futura João Frederico Luduvice e o Jardim da Casquilha. Atravessávamos um descampado imenso até nossa casa, situada sensivelmente a meio do primeiro quarteirão do bairro, na rua da Casquilha. Esta, era a rua principal do bairro, pois era a mais larga, e detinha o nome da quinta que dera lugar ao novo casario – a Quinta da Casquilha.
A quinta ficara reduzida aos terrenos da futura JFL, que ainda não tinha quaisquer prédios, e mantinha umas poucas vacas, ovelhas e galinhas – e um único trabalhador: o Sr. Alberto. Este, já quarentão, era um gajo porreiro, e fazia uns cobres a vender leite fresco, ovos e galinhas – que todos os dias gastava na tasca do Sr. Aníbal – que nos vendia rebuçados com bonecos da bola e veio a morrer dentro de um poço.
Mas o que agora importa é que quando a noite caía cedo, no Inverno, como não havia candeeiros, e tinha ido a “Lisboa” ou fazer algum recado à mercearia do Sr. António, vinha muitas vezes às escuras desde o “pitrolino” até casa.
Era um drama.
Não havia sacos de plástico, e carregado desajeitadamente com um ou dois embrulhos, metia pela zona desértica de gente e com lama originada pela chuva, para chegar mais depressa a casa, fugindo de ser raptado, assaltado, roubado, espoliado, agredido, esfaqueado ou, simplesmente, perseguido. Até aos 14 anos andávamos, habitualmente, de botas (no meu caso, cardadas), e eu metia pressa nas pernas perras pelo carreiro fora mais rápido que o Obiquela, e só quando passava o portão do quintal e o fechava, é que ficava encostado a ele a arfar, com os óculos embaciados e limpando o suor da testa com a manga da camisa. Só então sacudia lentamente a lama acumulada nas solas. Nunca sabia o que por ali me perseguia: um bicho danado, um carniceiro louco com uma faca mal afiada, um malfeitor recém-evadido, ou um carrasco sedento fugido de um filme da televisão. Nunca os encontrei, mas sempre os senti atrás de mim pelo carreiro acima.
Quando a minha mãe finalmente abria a porta, ficava a olhar surpreendida o carreiro lá longe na escuridão, e em voz sussurrante perguntava-se:
-Não tiveste medo do escuro?
E eu respondia prontamente indignado:
-Qual escuro?

Texto de Carlos Pessoa Domingos

15/06/10

Palácio Fronteira



Regresso então ao Palácio Fronteira. Desta vez para uma visita. É um dia de sol e por isso, de acordo com a sugestão de um dos senhores que lá trabalha, é um óptimo dia para visitar os jardins. Paro na Conchita para beber um café (gosto de rituais) e atravesso na passadeira aéria. A tranquilidade do outro lado da linha conforta-me.




Entro no Palácio olho para a esquerda e tudo é de um verde resplandescente. Compro o meu bilhete, quero a visita integral e não apenas os jardins. Dou uma volta pela loja e compro uns postais. No átrio há mais pessoas à espera, todas estrangeiras. Pergunto em que língua será feita a visita e o senhor diz-me que em principio seria em francês, mas que se eu fizer questão será em português. Digo que não me importo que seja em francês e sorrio enquanto penso que mudei de país mas não mudou a língua. A visita começa na casa, subimos e entramos na Biblioteca, a assoalhada que mais me agradou. Tem uma janela grande e uma belíssima vista sobre o jardim. Visitamos o resto da casa, a Sala das Batalhas, também muito interessante, é forrada de azulejos que contam histórias. Mas tenho pressa de ir ver o resto do jardim.


Enquanto esperava que a visita começasse fui rapidamente espreitar e já não me apetecia sair de lá. A visita da casa chega ao fim e abre-se uma porta que nos permite aceder ao jardim... ao magnifico jardim. Penso em como é possivel ter vivido ali tantos anos sem conhecer aquele lugar. Apetece-me fotografar tudo, as cores são lindíssimas, os azulejos magnifícos, há pormenores a não perder.























Mesas e cadeiras em ferro forjado, e com estofo azul para combinar com as paredes do jardim... e com o céu... Olho para o pormenor do cinzeiro e naquele momento apetece-me ser fumadora.



Os cortinados são brancos, imaculados... Branco, verde, azul, cinzento... As estatuas tornam aquele lugar misterioso e cheio de sensualidade.



Vou passeando por ali, no labirinto dos jardins. Olho para o jardim de um lado, depois de outro e vejo sempre coisas diferentes... mas vejo sobretudo muitos prédios ao fundo... é São Domingos de Benfica... o primeiro Marquês da Fronteira nunca imaginou que a vista do Palacio um dia seria assim...




Acabo a visita no painel da Paula Rego. Penso nesta manhã cheia de inspiração e penso que terei que voltar... e que os leitores do Mercado que não conhecem gostarão muito de lá ir.






13/06/10

That's when good neighbours become gooood friends...


Lembro-me de ser pequena e de andar com a minha vizinha de baixo e com o meu vizinho do lado com uma lata do tipo mealheiro a pedir « uma moedinha para o Santo António ». Pedíamos a qualquer pessoa que cruzássemos na rua, entrávamos nos prédios, e batíamos às portas sempre com a mesma lenga-lenga. O Santo António era o nosso Santo do Verão, o que nos permitia comprar gelados e guloseimas na Dona Helena e no Senhor Ferreira nos dias que se seguiriam. Nessa altura toda a gente achava graça a este ritual e a maioria das pessoas contribuía para o nosso “Verão Azul”.

Os miúdos mais crescido lá da rua também andavam a pedir, eles com mais credibilidade do que nós, pois o pedido deles era para a organização da festa da rua e nós, os putos, acabávamos por ser mais ou menos uma pedra no sapato, pois se nos davam a nós, não iam depois dar-lhes a eles. A festa tinha lugar um bocadinho antes de chegar à Dona Helena, mesmo ao lado da janela da Dona Fernanda. Aí faziam uma espécie de um bar e do outro lado havia um assador. Lembro-me de o meu irmão e eu termos ido a essas festas umas duas ou três vezes… e depois acabaram. Anos sem Santo António na Montepio…

Os anos passaram… muitos anos… e aqueles que anos antes eram “os putos” tomaram conta da rua e continuam a perpetuar a festa… fazem isto cheios de boa vontade, gostam de agradar os vizinhos, do espírito da vizinhança… a rua é deles… os preparativos começam a desenhar-se uns dois dias antes. A vizinhança atenta começa a estacionar os carros em lugares estratégicos que depois se tornarão no espaço da festa. Muita gente participa, os comerciantes contribuem e nesses dias há muitos braços que preparam a noite. Há música improvisada, o caldo verde feito pela mãe do B. um bolo feito por outra vizinha, a sangria feita por um vizinho. Um empresta isto outro empresta aquilo e a coisa vai-se compondo. As raparigas cortam os papelinhos para enfeitarem a rua, outros trazem manjericos para simbolizar o dia e as pessoas vão chegando.

… pela noite dentro… a festa vai animada e penso no Valete e no Boli (coisas também do tempo em que toda a gente da rua tinha uma alcunha) que têm o coração na mão e nunca se esquecem da festa de Santo António na Montepio Geral… e apetece-me cantar

Neighbours, everybody needs good Neighbours
Just a friendly wave each morning, helps to make a better day
Neighbours, need to get to know each other
Next door is only a footstep away
Neighbours, everybody needs good Neighbours
With a little understanding, you can find the perfect blend
Neighbours, should be there for one another
That's when good Neighbours become good friends

Para ouvirem a musica cliquem
aqui!

12/06/10

Estrada de Benfica 411 e 413

Foi a primeira surpresa quando cheguei a Benfica. Depois de 6 horas de viagem de carro chegamos à rotunda da Rua Mariano Pina. Viramos à equerda e entramos na Professor Reinado dos Santos. Ainda não foi desta que consegui tirar fotografias, gosto muito desta rua especialmente no Verão e no Outono. Quando o carro começa a descer o meu olhar para em tudo à procura de novidades. Mais abaixo viramos à direita, passamos os Maristas e paramos no sinal. Sinal verde. Viramos novamente à direita e fico de boca aberta. A primeira ideia (porque estava sem óculos) é a de que o 409 foi abaixo, mas quando nos aproximamos vejo que foi “A”casa de esquina, das poucas que restavam do tempo das vivendas. Aquela de que já tinha falado aqui há bem pouco tempo. É o fim da tarde, há muito trânsito e não podemos parar. O meu irmão diz-me “foi sem mais nem menos, há dois dias” – nada faria prever que isto acontecesse...

Pousamos as coisas, instalamo-nos e mais tarde vamos comer os meus primeiros caracois de Maio ao 409. A imagem da escavadora deixa-me siderada, a pensar por que razão terá aquela casa sido vendida. Parecia habitadissima. Pergunto ao Luis, ele diz-me que os donos venderam e que vão ser ali construidos dois prédios. Outras pessoas disseram-me que a senhora recebeu uma boa soma para deixar a casa e que foi viver para o Largo Conde Bonfim...



Penso que tenho que lá voltar para tirar fotografias durante o dia, mas não voltei (pelo menos com máquina), tenho apenas estas fotografias tiradas de noite, depois dos caracois. Com tudo escavacado percebo que aquele terreno estava mesmo encostado à
Vila Grandela, pensei que existiam ali duas coisas: a casa e o jardim ao lado. Lembro-me de quando tirei a fotografia através de um buraco que existia naquele portão. Como eu gostava de ter aquele jardim com aquele anexo.

Fotografo o painel grande que ali afixaram. Só estou a lê-lo hoje “Conclusão da obra 7 de Junho de 2010” e penso que não é possivel.


E lá foi mais uma parte daquilo que foi São Domingos de Benfica... começam a ficar poucos vestigios desses tempos. Penso numa noite de sábado em que apanhei um taxi no Bairro Alto. Peço ao senhor para me levar à
Rua Montepio Geral e começo a explicar-lhe onde é, porque é raro saberem. O senhor diz-me “não se preocupe que eu sei onde é, menina”. Continuamos a viagem em silêncio. Ele vira na Rua Sousa Loureiro e quando entramos na Montepio ele diz-me: “sabe, era eu jovem taxista, nesta rua só havia vivendas. Hoje em dia já só resta esta”... mas qualquer dia, nem esta haverá...

Paraíso

Paraíso é  um nome muito engraçado associado a anjos, branco, nuvens, música suave, vozes doces e pausadas, mas a Paraíso que vos quero falar é  do género feminino, associada a pessoas, relativamente escura, onde pairam nuvens de fumo, se ouve o relato da bola e se fala alto e alterado.




 Quero falar-vos da Pastelaria Paraíso, em Benfica. 

PARAÍSO I 
A Pastelaria Paraíso, como eu a conheci, já não repartia o espaço com a mercearia com o mesmo nome e dono, o Sr. Madureira. Já todo o espaço era para serviço de pastelaria e café. Claro que uma área, a da direita para quem entrava (suponho que a da anterior mercearia), era ocupada por um balcão vitrina corrido paralelo à parede poente. Este balcão terminava num área de serviço, em que um comprido rasgo na parede nos permitia ter contacto visual com a cozinha e fabrico dos bolos.  
Esta zona era separada do salão de café, propriamente dito, por um conjunto de vitrinas altas de vidro preenchidas e recheadas de variadíssimas coisas doces e achocolatadas.
Quem entrava de dia na Pastelaria Paraíso tinha de primeiro se habituar à contrastante e fraca luminosidade do interior. Por outro lado, quem do interior espreitava os transeuntes na Estrada de Benfica dificilmente lhes identificava a cara, ofuscada pelo intenso reflexo da luz do dia, no branco da pedra da Igreja de N. Sr.ª do Amparo, que trespassava os vidros de toda a fachada do estabelecimento. 
Associo os meus primeiros passos soltos dentro desta tão maravilhosa casa á pretensa e ansiosa aquisição de tira de abóbora gila cristalizada. Era vendida ao quilo. Mesmo escolhendo a mais pequena e ‘magrita’ tira, esta foi pesada e apreçada além das minhas momentâneas posses. Tentativa frustrada. De pouco tinha valido a minha pequena aventura de sair do Bairro e percorrer a Grão Vasco com as moedas que a minha bisavó me dera na distribuição feita pelos bisnetos.  
Na altura já  seriamos talvez seis irmãos, sendo que dois ainda não tinham crescido o suficiente para serem presenteados neste pequeno ritual. A minha bisavó guardava as moedas entre dois nós do lenço de assoar que não o usava como tal. Chamava-nos um a um pelo nome e quando já estavam todos os bisnetos ‘crescidos’ presentes, sentada começava por retirar o lenço do bolso dissimulado no avesso do avental, iniciava a desatar o nó mais interior do lenço, enquanto introduzia conselhos sobre como se devia usar o dinheiro que nos dava, concluindo por dizer:
- Tomem lá  meus queridos netos, tenham juízo, não o gastem mal. 
Tinha de conseguir comprar a tira de abóbora gila cristalizada, pensei… já sei:
- João, e se fossemos comer uma tira de abóbora cristalizada? Podíamos comprar a meias, o que achas?  

Texto de Miguel Gil
Foto roubada do site da maravilhosa Confeitaria da Ajuda.

10/06/10

A Caverna de Ali Babá
































































Assim como dois felizes ladrões, salvo seja, entramos lá. Tantos livros! Somos recebidos com a habitual simpatia e afabilidade da Lúcia. Perguntamos por este e outro autor, ou por determinadas  publicações e vamos desbravando terreno. O tempo voa e fico com a sensação de sempre. Ainda há muito para explorar e  urge voltar aqui. 
Clicar nas imagens para ampliar.
Para quem ama livros é obrigatória a  visita a este espaço. Em Benfica, a Livrarte na Avenida do Uruguai., nº 13 A. E não se esqueçam de descer à cave!

06/06/10

Há dias assim.

















Dias em que nada corre bem, em que até o ar nos sufoca, ou em que a chuva teima em nos molhar. Nos dias em que nem o cumprimento de quem nos conhece, e com connosco se cruza, nos sabe bem.
Dias que, mesmo detestando, se repete para dentro, até à exaustão, quase masoquistamente, a frase popularizada: “Há manhãs, que um tipo à tarde, não pode sair à noite”.
Há dias assim. E ai daquele que, nesses dias azedados, se ponha no nosso caminho lamuriento.
Num desses dias, em ano que já passou há muito, procurei um pouco de reconforto entrando numa pastelaria de Lisboa. Não me lembro em qual mas, nesses dias, todas se tornam iguais.
Já era fim de tarde e pensei: - Isto com um bolinho passa. Daqui a pouco já dei cabo do azedume. Se um não chegar, como dois. Só a ideia de me poder ver livre de um dia assim me deu novo ânimo.
E entrei na pastelaria directo ao assunto que não tinha tempo a perder. Até estava com sorte, quase não haviam clientes. Verifiquei que a funcionária da pastelaria estava mesmo a terminar de atender o pedido de uma senhora. Assim, dava tempo de olhar os bolos e escolher aquele que melhor se encaixava na terapia para o azedume do dia. Olhei e fixei-me num lindo cone de chocolate, encimado por uma cereja cristalizada em ligeiro suporte de creme pasteleiro. Era grande, e o chocolate derretido cobria completamente toda a superfície do cone, desde a base até ao cimo, sem arestas, sem vincos, uma massa única e uniforme. Uma beleza de bolo.
Nem mais, é este! É mesmo este conezinho doce, que está a olhar para mim, que vai fazer o dia mudar antes da meia-noite.
Assim que ouvi aquelas maravilhosa palavras:
- E o senhor, o que vai ser? Respondi pronta e claramente:
- Se faz favor, aquele cone de chocolate! E com os olhos indiquei o percurso até ao cone, para ter a certeza que era aquele e mais nenhum.
As minhas palavras não tinham surtido o efeito esperado. A pinça dos bolos ficou impávida e serena no mesmo lugar. Será que o dia não vai mudar? Pensei, e quando levantei os olhos, obtive a resposta à imobilidade da pinça: - Não temos cones de chocolate!
Eu não podia acreditar. Afinal até na pastelaria o dia ia correr mal. Respirei fundo e com um movimento denunciado do dedo indicador apontei o cone de chocolate que eu queria, não podiam restar dúvidas, e disse:
- Este, este aqui!
Quando pensava que a dúvida estava esclarecida, eis senão:
- Ah! Este! Mas isto não é um cone, é uma pirâmide!
– Desculpe mas é um cone.  Disse-o sem ter a necessidade de recordar o mais elementar da geometria.
- O senhor vai-me desculpar mas isto é uma pirâmide! E nada da pinça dos bolos se mover.
O dia continuava assim, já não tinha réstia de ilusão, havia um complô organizado para me tirarem do sério. Ah, mas isto não vai ficar assim:
- Olhe, afinal já não quero o cone de chocolate, dê-me antes um Cubo-de-Berlim. E perante o olhar de pasmo da funcionária, saí.

Texto de Miguel Gil

Pastelaria Evian



Já por aqui se falou inúmeras vezes desta pastelaria... eu passei por lá numa manhã de Maio para ir reservar uma mesa no Edmundo que estava fechado uns dias para férias e outros tantos para remodelação. Decidi dar um giro por ali e tive que parar na Evian para beber um café. Não tive coragem para pedir para tirar fotografias e os senhores que estavam ao balcão tinham pouco tempo para conversar. Bebi um café, comi um docinho de ovos e guardei o pacote de açúcar para recordação e a pensar que voltaria dai a uns dias para fazer uma foto reportagem… mas não tive tempo...

Pouco sei desta pastelaria, mas deixo aqui uma fotografia para que conhece bem contar uma história. Temos postais “de” Benfica para oferecer.